A primeira travessia com o Gaia 1 do Rio de Janeiro até Santos

Veleiro Gaia no pier do ICRJ passando por reparos finais - Foto: Max Gorissen
Veleiro Gaia no pier do ICRJ passando por reparos finais – Foto: Max Gorissen

A preparação para a partida

São 9:35 h da manhã do Sábado, 20 de Dezembro de 2014. Coordenadas: 25º 56´ 0” S e 45º 11´ 0” W … para quem não tem uma carta náutica na mão, esta é a coordenada da entrada do piscinão do ICRJ – Iate Clube do Rio de Janeiro. Hora de partir do Rio de Janeiro para o Guarujá com meu “novo” veleiro de nome Gaia 1 (ex. Navy Blue).

Apenas para esclarecer e ilustrar para os fanáticos por veleiros, “Novo” é uma maneira carinhosa de chamar o veleiro que procuro há dez anos; um “antigo” veleiro F&C 40, classe IOR, com design de German Frers, fabricado em 1987 pelo Astilleros Frers y Cibilis S.A. na Argentina.

Para se ter uma ideia, se o Swam é o Rolls-Royce dos veleiros, o F&C, em comparação, no meu ponto de vista, é o Jaguar dos veleiros. É um veleiro concebido em uma época em que o importante era ser marinheiro e rápido, não uma casinha, com uma concepção de Gentleman-Racer, onde o proprietário levava seus amigos para uma regata e pernoitava confortavelmente no veleiro. A premissa é que sejam rápidos, seguros, marinheiros, refinados, confortáveis e muito ágeis em uma regata.

Max Gorissen, Plinio Prado e Matias Menutti - Foto: Matias Menutti
Max Gorissen, Plinio Prado e Matias Menutti – Foto: Matias Menutti

Naquele horário das 9:35 h, acabávamos de realizar as três últimas tarefas antes da partida; completar o diesel, tomar um belo banho e um café da manhã reforçado no restaurante do Iate Clube. Comigo, nesta viagem de 210 milhas náuticas (se fossemos em linha reta), meu cunhado Matias Menutti e meu amigo Plinio Prado (proprietário do veleiro ¼ Tonner – Mariner Ranger 26, de nome Samurai).

Ambos chegaram na sexta-feira 19, ao final da tarde, e perderam os quatro dias anteriores de “conquistas delirantes”, que é como chamo os dias de trabalho exaustivos para preparar, com uma infinidade de pessoas estranhas, entre marinheiro, prestadores de serviço, fornecedores e “pessoas cheias de opinião”, o veleiro para uma partida segura.

Corcovado a partir da Urca - Foto: Max Gorissen
Corcovado a partir da Urca – Foto: Max Gorissen
Baia da Guanabara em frente a Urca - Foto: Max Gorissen
Baia da Guanabara em frente a Urca – Foto: Max Gorissen

Preparar, novamente, é uma maneira carinhosa para expressar a interminável lista de coisas a fazer, do tipo: finalizar a troca do estaiamento (troquei de estai rígido para cabos de aço 316 “Morsing” 1X19 nas medidas de 12, 10, 8, 7 e 6mm, incluindo 1 par de “runners” e os respectivos terminais e esticadores), montagem e recolocação do mastro no veleiro, ajuste do mastro, troca das adriças, troca de alguns moitões, reconexão dos eletrônicos e luzes de navegação (todo este trabalho realizado de maneira impecável pelo Renato da Nautos RJ e sua equipe). Enquanto isso, mandei revisar todas as velas (um belíssimo enxoval composto de duas mestras, duas genoas, três spinakers e um gennaker), a capa do lazy-jack e o bimini e mandei confeccionar novas coberturas para as gaiútas e para as antenas do GPS/Chart-Plotter. Tem mais, precisei comprar um novo ferro Bruce de 25 Kg para usar de reserva e novos pirotécnicos, revisei e guardei em local “a mão” os salva-vidas, guardei todos os “equipamentos imprescindíveis” que estavam sobrando há anos por falta de uso no meu outro veleiro (um ¼ Tonner – Mariner Ranger 26, de nome ORM), verifiquei a parte elétrica, o fogão/gás, a geladeira, os eletrônicos, o piloto-automático, as bombas de porão, a limpeza do tanque de combustível e de água doce, o boiler, as baterias (motor e serviço), a privada, o sistema do leme e por último, mandei fazer a “lingada” para raspar as cracas e outros seres do mar que estavam “procurando” uma carona para o Guarujá, grudados ao casco e ao eixo e hélice. Finalizando toda a “preparação”, a troca dos dois anodos (casco e eixo do hélice) … Você já deve estar cansado só de ler… não pare, vai melhorar com a viagem!

Lingada do Gaia 1 no ICRJ para limpeza do casco e troca de anodos - Foto: Max Gorissen
Lingada do Gaia 1 no ICRJ para limpeza do casco e troca de anodos – Foto: Max Gorissen

De qualquer maneira, como sempre ocorre, partindo do princípio de que o motor é o tendão de Aquiles de todo velejador, a nova bomba d’água que havia adquirido através do representante da Volvo Penta no RJ, ficou presa na alfândega e tive de organizar, no dia 18 para o 19, uma “gambiarra” na bomba d’água atual, que vazava por todos os lados (veja vídeo).

Como velejador consegue sempre tudo, resolvi provisoriamente o problema e, por última vez, voltando às 9:30 h da manhã do dia 20, após uma explicação à tripulação das normas de segurança, dos procedimentos a serem realizados tanto a motor quanto a vela, mostrar os locais onde encontrar a salvatagem e esclarecer de maneira clara e esmagadora que quem manda no veleiro sou eu, partimos.

Gaia 1 pronto para partir  - Foto: Max Gorissen
Gaia 1 pronto para partir – Foto: Max Gorissen

Rumo ao Saco do Céu – Ilha Grande – RJ

A manhã do dia 20 estava perfeita para partir… a motor. O dia mostrava que iria ser muito quente e, apesar da previsão no Windguru e no dpc.mar.mil ser de ventos de até 5 nós, com rajadas de 8, vindos de 130º e marolas de 1.2 m, com intervalo de 12 segundos, vindos de 140º, condições perfeitas para uma navegação rumo a Ilha Grande, não sentíamos nem a mais leve das brisas… “Claro! ainda estamos no ICRJ protegidos pelo Pão de Açúcar. É só sair da Baía de Guanabara que vamos ter vento!”, alguém afirmou com toda certeza e esperança.

Soltamos as amarras, guardamos as defensas e partimos para o destino que definimos para jantar e pernoitar, o Saco do Céu na Ilha Grande, tendo ao largo, por boreste, uma das mais belas vistas do Rio de Janeiro, a Urca, com suas belas casas e prédios antigos, parcialmente escondidos pelas árvores da orla e com o Pão de Açúcar como pano de fundo. Por bombordo, as praias do aterro e os prédios da orla iluminados pelo sol e, à popa, o Pico do Corcovado com o Cristo Redentor, encoberto pela névoa daquela manhã sem vento. À proa, víamos o aeroporto Santos Dummont e a Ponte Rio Niterói que, com a orla de Niterói e o Morro do Cantagalo ao fundo, fechavam a visão 360º que davam razão e vazão aos “Ohh!!, Lindo!!, Espetáculo!!”, expressões inevitáveis, usadas, acredito, por todos que alguma vez chegaram ou partiram nestas águas.

Pão de Açúcar e Corcovado vistos do mar - Foto: Max Gorissen
Pão de Açúcar e Corcovado vistos do mar – Foto: Max Gorissen

Ainda passamos pelos outros Ohhs!! e Lindos!! na saída da baía e ao longo das praias do Rio de Janeiro, contudo, nenhum destes consegue descrever a sensação de se ver do mar, o alinhamento formado pelo Pão de Açúcar e o Pico do Corcovado… indescritível!

Às 10:17 h, fizemos a primeira checagem e registro de nossa posição, procedimento que realizaríamos de hora-em-hora, através das coordenadas do GPS que, por estarmos realizando uma navegação costeira, pôde ser conferida de imediato com a identificação em terra do ponto marcado na carta (de papel, é claro!), e que, neste momento, indicava estarmos quase em frente à Ponta do Arpoador. Navegação costeira é uma beleza… não tem como errar! A Ponta do Arpoador estava um pouco avante da bochecha de boreste.

Sem vento, continuamos a motor checando, visualmente, a cada tanto, a temperatura do motor (que deveria ficar entre 70 e 80º a 2.300 rpm), a quantidade de água que saía pelo escapamento e o volume de pinga-pinga na bomba d’água que não conseguimos eliminar.

Registro da posição na carta náutica - Foto: Matias Menutti
Registro da posição na carta náutica – Foto: Matias Menutti
Max Gorissen com o Rio de Janeiro ao fundo - Foto: Matias Menutti
Max Gorissen com o Rio de Janeiro ao fundo – Foto: Matias Menutti

A viagem entre o a Ponta do Arpoador e o Saco do Céu é maravilhosa. A natureza, tanto em terra, com vegetação, praias e montanhas intermináveis, quanto no mar, limpo e cheio de vida, é inebriante, contudo, navegando a 6 nós a motor, é também entediante, principalmente, quando se chega à Restinga da Marambaia, um longo trecho de praia que parece interminável.

Além de interminável, para o velejador que sempre avalia de antemão tanto as ameaças quanto as oportunidades na sua derroca, fica sempre a preocupação de, em caso de emergência, estando perto da costa, não ter nenhuma opção de proteção ou ancoragem. Em caso de problema, se não tiver como rumar para o mar aberto a vela, é inevitável não ir parar dando com o veleiro na praia sendo jogado pela ondulação. Nessa hora, a salvação é saber onde e quando jogar o ferro e rezar por uma brisa de vento para tirá-lo dali.

Matias e Max durante a interminável Restinga da Marambaia - Foto: Plinio Prado
Matias e Max durante a interminável Restinga da Marambaia – Foto: Plinio Prado

No nosso caso, a navegação foi tranquila, tendo passado a Ilha Rasa de Guaratiba às 13:48 h, início da Restinga da Marambaia para quem vem da cidade do Rio de Janeiro, com muita fartura de frutas, água, sucos e o famoso sanduíche de peito de peru e queijo de todo início de navegação. Às 18:00 h em ponto, finalizamos, sem percalços, a faixa que termina diretamente em frente a ponta da Ilha da Marambaia e que mudou nosso rumo, até o momento praticamente uma reta paralela a praia, para a entrada do Saco do Céu (aproximadamente 23º 06’ S – 44º 12’ W).

Como iríamos pernoitar na ilha, ninguém dormiu durante a viagem e viemos batendo um papo gostoso, que era interrompido a cada hora pelo momento mais esperado neste trecho de travessia, o registro da nossa posição na carta e o cálculo de quanto faltava para chegar.

Ilha Grande com pôr do sol por trás da ilha - Foto: Max Gorissen
Ilha Grande com pôr do sol por trás da ilha – Foto: Max Gorissen

Chegamos no Saco do Céu às 20:00 h, ainda com luz, com o pôr do sol por trás da Ilha Grande a iluminar nosso caminho, serpenteando pelo estrito canal até a pequena baía, famosa por refletir as estrelas nas suas águas em noites estreladas.

Se existe um lugar que todo ser humano deveria visitar uma vez na vida, é o Saco do Céu. É um lugar paradisíaco, com águas mornas e claras, cheia de peixes, rodeado por montanhas virgens… e um restaurante que, além de fornecer a poita para o pernoite, tem um menu de peixes e frutos-do-mar delicioso! É o restaurante e pousada Coqueiro Verde (Chamada pelo canal 16 e 17).

Aproveitamos para tomar um banho de água fria na ducha da piscina do restaurante antes de nos deliciarmos com uma porção de lulas fritas e peixe com arroz e batatas fritas… Simples e delicioso!

Voltamos ao veleiro para dormir, limpos e de barriga cheia, um dos benefícios da navegação costeira, e observamos as estrelas refletidas na água! Também dá para ver refletida nas águas, todas as luzes que a ignorância do homem colocou em terra e que prejudicam a experiência completa de quem descobriu e deu nome a este lugar paradisíaco, contudo, mesmo assim, é inevitável não encher a boca e esbanjar os Ahhs!! e Ohhs!! de deslumbramento.

A noite não pode ser mais tranquila. Tirando os geradores de algumas embarcações, o silêncio é “ensurdecedor”! A água não mexe. Acredito que ninguém nunca mareou durante a noite no Saco do Céu. Dormi como uma pedra depois de todo o estresse dos últimos dias antes da partida. Pela manhã, fomos brindados com um magnífico amanhecer.

Amanhecer no Saco do Céu
Amanhecer no Saco do Céu

O Matias, que dormiu na sala, foi o primeiro a acordar, lá pelas 7:00 h, e já estava sentado no deck quando me aproximei. No que me viu, disse … “Max; ¡esto es una maravilla! ¡Es divino! ¡Es hermoso!”, entre outros superlativos que ele expressou com cara de encanto (já deu para deduzir meu cunhado é Argentino). O Plinio, com a movimentação no deck, também acordou e, ao sair, expressou o mesmo, só que em português!

Restaurante Coqueiro Verde ao fundo - Foto: Max Gorissen
Restaurante Coqueiro Verde ao fundo – Foto: Max Gorissen
Embarcações ancoradas no Saco do Céu - Foto: Max Gorisse
Embarcações ancoradas no Saco do Céu – Foto: Max Gorisse
Tripulação unida ao nascer do Sol no Saco do Céu - Foto: Matias Menutti
Tripulação unida ao nascer do Sol no Saco do Céu – Foto: Matias Menutti

Na água, dava para ver o os peixes nadando a diferentes profundidades, até uns 3 metros de profundidade, tamanha a limpidez da água!

Eu não tive dúvida, coloquei a sunga e mergulhei numa água morna e transparente, espantando os peixes para longe do veleiro. Na sequência, veio o Matias e depois, ainda sonolento, o Plinio.

Nadando nas águas mornas e transparentes - Foto: Matias Menutti
Nadando nas águas mornas e transparentes – Foto: Matias Menutti

Nadamos, rodeamos o veleiro apreciando suas linhas e mergulhamos com visão, mesmo sem máscara, de pelo menos dois metros.

A fome bateu e, novamente, uma das maravilhas da navegação costeira… Canal 16; “Coqueiro Verde, Coqueiro Verde, aqui veleiro Gaia 1 requisitando a lancha para ir a terra tomar café da manhã. Coqueiro Verde, copia?” Squeeshhh… Squeeshhh… “Aqui Coqueiro Verde. Canal 17 por favor” … No 17; “Aqui Coqueiro Verde; Estamos enviando a lancha para trazê-los à terra.”

Novamente, banho na ducha da piscina e um café da manhã com ovos mexidos, pão francês canoinha com manteiga na chapa, café com leite e suco de laranja… simplesmente divino!

Partimos às 9:10 h novamente serpenteando o canal e gastando cliques na máquina fotográfica do Matias e nos celulares… como não tem sinal de celular, não conseguíamos mandar as fotos que tinham o objetivo de causar inveja nas respectivas esposas…além de, subconscientemente, esperar que as imagens do paraíso façam com que elas nos acompanhem em outras navegadas. Sonho de todo velejador…

Saco do Céu visto do restaurante  - Foto: Max Gorissen
Saco do Céu visto do restaurante – Foto: Max Gorissen
Gaia 1 no Saco do Céu - Foto: Max Gorissen
Gaia 1 no Saco do Céu – Foto: Max Gorissen

Em vez de rodear a Ilha Grande e sair por mar, decidimos ir por dentro, contornando e costeando a Ilha, e saindo em linha reta entre a Laje do Pendão e a Ponta de Juatinga, na Baia de Ilha Grande.

Foi um passeio maravilhoso, com mar calmo, sem vento, passando por ilhotas e praias de tirar expressões do tipo: “O que estou fazendo da minha vida morando em São Paulo!? Tenho de vir é morar aqui!” … entre outras tantas frases de efeito, cocientes ou inconscientes, que se diz no espírito do momento quando se percebe que a vida é mais do que apenas o mundinho em que vivemos.

Baía de Angra, contornando Ilha Grande - Foto: Max Gorissen
Baía de Angra, contornando Ilha Grande – Foto: Max Gorissen
Não abro mão do registro na carta de papel - Selfie: Max Gorissen
Não abro mão do registro na carta de papel – Selfie: Max Gorissen

De qualquer maneira, às 12:10 h, no meio da entrada da Baía da Ilha Grande, tive de nadar para refrescar… como de costume, nestas regiões isoladas, tinha de ser pelado! Sem as amarras da civilização! Com um acordo de cavalheiros entre os três, verbalmente negociado e unanimemente aceito, com as premissas de não olhar e não se aproximar um do outro num raio de menos de dois metros, desliguei o motor, coloquei a escada, tirei a roupa e pulei na água, do jeito que vim ao mundo, pela popa e com um cabo comprido amarrado em um cunho na mão. Depois veio o Plinio… numa distância segura, mais a proa… o Matias não quis nadar… Não sabe o que perdeu. Apesar de ter nadado por pouco mais de 5 minutos, fez bem à alma… então, após um banho de esguicho com água doce no deck, prosseguimos viagem… vestidos!

Na Ponta da Joatinga, aves levantam vôo - Foto: Max Gorissen
Na Ponta da Joatinga, aves levantam vôo – Foto: Max Gorissen

Às 13:25 h, registramos na Carta Náutica a Ponta de Juatinga por boreste e aproamos para a Ponta Negra, que foi alcançada às 14:26 h. Da Ponta Negra, dá para se avistar a Ilhabela, então, mudamos o rumo em direção ao Farol da Ponta das Canas, calculando que seria o maior percurso da nossa travessia… “Que tal comprar uma pizza no centrinho e seguir viagem noite adentro para Santos?” Perguntei… Resposta. Um unânime: “Sim!”

Após 7 horas de viagem tranquila, com ajuda de 8 nós de vento de través entre a Ilha Anchieta e Caraguatatuba, onde velejamos com motor e a genoa, chegamos à Ponta das Canas na Ilhabela.

Golfinho à proa - Foto: Max Gorissen
Golfinho à proa – Foto: Max Gorissen

Tempestade e Cumulonimbus

Tenho de mencionar o ocorrido perto de Ubatuba. Lá pelas 20:00 h, vivenciei um dos maiores motivos de preocupação quando se fala em meteorologia; o maior acúmulo de nuvens densas e pesadas, de cor cinza escuro, que vi na minha vida… um Cumulonimbus formado por todas suas características: tempestuoso, com fortes ventos, chuvas pesadas, raios e trovões que, por sorte, não estavam sob o veleiro e sim, encima da região da serra de Ubatuba… Fiquei olhando ao longe a luz dos raios que pareciam que explodiam no meio das nuvens altas, densas, de cor cinza, fazendo com que, por um instante, com a luz, ficassem de cor marrom, mais assustadoras do que com a cor cinza… O barulho e a sequência rápida de trovões eram temíveis e fiquei imaginando o que as pessoas em terra estavam passando neste momento. Mesmo estando longe no mar, foi inevitável não pensar que a tempestade me perseguiria já que, no caso de ventos locais, as diferentes superfícies terrestres absorvem quantidades de calor diferentes e, assim, a noite, a brisa vem da Terra para o Mar, o que me deixou preocupado por um bom tempo até chegar à Ponta das Canas e confirmar que a tempestade fico na serra e não “me seguia”.

Plino com o comando - Foto: Matias Menutti
Plino com o comando – Foto: Matias Menutti

Pizza de Forno a lenha no jantar a bordo

O canal entre São Sebastião e Ilhabela formou um corredor de mar tranquilo e avançamos sem incidentes até o píer do centrinho de Ilhabela, onde chegamos às 21:45 h. O píer, estava abarrotado de pescadores em toda sua extensão.

Nenhum pescador mostrou interesse em dar espaço para que amarrássemos o veleiro para desembarcar… a solução foi apontar o veleiro para o píer e acelerar para mostrar minha intenção… foi quando ouvi uma série de gritos e vi a comoção dos pescadores que levantavam os braços como que dizendo: “Aqui não é lugar de veleiro! Sai daqui!” … segui mais um pouco até a primeira boia iluminada de alguma linha com anzol e, fazendo um giro bem aberto, mostrei que estava retornando para atracar… Os carretéis começaram a girar rápido e as boias iluminadas começaram a pular na água em direção ao píer. Os pescadores começaram a abrir um espaço que me parecia suficiente para o veleiro, onde amarramos um dos bordos, sem nenhum problema. Os pescadores seguiram com sua pesca sem dar a menor atenção para o veleiro.

O Matias e o Plinio desembarcaram e foram comprar duas pizzas, uma de Marguerita e outra de Peperoni, na pizzaria do Píer. Foi rápido. Tive tempo de verificar o nível do diesel, suficiente para chegar com folga a Santos (tinha mais dois galões de 35 litros cheios no porão), e revisar o óleo do motor e a bomba d´água… como se perde tempo com os motores… tudo ok, apesar do óleo preto misturado com água no porão do motor que tentei secar com panos de papel e jogar na sacola de lixo. Eles voltaram, desamarramos, guardamos as defensas e partimos com a boca cheia de água!

Pizza para o jantar - Foto: Max Gorissen
Pizza para o jantar – Foto: Max Gorissen

Que delícia comer uma pizza quentinha e feita no forno a lenha no meio de uma travessia. Mais um dos benefícios da navegação costeira … como pano de fundo, as luzes de Ilhabela por um bordo e as de São Sebastião pelo outro … para não me estender em relatos de satisfação; Devoramos a pizza tão rápido que não chegou nem um pedaço no terminal da Petrobrás!

Passamos lá pelas 11:30 h a Ponta da Sela, ao sul de Ilhabela, e tomamos um rumo reto em direção à Ilha da Moela, no Guarujá, por fora, para diminuir a distância e evitar as marolas desconfortáveis da navegação perto da costa.

O gozado deste rumo (longe da costa), é a sensação de que não se está avançando, já que, como a costa está muito longe, os pontos de referência visuais em terra parecem que acompanham o veleiro.

Mar e vento bravos na cara

Navegamos, ainda no motor, com o céu todo estrelado e com uma brisa fresca, divino! Revezamos nas sonecas de 1 hora cada, até que lá pelas 03:04 h, em frente à Praia de São Lourenço, em Bertioga, entrou um vento e mar fortes na cara (proa)! Foi um sufoco!

Na minha opinião, o mar em frente a Bertioga é um dos piores de todo o litoral sul para se navegar. Tem muita marola, sempre altas e em períodos muito curtos, que “quebram no casco”, causando um desconforto constante, além de, praticamente, nunca ventar. É um local péssimo para se velejar.

Nessa noite em especial, as marolas estavam grandes e vindo numa sequência muito curta. E ventava muito! Sabíamos pela previsão do tempo de que teríamos a subida de uma frente fria. Os instrumentos marcavam 18 nós com rajadas de 22 nós. Só que tudo vindo na cara! Da proa; Contra nosso rumo… Foram praticamente 2 horas desse sofrimento, até, que passamos a linha da Pedra do Corvo, farol na entrada do canal de Bertioga, quando tudo se acalmou com a proteção da Ilha de Santo Amaro ou, apenas, Guarujá.

Nascer do Sol - Foto: Plinio Prado
Nascer do Sol – Foto: Plinio Prado

Problema a bordo

Lá pelas 05:30 h estávamos com a Ilha das Cabras na praia da Enseada por boreste, rumando para a Ilha da Moela. O dia amanhecia e víamos o céu muito encoberto. Mais adiante, uma faixa de vento se via claramente na superfície do mar … o vento parecia forte … ainda estávamos protegidos pelas montanhas da Enseada, contudo, quando passamos o Morro do Maluf, extremo da praia da Enseada, parece que o vento que partia da Serra em Cubatão, afunilou pelo Canal de Santos e voltou a bater 18 nós com 20 na rajada. Nos animamos, pois existia a chance de finalizar a viagem com uma bela velejada, contudo, quando estávamos discutindo a operação para subir as velas, o motor começou a falhar.

Engasgou, acelerei, engasgou, desacelerei, morreu. Liguei. Pegou. Morreu na sequência. Dei várias aceleradas com o manche em neutro e voltei a ligar já sabendo o que havia acontecido. Pareceu ligar. Não ligou. Deixei a roda do leme centralizada e desci para confirmar minha suspeita. O tanque de diesel estava vazio!

A “porrada” na cara que pegamos em Bertioga aumentou em muito o consumo de diesel e ficamos sem! Inadmissível! Burrice! Êta Manza!!!!!

Não dá para chorar sobre o leite derramado … Guardo a lição para o futuro e adoto o procedimento padrão: pegamos um dos galões de diesel reserva e aos trancos e barrancos conseguimos colocar grande parte do diesel no tanque. O mar ficou muito mexido e, para quem conhece, abastecer nessas condições faz com que parte do diesel vá para dentro do tanque e parte vá para o porão, mesmo com funil (abasteci direto no tanque que fica embaixo do sofá dentro da cabine pois o mar estava muito mexido para abastecer do deck) … cheiro de diesel forte por todos os lados. Retiro a escada e abro o compartimento do motor … motor novo (para mim), procuro a bomba de diesel e a alavanca para sangrar (bombear diesel) o motor. Achei. Tento bombear e percebo que a alavanca não tem pressão. O veleiro mexe de um lado para o outro. Tento novamente e a alavanca não tem pressão. O Matias me traz a chave 13 para soltar o parafuso para sangrar o diesel. Solto o parafuso até aparecer o buraquinho de passagem do diesel. Volto a bombear a alavanca que continua sem pressão. “$#@#@%$¨$#!!!!” … disse em voz alta no linguajar do velejador. “A bomba de diesel está quebrada! … não tem jeito … Vamos velejar!” … mais tarde descobri que a bomba não estava com problema e que, neste motor, quando isso acontece, é só dar um toque no botão da ignição para ele girar e encaixar não sei o que, que faz com alguma “rebimboca” engate para que a bomba tenha pressão … na vela de cruzeiro, muitas vezes, a gente aprende na raça!

O motor não voltou a funcionar - Foto: Max Gorissen
O motor não voltou a funcionar – Foto: Max Gorissen

Velejando para Santos

Subimos as velas com o veleiro balançando nas marolas que retornavam das praias… Pano todo encima, entro no vento e tudo parece acalmar. Giro a roda do leme. O veleiro aderna um pouco, abrimos as velas e entro em popa, o veleiro dispara levantando a proa numa velejada que dá aquela sensação gostosa. Um pouco de desorganização já que estamos conhecendo o veleiro e ainda não sabemos quais cabos e catracas usar. Quero passar por fora da Ilha da Moela. Avante um barquinho de pesca. Preocupação. Será que estão com rede aberta? Cadê as bandeiras? “Matias; Plinio! Procurem boias com bandeiras!”“Max! Tem uma perto da ilha e a outra perto do barco de pesca!”, respondem. Não é que, para variar, os pescadores fizeram uma “barricada” com sua rede bem no rumo que tracei para velejar e fugir da Ilha da Moela!

Pedi para caçarem as velas, mudei o rumo para um través que me levava para bem perto da ponta da ilha, onde não queria ir, contudo, o vento estava bom e as marolas me levavam para longe da ilha … o veleiro entrou no través e arrancou! Como veleja bem este design do Frers! Passamos a ponta da ilha rapidamente e nos demos de cara com os navios de carga distribuídos na entrada do canal, todos a uma distância segura e fora do nosso caminho.

Viramos a Ponta da Monduba, já com visão da Praia Grande a proa. Foi uma velejada fantástica, entrando no canal numa orça com 19,5 nós de vento. O veleiro veleja que é uma maravilha! Acertamos as velas no rumo e centralizei o leme. Entrava rajada e saia rajada e os ajustes no leme eram mínimos! Veleiro levemente adernado, tripulação na borda, o veleiro cortava o mar sem se importar com as marolas pela proa.

Chegando a Santos na vela - Foto: Max Gorissen
Chegando a Santos na vela – Foto: Max Gorissen

Chamei o ICS – Iate Clube de Santos que enviou a catraia para nos buscar bem em frente a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande, maior monumento histórico de São Paulo construído em 1584 e que fica localizado no Guarujá (em frente a Ponta da Praia de Santos na entrada do canal). Genoa enrolada, mestra guardada na capa de retranca, passamos o cabo para o marinheiro da catraia nos rebocar no exato momento em que um imenso navio, com quatro andares de containers, entrava no canal.

Amarramos o Gaia 1 no pontão flutuante na entrada do ICS às 10:04 h, após praticamente 5 horas de uma velejada incrível! Exaustos, mas felizes.

Gaia 1 amarrado ao pier do ICS - Foto: Max Gorissen
Gaia 1 amarrado ao pier do ICS – Foto: Max Gorissen

Arrumamos tudo a bordo e fomos tomar banho nas excelentes instalações do ICS.

Minha viagem tinha terminado já que iria passar as festas do fim do ano no Guarujá.

Para o Plinio e o Matias, ainda faltava a última perna da viagem: Guarujá – São Paulo de ônibus…

Bons ventos a todos!

Max Gorissen
http://veleirogaia1.blogspot.com.br/

Comentários

6 comentários em “A primeira travessia com o Gaia 1 do Rio de Janeiro até Santos”
  1. Parabéns pelo barco e pela velejada. A narrativa está ótima, curti a viagem como se estivesse ai. Saudações e bons mares!

  2. Claudio disse:

    Caras,estou suando frio até agora,com esse problema no motor, parecia que eu estava no veleiro junto com vocês ,bela narrativa valeu a velejada até Santos.
    Parabéns,pelo novo BARCO.

  3. Milton disse:

    Prezado Max,
    Vibrei com a sua conquista do Gaia.
    Quando estávamos tratando sobre o ORM era nítido o entusiasmo com o seu novo veleiro.
    Agora, pude saborear essa realização.
    Parabéns pela excelente escolha. Boas velejadas e conte conosco aqui em Brasília.
    Abraço,
    Milton

  4. ANA MARIA disse:

    Como “amante” de viagens, amei tudo o que relatou. Viajei com vcs. Parabens! Espetacular

    1. gorissen disse:

      Boa tarde Ana Maria,

      Obrigado pelas palavras e por participar conosco, mesmo que virtualmente, desta que é nossa paixão.

      Bons ventos!

      Max Gorissen

  5. Elton Pinheiro disse:

    Parabens!!
    Quando tiver meu veleiro “novo” será bem assim bonito, charmoso e acima de tudo organizado…se numa casa já deve haver organização imagina num barco onde temos que a todo momento saber o local dos equipamentos para realizar manobras, consertos e etc..

    Elton
    23.02.2017

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