Veleiro Ranger 26 (Mariner) / Frers 26 (Cassarino)

Projetado pelo designer argentino de barcos à vela German Frers, com base nas regras da IOR, este veleiro classe Quarter Tonner, com projeto Nº 735 de 07 de abril de 1979, foi produzido inicialmente pelo estaleiro Daniel Cassarino e Cia. Ltda (com o nome Frers 26 Regata) e, posteriormente, pela Mariner Construções Náuticas Ltda com o nome Ranger 26.

Na época, o casco era inovador tanto na sua forma quanto na sua construção.

Ranger 26
Plano de linhas baseada no design do Ranger 26

 

Características técnicas

Estaleiros: 

  • Daniel Cassarino e Cia. Ltda. – São José dos Pinhais – PR
  • Mariner Construções Náuticas Ltda. – Porto Alegre – RS

Período de Produção no Brasil: 1980 a 1986

Classe: Originalmente para a classe IOR e hoje pela IMS ou pela RGS

Armação/ Tipo: Sloop de ¼ de Tonelada

Projeto: German Frers

Desenho: Nº 735 de 07 de abril de 1979

Material do casco: Fibra de vidro

Categoria: Mar aberto

Motorização: Motor de Popa ou de centro. Já vinha preparado com um berço para receber um motor Mold 22Hp de 2 cilindros.

Propulsão: Popa ou Pé de galinha

Tripulantes: 4

Pernoite: 3 pessoas (não dá para colocar 2 pessoas na cama de proa)

Comprimento: 7,70 m

Linha d’água: 7 m

Boca: 2,82 m

Calado: 1,58 m

Área vélica (Mestra e Genoa): 26,51 m²

Área vélica (Balão): N/D

Deslocamento: 1.200 kg

Tanque de água: Não vinha instalado

Ferragens: Foch (Confecção de Artigos de Inox sob Medida – Rio de Janeiro)

Catracas: Lewmar Single-Speed 7, Wimaq Two-speed 16, Equinox 8

 

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Como Navega

Devido a sua mastreação fracionada com runnings e ao baixo costado, é um barco que navega muito bem e, seu manejo, apesar de muito técnico, devido a quantidade possível de regulagens, exige de uma tripulação safa.

O barco tem um bom desempenho tanto em ventos fortes, quanto fracos. Na velejada de popa, devido ao formato do casco, é instável. Veleja muito bem na orça e no través.

Sua estabilidade é comprometida devido à grande área vélica e ao seu centro de gravidade alto, decorrente do tipo de quilha utilizada na época (sem bulbo), o que faz com que o barco, no descuido, aderne rapidamente.

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Casco e Deck

Destinado a regatas oceânicas em mar aberto, é um veleiro com casco de linhas muito esportivas e elegantes.

Por possuir borda livre (costado) baixa e uma grande área vélica, é um barco muito rápido para seu tamanho.

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A forma do casco é característica da Classe Quarter Tonner (veja abaixo), com a proa que se alarga em forma de cunho até um pouco depois da meia nau e se estreita em ângulo fechado até a popa que forma um V (veja projeto).

O Deck é outra peculiaridade deste projeto já que o cockpit, ao ser divido pelo traveller da mestra, forma duas áreas bem distintas, uma entre a entrada da cabine e o traveller da mestra com poço e outra, na popa, atrás do traveller da mestra, sem poço, sendo esta apenas uma prolongação dos assentos. O timoneiro fica na popa, onde não tem poço e a tripulação fica avante do traveller no poço.

Os assentos do cockpit possuem o tamanho de assento correto, porém, o encosto é muito baixo e não dá suporte para as costas.

O piso do poço/cockpit é na realidade um alçapão que dá acesso ao compartimento do motor.

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Poço visto sem o alçapão que constitui o piso do cockpit. Na foto a configuração com motor Yanmar 1GM e eixo tipo pé de galinha com uso de gacheta. Reparem a mangueira verde que também sai de um registro na entrada de água do motor e serve para conectar com uma mangueira de água doce para “adoçar” o motor após o uso.

As janelas, duas de cada lado da cabine, são de acrílico fumê.

O deck, na proa, tem uma gaiúta de fibra de vidro incorporada ao design da cabine.

Como o barco não possui paiol para guardar a âncora, esta é guardada em um dos paióis de suporte da cama de proa, e passa pela abertura da gaiúta.

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Na foto pode-se ver a gaiúta de proa incorporada ao molde da cabine e a falta de um alçapão para a ancora na proa. A ancora deve ser guardada em um paiol dentro da cabine de proa embaixo da cama. Na foto também pode ser vista uma das janelas em acrílico fumê e um “exaustor” para ajudar na ventilação da cabine.

A ventilação da cabine não é boa.

A velocidade do seu casco deslocante fica em torno dos 8 nós.

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O Deck é outra peculiaridade deste projeto já que o cockpit, ao ser divido pelo traveller da mestra, forma duas áreas bem distintas, uma entre a entrada da cabine e o traveller da mestra com poço e outra, na popa, atrás do traveller da mestra, sem poço, sendo esta apenas uma prolongação dos assentos. O timoneiro fica na popa, onde não tem poço e a tripulação fica avante do traveller no poço. Na foto também pode ser visto o alçapão no piso do cockpit que dá acesso ao motor.

 

Interior

O interior é bastante simples. Possui duas camas em cada bordo, no costado, deslocadas mais para a popa e outra, em formato V, na proa. Entre estas camas da popa, tempos a escada de acesso à cabine e a área destinada ao compartimento do motor de centro.

Avante das camas de popa, separadas por uma antepara que servem de reforço estrutural do deck, temos uma pequena área no centro do barco que serve de banheiro. De um lado fica um sanitário e em frente uma pequena pia com água doce vinda do tanque.

Avante a esta área de banheiro, temos novamente outra antepara que serve de suporte para os brandais e a típica cama de proa em formato V.

Vários interiores de veleiros Ranger 26 diferentes

À popa, atrás das camas e do compartimento do motor, existe um grande porão que possui apenas o tanque de água e de combustível. O acesso ao porão se faz por dentro da cabine, por um paiol na parte de trás de cada uma das camas de popa.

Todo o interior é construído em compensado naval de boa qualidade. O teto não tem acabamento ficando a fibra de vidro, com suas várias mãos de laminação, exposta, apenas com uma camada de tinta branca.

Todos os parafusos, porcas e placas de alumínio dos diferentes acessórios do deck (moitões, trilho do carrinho da genoa, traveller, etc) ficam à vista.

O pé direito, devido à característica do casco regateiro, é bem baixo, medindo apenas 1,45 m.

 

Mastreação

A mastreação escolhida no projeto é típica da classe IOR e muito utilizada pelos seu projetista German Frers em vários de seus veleiros, sendo esta fracionada (7/8 atendendo as regras da IOR) com cruzetas alinhadas com dois jogos de estais volantes (runners).

O mastro é apoiado direto na quilha e tem a alternativa de 3 pontos de regulagem na base do pé do mastro.

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A vela mestra é grande, o que atende a mastreação flexível fracionada em 7/8, onde a cruzeta fica a 7/8 do cumprimento e o tope a 1/8, não é suportado por brandais, apenas o estai de popa que parte do topo do mastro. A vela usa talas comuns.

Hoje em dia, por causa dos runners, é um barco que mede mal na RGS.

 

Classe Quarter Tonner

Para a classe de barcos Quarter Tonner (¼ tonner), a regra de 1970, que combinava a CCA e a RORC – IOR, o cálculo usado para o formato é o seguinte:

Rating = [0.13(L x S) + 0.25L + 0.2S + DC + FC ] x EPF x CGF
√ B x D

OBS: A raiz quadrada B x D deve estar sob (L x S).

S = Square root of the sail area.
B x D = Estimates the boats weight through the cross sectional area of the hull amidships.
DC and FC = are small corrections for freeboard and draft.
EPF = gives compensation for the engine.
CGF = taxes stability.

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Hoje em dia, na Europa, especialmente na Inglaterra, voltaram a realizar regatas da classe ¼ tonner, mantendo ao máximo a originalidade dos veleiros, permitindo apenas algumas modificações no velame, quilha e leme (limitados por regras da classe).

Veja o site da classe: www.quartertonclass.org

Leia matéria publicada na revista Yachting World (yachting-world-201409), edição Setembro/2014

 

Estaleiro

O Ranger 26 (Mariner), inicialmente chamado de Frers 26 (Cassarino) foi construído pelos seguintes estaleiros no Brasil:

 

Estaleiro Daniel Cassarino (São José dos Pinhais – PR)

O estaleiro Daniel Cassarino comprou os moldes do veleiros que chamaria de Frers 26 no ano 1980, contudo, pelo que parece, o seu projetista German Frers, atrasou mais de 6 meses para entregar o molde do veleiro e, por isso, o Daniel Cassarino comprou às pressas o molde do veleiro Miura 25, projeto do também Argentino Roberto Rovere, que veio da Argentina, onde este veleiro fez muito sucesso.

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Folheto do Frers 26 produzido pelo Estaleiro Daniel Cassarino.

O molde do Miura 25 recebido, como fora o usado para produzir os veleiros argentinos, já estava bem gasto e foi totalmente restaurado pelo Cassarino antes de iniciar a produção do novo veleiro chamado de Tonner 25, o que culminou com a produção de 11 veleiros deste modelo.

Quando o molde do Frers 26 chegou, a Cassarino teve de parar a produção do Tonner 25 por causa da crise econômica brasileira de 1982, em que não se vendia nada e que se arrastou por 1983. Os moldes do Tonner 25 e do Frers 26 foram vendidos posteriormente para a Mariner Construções Náuticas Ltda que deu continuidade na produção dos veleiros.

 

Estaleiro Mariner Construções Náuticas Ltda

A Mariner Construções Náuticas Ltda., localizada na época à Rua João Moreira Maciel, 1010 – Bairro Dona Teodora – Dona Teodora – CEP 90250 – Porto Alegre – RS – Caixa Postal 10431. Tel. 51-343-0059 foi um dos maiores estaleiros do Brasil, seguindo seu slogan: MARINER: A Tecnologia da Emoção e Aventura.

A empresa foi aberta em 01/03/1977 e, com seis funcionários, num prédio de 400 m2 no bairro Navegantes, começaram fabricando um total de 3 unidades mensais do veleiro dingue Day Sailer.

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Placa com número do casco do veleiro ORM produzido pela Mariner e destacando o veleiro O’Day

 

Naquela época, o Sr.Francisco José Calero de Freitas, então controller da Forjas Taurus S/A, sócia da Mariner e uma das responsáveis pela criação do estaleiro no Brasil, convenceu o Sr.Paulo Pernau Fassel a comprar o primeiro O’Day 23′ que singraria as águas brasileiras. Com isso a família de embarcações produzidas aumentaria.

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Folheto de propaganda dos veleiros produzidos pelo Estaleiro Mariner Construções Náuticas Ltda.

 

Em 1979, em novo prédio de 1.500 m2, com 30 funcionários, a Mariner atingia uma produção média de doze Day Sailers e cinco O’Days 23 por mês.

Em 1986, com mais de 300 funcionários na nova fábrica de 4.000 m2, na zona sul de Porto Alegre, a Mariner produzia outros 17 modelos de barcos como o Slick, O’day12, O’day 15, Day Sailer, Classe Olímpica 470, Microtonner 19, Ranger 22, Martinique 25, Ranger 26, Aruba 28, os Cal 9.2 e 9.2R, Main 34 e Main 35, Trinidad 37, Bahamas 40 e o Tripp 33.

Em l986 o controlador americano Steven Galle deixou a fábrica brasileira Mariner, já que o grupo gerencial local adquiriu o controle.

Dizem que, em 1990 com o Plano Collor, o dólar, moeda em que eram cotados os barcos da Mariner, sofreu reajuste drástico. Vários pedidos em andamento e/ ou por iniciar ficaram com o preço muito defasado… A empresa pediu autofalência em dezembro de 1995.

 

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Veleiro ORM na RISW – Foto: Jana

 

O Veleiro ORM

A seguir, apresento o interior do veleiro ORM (retratado em matéria na revista SailBrasil Magazine Nº 2) enquanto era de propriedade de Maximilian Immo Orm Gorissen, um veleiro modelo Ranger 26, classe IOR, com design de German Frers, fabricado em 1983 pelo estaleiro Mariner Construções Náuticas Ltda. (estaleiro desativado), na época, localizado em Porto Alegre – RS – Brasil.

Além do que foi descrito anteriormente sobre o deck, interior e mastreação, já que tudo foi baseado neste veleiro, no ORM, para melhorar sua aparência, todo o teto foi revestido com um material de couro sintético branco e acabamento esmerado em madeira envernizada eliminando assim, todas imperfeições originais do teto (este veleiro vinha do estaleiro na fibra de vidro com todos os parafusos passantes a mostra) e dando ao interior, um aspecto muito “limpo” e agradável.

Para aumentar ainda mais a luminosidade, foi utilizado um estofado na cor branca e almofadas com faixas amarelas.

O veleiro segue um conceito minimalista na decoração, nos equipamentos e no uso dos espaços.

No ensaio fotográfico a seguir, desfrute o charme dessa embarcação.

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Outros veleiros conhecidos (se faltar algum nos avise!)

  • Astor P.
  • Samurai – BRA 1040 – Ano 1986
  • Dragão
  • Baccus
  • Forever Young – BRA 937
  • Fuga
  • Jazz Sensation
  • Rainha dos Piratas – Ano 1983
  • Calamar Rio
  • Patron – Ano 1982
  • Blefe – Ano 1983
  • Frente Fria
  • Mormaço 4 – BRA 1155 – Ano 1987
  • Opium – BRA 3603 – Ano 1983
  • Piaba
  • Capim Canela
  • Beth Mar (ex. Cacique, Flamingo)
  • Coringa – BRA 902
  • Drakkar
  • ORM (ex.Pitula) – BRA 920 – Ano 1983

 

Estas são fotos que me foram enviadas por seus proprietários para postar na SailBrasil.com.br. O crédito está descrito na maioria das fotos. Caso não esteja e for uma foto de sua propriedade, favor enviar seu nome para que possa destacar o crédito da foto.

 

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SailBrasil: O bom e velho veleiro

Desde o seu lançamento, a SailBrasil desenvolve um conteúdo focado no que interessa aos 99% dos velejadores e proprietários de veleiros… sim, você, que aproveita sempre que pode para velejar no seu veleiro, que tenta realizar a maior parte das manutenções, que está sempre em busca de como melhorar a sua velejada ou o seu veleiro e que busca inspiração em outros velejadores.

Sim, você, que como eu, possui e mantém um veleiro de cruzeiro ou de regata um pouco mais “antigo” … o “Bom e velho veleiro”.

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Como você sabe, hoje, a grande maioria dos veleiros que estão em uso no Brasil não são novos, assim como também, a grande maioria dos velejadores hoje no Brasil não está pensando em comprar um veleiro novo… a grande maioria, hoje, se for comprar um veleiro, este será um veleiro usado… o “Bom e velho veleiro”.

Como sei que é muito difícil no Brasil encontrar informações sobre os diversos “antigos” veleiros produzidos em algum momento pela indústria nacional, decidi criar uma nova categoria na SailBrasil na qual vamos nos concentrar em pesquisar, identificar, compilar e disponibilizar as informações de “todos” (os que pudermos identificar) os veleiros já produzidos em série no Brasil.

Sim, são muitos modelos e, como tudo no Brasil, não existe registro disponível ou de fácil acesso… então… vamos ter de ir devagar… curtindo a viagem… conversando, pedindo informações e trocando ideias com a comunidade da vela… como um velejador que, pacientemente, aproveita os ventos para chegar ao seu destino.

Com esta ação, a SailBrasil segue seu objetivo de disponibilizar informações para que você possa:

  • Estar atualizado com o que acontece no mundo da vela;
  • Conseguir as informações de que precisa para construir, reformar, manter ou melhorar seu veleiro/velejada;
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Veja os veleiros que já estão disponíveis no menu principal na categoria “Bom e velho veleiro” e, se algo faltar ou encontrar algo errado, entre em contato no e-mail gorissen @sailbrasil.com.br e nos informe para que possamos realizar a correção.

Também ficamos muito felizes se apenas escrever umas linhas de incentivo…

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Veleiro Gaia 1 – F&C 40 – 1987… o “Bom e velho veleiro” … 😊

Velejador, escritor, editor… nessa ordem

 

 

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