Navegando o Mar Negro – Elio Crapun

O Mar Negro é completamente diferente de qualquer outro mar. Não apenas pelos países que o margeiam, como o fato de só ter uma saída de água e estar 3 metros acima do Mar Mediterrâneo, gerando um fluxo de água constante em direção a este último.

Se você olhar o mapa desse mar verá que ele tem um grande afluente: o Danúbio. Existe também do outro lado, ligado a ele, um mar pequeno, raso (com cerca de 10 metros de profundidade apenas), poluído e que se chama Mar de Azov.

Quanto à profundidade do Mar Negro, ele é raso na parte norte e bem fundo na parte sul, perto da Turquia, então ele parece um boné de ponta cabeça. A aba do boné ao norte e a parte funda arredondada ao sul.

Isto faz com que ele tenha uma camada de água de pouca salinidade com cerca de 30 metros de profundidade e, quando chega na parte arredondada do boné ele fica extremamente salgado pois esta água não tem como escapar. Trata-se do maior volume de água salgada sem vida do planeta! Os sábios calculam que essa água se renova em ciclos de aproximadamente 18 mil anos.

É sobre esse mar que queria comentar algumas coisas interessantes.

Parti da Turquia, exatamente de Marmaris (cidade), e fui subindo e parando nas dezenas de enseadas, cidades históricas, ilhas gregas maravilhosas que estão ao lado até chegar na entrada do Dardaneles.

Esta enseda se chama Bozu Buku, perto de Marmaris, com um belíssimo castelo veneziano no topo - Foto: Elio Crapun
Esta enseda se chama Bozu Buku, perto de Marmaris, com um belíssimo castelo veneziano no topo – Foto: Elio Crapun

Lá, parada obrigatória numa enseada que se chama Morto Bay e fui visitar os monumentos e os lugares da famosa Guerra de Gallípoli que marcou o nascimento da Turquia como país. Impressionante.

Bozkaada, na entrada de Dardaneles - Foto: Elio Crapun
Bozkaada, na entrada de Dardaneles – Foto: Elio Crapun

Apesar da forte correnteza contra, o Dardaneles é largo o suficiente para poder subir velejando dando bordo e ele nasce no Mar de Marmaris.

Este mar recebe este nome por que nele está uma ilha da qual se retira uma pedra branca, com veios cinza, que os antigos denominaram com o nome da ilha: Marmaris. Esta pedra é o mármore. A Catedral de Veneza foi toda construída com mármore retirado desta ilha e levado por barcos até Veneza! Este é o único porto que conheci na minha vida, todo feito de mármore. Quando cheguei lá tive a sorte de coincidir com um festival que é realizado a cada 4 anos onde escultores de várias partes do mundo se reúnem e, usando blocos de mármores com pequenos defeitos, fazem esculturas maravilhosas que ficam na margem das calçadas para sempre!

Uma das esculturas na calçada do porto de Marmara. - Foto: Elio Crapun
Uma das esculturas na calçada do porto de Marmara. – Foto: Elio Crapun

Claro que percorri as bordas deste mar onde a cultura islâmica é forte e os portos são todos pesqueiros, sem praticamente nenhum turista. Uma viagem ao passado. Finalmente chega-se a Istambul, importante cidade da Turquia. Impossível não gastar uma semaninha conhecendo os lugares mais recônditos daquela metrópole. Longe das áreas visitadas pelos turistas, na verdadeira Istambul, encontram-se contrastes socioeconômicos profundos, apenas homogeneizados pela religião islâmica que domina.

Impressionante o volume dos alto falantes desta mesquita chamando os fiéis para a oração 5 vezes ao dia. - Foto: Elio Crapun
Impressionante o volume dos alto falantes desta mesquita chamando os fiéis para a oração 5 vezes ao dia. – Foto: Elio Crapun

A parte mais difícil da viagem viria agora pois seria necessário subir o Bósforo.

Ele é um canal natural, criado por uma fissura entre a plataforma europeia e a da Ásia menor. Muito estreito, em alguns trechos chegando a pouco mais de duzentos metros e com uma correnteza média de 4 nós no sentido Mar Negro para Mar de Marmara.

Este ponto marca a entrada do Bósforo. Ásia na direita e Europa na esquerda. - Foto: Elio Crapun
Este ponto marca a entrada do Bósforo. Ásia na direita e Europa na esquerda. – Foto: Elio Crapun

Proibido fazer na vela. Ele é passagem de todos os navios que vêm e vão para o Negro, havendo sinalizações na entrada para permitir a passagem apenas em um sentido de cada vez. Ele tem duas curvas acentuadas e, com 4 nós de correnteza e sem espaço para manobrar os acidentes de navios seriam constantes se permitissem subir e descer ao mesmo tempo.

O meu problema era que o Crapun tinha um hélice pequeno pois havia perdido o ótimo hélice original bico de pato e só havia conseguido uma pequena fixa que não me permitia fazer mais que 5 nós.

O Crapun foi valente e vencemos mais esta etapa. Agora seria só velejar pelo místico Mar Negro.

O primeiro país a ser visitado foi a Bulgária. Ao dar entrada no primeiro porto para fazer os papéis de entrada tive a surpresa de encontrar oficiais prepotentes, autoritários e outros adjetivos mais.

Eis a foto dos que dão as boas-vindas à Bulgária! - Foto: Elio Crapun
Eis a foto dos que dão as boas-vindas à Bulgária! – Foto: Elio Crapun

Mal pude amarrar o barco e eles literalmente pularam para dentro do Crapun, com sapatos sujos, gritando e invadindo o barco. Resquícios de anos de prepotência e tirania soviética. Eles simplesmente retiraram tudo de dentro do barco e jogaram, sim, jogaram, tudo sobre o cimento do píer.

Não se conformavam que eu não tivesse álcool a bordo e não queriam acreditar que eu não tomava bebidas alcoólicas!

Com o barco completamente pelado e minhas coisas jogadas no píer me deram ordem para pegar meus documentos e ir ao escritório deles. Eu me recusei e disse que só iria para lá depois que eu tivesse limpado a sujeira que eles haviam deixado e recolocado cada coisa em seu lugar.

Eles disseram que eu deveria me apressar pois só trabalhavam até as 5 da tarde. Eu repliquei que se não conseguisse terminar antes, faria os papeis no dia seguinte. Ficaram bravos e foram para o escritório deles e ficaram me vigiando como se eu fosse um terrorista!

Calmamente limpei o barco, comecei a arrumar as coisas bem devagar e, sempre de olho no relógio, terminei quando faltavam 10 minutos para as 5.

Cheguei no escritório deles e, por que será, rapidamente carimbaram tudo e de repente uma novidade a mais. Numa das folhas de papel disseram: Put your stamp here! Eu olhei atônito. Stamp (carimbo)! I have no stamp! Eles se olharam estupefatos e em coro me perguntaram: You have no stamp? Como se o fato de não ter carimbo fosse um absurdo. A cena daqueles dois oficiais fardados e da loira (que depois descobri ser uma agente policial) falando em coral como se tivessem ensaiado, olhando para mim com o olhar estupefato foi impagável! Imagine um filme onde os atores ensaiam para que todos falem ao mesmo tempo. Pois foi exatamente isto que aconteceu. Maravilhoso! Eu disse que já havia navegado por muitos países no mundo e nunca, em lugar nenhum, alguém me pediu o carimbo do barco. Aí não aguentei e parti para o ataque: Do you know what is Internet? You can check all things using computers, Sir! Não gostaram da minha ironia, mas como eles queriam ir para casa, me deram uma folha de papel em branco e eu tive que escrever com minha caligrafia uma declaração de que não tinha carimbo!!!! Nunca dei tanta risada como naquela situação, por dentro é claro. Tudo o que eles queriam eram carimbos e papéis!

O problema do carimbo se repetiu na outra cidade búlgara onde dei a saída e na cidade romena onde dei a entrada. Decidi então fazer em Word uma página em branco com marca d´água onde, em formato de carimbo escrevi: Não encham meu saco se não chamo a Magoo. Na linha de baixo bem grande escrevi CRAPUN e abaixo o número de matrícula do Crapun. Magoo era uma cadela golden retriever que foi uma grande companheira, e que sempre ia velejar comigo no Brasil. Morreu velhinha com 16 anos de idade. Acreditem, esse carimbo valeu para todos os países do antigo bloco comunista!

Esta é a Magoo tomando água na popa do Crapun. Animal incrível. - Foto: Elio Cracun
Esta é a Magoo tomando água na popa do Crapun. Animal incrível. – Foto: Elio Cracun

Deixando de lado a burocracia que faz lembrar um livro de Kafka, a Bulgária é um país maravilhoso e o povo é fantástico. As montanhas Rodopi que fazem fronteira com a Grécia são maravilhosas e as rosas estão em todo o país. Foi com eles que aprendi a fazer geleia de pétalas de rosas e criei o risoto de pétalas de rosas.

Festa nacional em Burgas. - Foto: Elio Crapun
Festa nacional em Burgas. – Foto: Elio Crapun

O próximo país foi a Romênia onde a burocracia se repetiu e mais uma vez encontrei um país maravilhoso, um povo sofrido, trabalhador e honesto. As paisagens são incríveis, a Transilvânia e as montanhas cheias de neve onde a Transfalgarashan se desenvolve, formam mosaicos maravilhosos.

Estas montanhas estão em Bran, Transilvânia. Terra do Drácula. - Foto: Elio Cracun
Estas montanhas estão em Bran, Transilvânia. Terra do Drácula. – Foto: Elio Cracun

A saída da Romênia se faz em Sulina, na foz do Danúbio, onde a cannabis é abundante e a população não sabia o uso que os ocidentais fazem dela. Quando o Muro de Berlim caiu descobriram que se podia fumar. Ela está nas ruas, nos jardins, nos parques e ninguém liga para ela. Ainda bem!

O Crapun descansando em Sulina, delta do Danúbio. - Foto: Elio Cracun
O Crapun descansando em Sulina, delta do Danúbio. – Foto: Elio Cracun

A próxima etapa seria a Ucrânia e a entrada deve ser feita em Odessa. Saindo de Sulina, já em território ucraniano, existe uma ilha que eu havia decidido deixar por boreste (portside).

Ao contornar a ilha uma voz entra no canal 16 falando em russo, e eu não falo russo, portanto ignorei. Como não havia ninguém navegando além do Crapun, sabia que era comigo a coisa, mas fazer o que?

A voz voltou gritando e eu ignorando e, finalmente após uns quinze minutos, num inglês terrível com aqueles erres puxados, a voz diz: seiling boat give yourrr name (escrevi como ele falava). Eu então disse: I will spell the name. A voz de novo mais autoritário: Give yourrrr name! E eu respondi: Charlie, Romeo, Alfa, Papa, Uniform, November. Após alguns segundos a voz disse: Long name!

Tive que sentar pois não conseguia ficar em pé. Rolavam lágrimas de tanto rir. Em seguida ele perguntou onde eu estava indo e informei que era Odessa, me desejou boa viagem e continuei rindo por algumas horas.

Zmeinny – Snake Islands nas cartas, onde os militares vigiam a entrada para a Ukrania. Long name... - Foto: Elio Cracun
Zmeinny – Snake Islands nas cartas, onde os militares vigiam a entrada para a Ukrania. Long name… – Foto: Elio Cracun

Algum dia comentarei o resto da viagem do Mar Negro, cheia de momentos hilariantes.

Obrigado pelo carinho!

 

Elio Crapun

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Elio Crapun enfrentando tempestade

 

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Escrito em linguagem simples e bem-humorada, a sua leitura escorre suavemente, e os fatos, ao serem descritos em pequenas histórias, formam imagens vivas em nosso pensamento.

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