Comprar um veleiro novo neste momento… pense bem.

Como você, fico sonhando em comprar um veleiro novo algum dia…

Vivo lendo revistas sobre veleiros como a Yachting World, a Practical Boat Owner, a Classic Boat, a Sailing World, a Sailing Magazine, a Cruising World, a Sail Magazine e a WoodenBoat.

Sim, já li e, acredito, memorizei tudo sobre os últimos modelos de veleiros lançados em 2018/19 e seus detalhes técnicos.

Assim, como para qualquer produto, seja um novo laptop, um carro, uma casa, mas, especialmente um veleiro, sempre que leio sobre um veleiro novo, dá aquela vontade de comprar e de “possuir”.

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Foto extraída do site da Nautor’s Swan, Copyright e todos os direitos reservados – http://usa.nautorswan.com – usada apenas para ilustração, contudo, esse é o veleiro que eu compraria! 🙂

Como tudo na vida, a compra tende a acontecer quando a lista de justificativas se acumula até um ponto de inflexão onde ela começa a parecer sensata. Para um veleiro, essas justificativas são coisas do tipo:

  • “Um veleiro novo vai me dar menos manutenção.”
  • “Imagina as velejadas que vou dar com ele.”
  • “O tamanho e a disposição das cabines vai permitir com que tenhamos muito mais conforto nos pernoites… e a cozinha, vai ser um prazer cozinhar a bordo!”
  • “O deck vai permitir com que tenhamos mais espaço durante a velejada.”
  • “É o melhor veleiro da atualidade e assim deve se manter por pelo menos os próximos dez anos, ou seja, é um investimento!”

Como acredito que aconteça também com você, minha mente sempre cria inúmeras justificativas semelhantes para outros tipos de compras, como, por exemplo: “esta câmera fotográfica irá me ajudar a tirar fotos melhores para postar na SailBrasil”. “O conforto deste carro vai fazer com que as viagens de final de semana sejam mais prazerosas”, “minha produtividade irá aumentar com este novo laptop porque ele irá me encorajar a escrever mais.”, entre outros exemplos de aquisições.

E pode ter certeza que não sou só eu e você. Tenho conversado com outras pessoas e a maioria tem sempre algum tipo de “Justificativa Para Comprar”, sempre ativa e funcionando no fundo de suas mentes.

Esta “Justificativa Para Comprar” alguma coisa, ou JPC, tem efeitos nas nossas vidas que podem variar em uma escala que vai “de muito útil”, como no exemplo de um marceneiro comprando uma serra tico-tico que será usada todos os dias para ganhar dinheiro, até “completamente inútil”, como no exemplo do funcionário assalariado de um escritório que compra uma Mercedes-Benz AMG GLC 63 4MATIC SUV (ou outro modelo/ marca) de R$ 560.000,00 para ir ao escritório que fica a 5 Km de casa, quatro dias por semana (descontando o rodízio), sempre sozinho e com o carro vazio, dirigindo em ruas apertadas e de transito, porque justificou a compra com o JPC: “eu preciso ter conforto para dirigir em São Paulo” ou, “As pessoas vão me invejar só de ver meu carrão”.

 

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Eu gosto de imaginar que minhas JPCs são, pelo menos, um pouco melhores que a média, afinal, eu nunca me preocupei com o “status de possuir coisas” e sempre mantive o que acredito ser um nível menos ridículo de gastos do que o do trabalhador de classe média brasileiro. A maioria das coisas que me convenci a comprar, de fato, foram coisas que me são úteis, constantemente usadas, dentro do meu padrão de vida e, principalmente, sem nunca ter me endividado.

Sim, houve uma vez que comprei um Jaguar antigo, modelo XJ 6 1974 e que tive de reformar e que, reconheço, destruiu muito da minha credibilidade em Gestão Financeira, contudo, em minha defesa, isso foi em 2002, quando ainda achava que deveria ter tudo que sonhei algum dia… bem, também reconheço, me arrependi terminantemente de tê-lo vendido… mas era um poço sem fundo de dinheiro.

Contudo, hoje, mesmo estando bem financeiramente, sou ciente de que é um exagero tentar justificar a compra de um veleiro “novo”, ainda mais possuindo o veleiro que tenho, para velejar apenas nos finais de semana.

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Desde que lancei a SailBrasil, sempre desenvolvi um conteúdo focado no que interessa aos 99% dos velejadores e proprietários de veleiros… sim, você, que aproveita sempre que pode para velejar no seu veleiro, que tenta realizar a maior parte das manutenções, que está sempre em busca de como melhorar a sua velejada ou o seu veleiro e que busca inspiração em outros velejadores.

Sim, você, que como eu, possui e mantém um veleiro de cruzeiro ou de regata um pouco mais “antigo” … o “Bom e velho veleiro”.

Como você sabe, hoje, a grande maioria dos veleiros que estão em uso no Brasil não são novos, assim como também, a grande maioria dos velejadores hoje no Brasil não está pensando em comprar um veleiro novo… a grande maioria, se for comprar um veleiro, comprará um veleiro usado… o “Bom e velho veleiro”.

 

Realidade dos proprietários de embarcações no Brasil

Como não existe nenhuma pesquisa ou estatística no Brasil sobre o assunto, usei minha experiencia, os dados dos mais de 8.500 usuários da SailBrasil e algumas pesquisas que também realizei através da SailBrasil para chegar a estas conclusões. Deixo claro de que são conjecturas e não fatos.

Tendo deixado isso claro, vamos lá: A grande maioria dos barcos de recreio vendidos no Brasil são embarcações de lazer pequenas e “baratas”, tipo chatinha de pesca, de propriedade da classe média-baixa brasileira (não uso aqui a classificação da tabela de classes usada pela Secretaria de Assuntos Estratégicos – SAE e não me refiro às classes com demérito e sim, apenas, para ilustrar as informações).

Já os veleiros, são na sua maioria de propriedade da chamada classe média-alta e, dos veleiros registrados no Brasil, 95% têm menos de 26 pés de comprimento.

Interessante a constatação de que os proprietários de veleiros (não se aplica para lanchas) gastaram uma média de 28 dias (ou 14 finais de semana) na água velejando, outros 40 dias com o veleiro parado em manutenção (não necessariamente dias corridos) e o restante dos dias simplesmente parado, sem uso.

Outra constatação é o fato de que, desde o fim dos anos 90, é quase que inexistente a construção de veleiros “novos” de até 26 pés de comprimento no Brasil (exceções existem como os veleiros Flash, Snipe e o Boto 23, entre outros, mas nunca em grandes quantidades) sendo que, 99% dos veleiros que trocam de mão hoje em dia são os chamados “usados”.

Por outro lado, dos veleiros com mais de 30 pés de comprimento, 90% foram comprados no mercado de “usados” ou “muito usados” (anteriores aos anos 80) e, os 10% restantes, entre os importados que foram comprados “novos” entre os anos 2005 e 2017 (quando o câmbio US$/R$ estava na casa dos R$ 2,5 e já não tão novos assim) e, dos fabricados no Brasil, que ao contrário, mantém vendas regulares, apesar de em números de unidades vendidas pequenas, até os dias de hoje (Delta, Felci Uno, MJ e alguns One-Off com projetos do Cabinho).

Para entender o custo de um veleiro no Brasil acesse: Quais são os custos fixos de um veleiro no Brasil?

Apesar de tudo isso, meu JPC está sempre buscando novas maneiras de me convencer, contudo, tento anulá-lo sempre que possível acrescentando minha própria lista de objeções “sutis”, o que acaba pelo menos retardando a compra.

Nunca uso para me convencer algo do tipo “O dólar está muito alto” ou “não posso ter um veleiro novo pois é muito caro” pois isso é uma “negativa”, é algo que nosso subconsciente não consegue aceitar com facilidade e que, psicologicamente, lembra uma “derrota” pessoal por não ter ou poder gastar o dinheiro.

Ao contrário, minha lista de objeções é composta por “fatos minimizados” do tipo:

  • “Já tendo um veleiro que é perfeito para meus objetivos, seria melhor somente comprar um veleiro novo no dia em que for morar nele ou viajar pelo mundo.”
  • “Você não pode deixar um veleiro de US$ 600 mil “assando” a semana toda sob o forte sol brasileiro ao mesmo tempo em que ele é “cagado” por pássaros e vira superfície para a criação de mariscos que grudam nas suas obras vivas.”
  • “Não importa o quanto você use esse veleiro, ele sempre custará mais (custo de compra, seguro, manutenção, lavagem, marina etc.) por milha náutica do que qualquer viagem aérea, mesmo que esta inclua as compensações de carbono hoje tão em moda.”
  • “Certifique-se de experimentar antes de comprá-lo. Alugue um, faça um charter ou saia para velejar com um amigo que possui um. Se ainda assim você desejar compra um após passar aquela “primeira emoção”, então podemos conversar.”

 

Perceba o que está acontecendo ao usar estes “fatos minimizados” … A fim de manter-me à frente da eficiência implacável da minha JPC, eu só preciso lançar obstáculos amenos e agradáveis ​​para atrasá-la.

Mas a razão pela qual isso é tão efetivo é que eu não estou apenas negando a mim mesmo um veleiro novo. É muito difícil dizer a si mesmo que NÃO, você nunca pode ter o que deseja. Em vez disso, estou dizendo a mim mesmo que outras coisas precisam acontecer primeiro, antes de clicar em “comprar” no site do broker.

E se essas coisas são saudáveis ​​e felizes (criar meu filho, fazer outros projetos de trabalho com minhas próprias mãos e planejar uma grande série futura de viagens), eu desvio minha atenção para uma vida boa agora, em vez de fazer a coisa fácil, que é comprar outro deleite e me endividar.

E quanto mais eu puder atrasar essa ou qualquer outra compra, mais meu dinheiro poderá permanecer produtivamente investido, e mais isso impedirá que meu JPC faça o pequeno “upgrade” de estilo de vida que minhas vontades estão constantemente procurando.

Mas esse truque não é apenas para veleiros. Você pode usá-lo quase em qualquer coisa da sua vida.

Veja o exemplo dos moitões do meu veleiro no artigo: Moitões “Vintage”… troco por novos?

Contudo, tome uma decisão consciente e não caia na conversa do dono de outro veleiro que já trocou o seu “Bom e velho veleiro” pelo novíssimo “XYZ-Ultra-Super-Duper”… avalie você mesmo se seu veleiro atual é tão ruim ou está tão velho a ponto de que um novo irá dar “maior prazer por dia velejado” e se é realmente necessário troca-lo.

Não é uma questão de dinheiro, quem quer trocar de veleiro tem o dinheiro e vai trocar, e nem por causa da “nova crise política que está influenciando a economia”, afinal, o Brasil está sempre em uma crise ou outra… É uma questão de entender o seu uso x benefício!

Se mesmo assim ainda quiser comprar ou vender um veleiro… clique em comprar o vender…

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Tive meu veleiro anterior, um Ranger 26 de 1983 (foto acima a esquerda), por 18 anos e só troquei pelo atual, um F&C 40 de 1987 (foto acima a direita), que já está no seu quarto ano sob minha propriedade, pois precisava de um veleiro maior que me permitisse realizar viagens e pernoitar com a família. Repare que ambos são muito parecidos pois sou apaixonado pelo design dos antigos veleiros desenhados sob as regras da IOR – International Offshore Rule dos anos 70 e 80.

Tanto o 26 quanto o 40, hoje em dia, são veleiros relativamente “baratos” ao ser comparados a um novo e que, além de ter tudo o que um veleiro novo possui, veleja tão bem quanto e me trouxe/traz grande felicidade e no qual velejei/velejo praticamente todos os finais de semana… talvez um veleiro novo traga mais felicidade… não sei… e, neste momento, não estou muito preocupado em descobrir pois gosto muito do meu “Bom e velho veleiro”!

 

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil… nessa ordem!

 

 

 

 

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