Kahena revela "ideia" de não velejar em 2016 como protesto contra Baía

Martine Grael e Kahena Kunze: despoluição da Baía de Guanabara como bandeira (Foto: André Durão)

Martine Grael e Kahena Kunze: despoluição da Baía de Guanabara como bandeira (Foto: André Durão)

Dupla campeã mundial da 49er FX segue descrente com meta do governo do Rio de Janeiro para tratar 80% do esgoto da Baía de Guanabara: “A gente sente vergonha”

Antes de começar a entrevista, Martine Grael abre o laptop e avisa: “Tenho uma coisa pra mostrar”. “Achou outra televisão no mar?”, pergunta o repórter, lembrando a imagem que rodou o mundo no início de 2014. Desta vez, a foto exibia o lixo boiando na saída do Rio Yacht Club, em Niterói, onde ela treina com a parceira campeã mundial da classe 49er FX, Kahena Kunze. Uma imagem que segue comum na Baía de Guanabara, um dos mais problemáticos locais de competição das Olimpíadas de 2016.

Faz tempo que a dupla é procurada pela imprensa para falar mais sobre poluição do que vela. Elas lideram o ranking mundial em uma classe disputadíssima e são apontadas como principais nomes do Brasil para os Jogos Olímpicos em um dos esportes que mais dá medalhas ao país. No último fim de semana, foram vice-campeãs de um torneio em Nova Zelândia e na próxima segunda-feira partem para Espanha, aonde vão atrás do bicampeonato do Trofeo Princesa Sofia.

O assunto mais recorrente, porém, continua sendo o palco olímpico da vela em 2016, cujo dossiê de candidatura prometia o tratamento de 80% do esgoto da região. O governo estadual, responsável pela missão, diz que o número passou de 11% para 49% e, apesar de o governador Luiz Fernando Pezão admitir que a meta não deverá ser cumprida até agosto do próximo ano, a promessa foi mantida junto ao Comitê Olímpico Internacional. Esta semana, os programas das ecobarreiras e dos ecobarcos foram suspensos e passarão por uma revisão. E Pezão anunciou o uso de satélite para orientar os ecobarcos na busca pelas áreas com mais lixo. A possibilidade de competir em meio à sujeira fez com que Kahena pensasse em tomar a atitude extrema de não competir:

– A vontade que dá é fazer uma manifestação durante a Olimpíada e dizer: “Não vamos velejar, vocês prometeram isso! Cadê?”. Porque é uma vergonha. Eu tenho nojo de entrar na água, imagine eles (os atletas estrangeiros). A gente não faz a manifestação porque sabe que não vai mudar nada.

Martine Grael e Kahena Kunze: preocupação com a raia olímpica de 2016 (Foto: André Durão)

Martine Grael e Kahena Kunze: preocupação com a raia olímpica de 2016 (Foto: André Durão)

Confira outros trechos da entrevista com Martine e Kahena:

Despoluição da Baía como bandeira

Martine: “Eu me sinto na obrigação de cobrar isso, como atleta, ambientalista, frequentadora deste clube e niteroiense. Tenho muita vontade de participar, se houver, de programas sociais. Fazer um mutirão para conscientizar a galera, levar para velejar e mostrar como é o mar. Temos que levar as pessoas ao problema. E todo mundo faz parte da solução. Não é só cobrar do governo e achar que a culpa é só dele”.

Martine Grael e Kahena Kunze velejam na raia da Escola Naval (Foto: Fred Hoffmann / Peccicom)

Martine Grael e Kahena Kunze velejam na raia da Escola Naval (Foto: Fred Hoffmann / Peccicom)

Descrença com o trabalho de despoluição do governo

Kahena: “Eu quero que eles peguem a gente e mostre. Assim como eu quero que o Nuzman (Carlos Arthur, presidente do Comitê Organizador do Rio 2016) venha velejar com a gente. Já o convidamos. Não sei o que eles querem com esses 80%. É durante os Jogos Olímpicos? Onde vão construir essa unidade de tratamento de esgoto? Do lado de uma favela que solta esgoto também? Todo mundo fala, fala, mas é mentira. Que nem toda a corrupção no Brasil. Eu não acredito em mais nada nesse país. A vontade que dá é morar fora do país a partir de 2016”.

Situação da água

Martine: “É muito difícil dizer se melhorou ou piorou. A gente continua observando lixo, proliferação de alga. Dizem que é por causa do aquecimento. Também. O esgoto na água também causa isso porque tem muito material orgânico. Há um plano de saneamento que envolve municípios em volta da Baía de Guanabara, mas em algumas cidades, como São Gonçalo e São João de Meriti, não há sequer coleta de lixo. Para mim todos os problemas do Brasil se resumem à educação. Não é só do favelado e do governador. É de todos”.

Martine "assiste" à televisão encontrada na água da Baia de Guanabara (Foto: Divulgação)

Martine “assiste” à televisão encontrada na água da Baia de Guanabara (Foto: Divulgação)

Curiosidade dos atletas estrangeiros

Kahena: “Eles perguntam para gente como está. A gente não tem o que responder. Porque a gente sente vergonha e diz que está cada vez pior. Eles perguntam: “Não tem como mudar a regata pra Búzios?”.

Uso de ecobarcos

Martine: “Ele não suja a água, mas polui que nem um carro. Gasta muita gasolina. Daqui até o Rio você gasta uns R$ 15 de gasolina. Imagina o quanto de gasolina um ecoboat consome, empurrando lixo o dia inteiro? Se estivesse solucionando o problema, tudo bem. Mas está só remediando”.

Fonte: Globo Esporte

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3 Comments

  1. Martine, louvável vossa posicão de protesto, porém acredito que uma bôa solucão, inclusive vinda dos proprios velejadores de fora do nosso Brail é transferir as regatas e a sede do Iatismo Olímpico em 2016. A sugestão de Búzios me parece muito razoável e teria tempo para montar uma infraestrutura para receber as comitivas e suas classes. Seria infinitamente menos vergonhoso, além de ter mais vento e emocão! Forca Martine e Kahena, estamos com vocês. Poderiam se unir ao Robert, Bruno Prada, Jorginho Zarif, Bruno Fontes… enfim nomes de peso da nossa vela nacional, cetamente obteriam alguma sensibilidade do COB e das autoridades. Bons Ventos.

  2. Renato Campello Cordeiro março 10, 2015 at 10:13 pm

    Todi o apoio às atletas em pressionar para transferir para Búzios. Não eh admissível que o Brasil passe está vergonha durante as olimpíadas.

  3. Renato da Fonseca Guimarães março 16, 2015 at 12:38 pm

    Pois eu acho que se a raia for transferida para Buzios, nunca mais vão despoluir mais nada por aqui. Pensando na população do Rio que é a mais prejudicada por esta polução, é muito mais eficaz que a competição fique aqui mesmo.
    Em primeiro lugar, o governo vai correr para tentar chegar mais perto dos 80%. Em seguida, a grita e a vergonha que a sujeira vai nos causar podem acordar a população e o governo para levar a sério a continuidade do trabalho de cuidar da nossa baía.
    Educação é fundamental, para que os rios não sejam usados com lixeiras. Do contrário, o serviço de retirada do lixo flutuante é como enxugar gelo.

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