Alguns veleiros ficam velhos e são simplesmente abandonados

Nos últimos anos, viajando por diversas regiões do Brasil, uma constante em minhas viagens tem sido a presença de veleiros abandonados.

São barcos em diversos estados de abandono e conservação, desde aqueles apenas cobertos por sujeira até os integralmente podres, passando pelos totalmente desfigurados.

É uma pena ver tantos veleiros que um dia deram tanta felicidade a seus proprietários e amigos, abandonados e apodrecendo.

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Maior veleiro de madeira brasileiro, é o resultado do sonho de quatro garotos que foram até a Amazônia construir um navio do século XVIII. O nome do veleiro, Tocorimé Pamatojari, significa “Espírito Aventureiro” no dialeto da tribo Kulina, o que exprime bem a filosofia do barco e tripulação. A construção manual do Tocorimé aconteceu numa praia do rio Tapajós, em Santarém no Pará. Os idealizadores do projeto, 3 holandeses e 1 canadense, treinaram artesões locais e levaram 6 anos para construir o veleiro. A embarcação é considerada histórica por seguir as tradições de construção dos barcos europeus de grande porte do século XIX. Em 2017 o encontrei “abandonado” há algum tempo, apesar de ainda estar “sendo cuidado” (estava a venda), em uma poita em Paraty – RJ. Repare que o mastro, entre muitas outras coisas, está torto e precisa de reparos. Foto: Max Gorissen

Alguns ainda têm a sorte de ser recuperados por alguém interessado em um bom projeto de restauração e disposto a investir algum ou muito dinheiro para que uma embarcação volte a velejar. Outros são simplesmente esquecidos, ou transformados em algo que remotamente lembra o que ele foi um dia, ou, ainda, apodrecem e desaparecem.

 

A doença do “este barco dá para restaurar fácil e barato”

Existem muitos veleiros que quase voltaram a velejar, pois alguém viu neles essa possibilidade, mas acabaram sendo novamente abandonados, por diversos motivos.

Há uma doença, de nome comprido, que acomete certos homens (também mulheres, mas os homens sofrem mais dela), tirando completamente sua razão quando veem um veleiro abandonado ou em mau estado: a doença do “este barco dá para restaurar fácil e barato”.

O interessante é que a pessoa contaminada não percebe a doença e não aparenta nenhum de seus sinais, ao contrário, seu raciocínio parece lógico e realista. Ela é capaz de explicar de maneira sensata, clara e convincente a sua decisão de restaurar um veleiro “velho” e em mau estado.  É uma doença contagiosa – tome muito cuidado quando vir um veleiro abandonado!

Aparentemente, são pessoas equilibradas, legais, inteligentes, com condição financeira estável e, em muitos casos, são experientes velejadores de regatas ou cruzeiros. Pode-se até dizer que, em sua maioria, essas pessoas possuem uma personalidade aventureira, sonhadora e livre, o que as torna altamente agradáveis, atraindo outras pessoas e facilitando a disseminação da doença.

O maior problema dessa doença é que a pessoa possui uma compreensão pouco realista tanto de suas finanças quanto do tamanho e do tempo necessário para se terminar o projeto. Qualquer um que é imune a essa doença sabe: veleiros abandonados, em qualquer estado de conservação, absorvem e requerem muito dinheiro, tempo e dedicação.

Mesmo assim, há um êxtase ao se pegar essa doença e iniciar o projeto. E o que é pior: enquanto a doença perdura, ela é altamente gratificante para quem a pegou. Poderíamos afirmar que é viciante.

Você vê esse veleiro, que na sua concepção é lindo e uma oportunidade única de ter uma “joia rara dessas na vida” e, simplesmente, do nada, é seu devoto incondicional. Até o momento em que acaba o dinheiro… Sim, normalmente a falta de dinheiro é a única cura dessa doença.

Após a cura, com suas finanças em ruínas, você tem de trabalhar muito e por muito tempo para se recuperar definitivamente dos efeitos da doença e restabelecer suas finanças.

Mas cuidado, uma vez recuperado, existe grande possibilidade de recaída: é só ver outro veleiro em péssimo estado e estar com as finanças recuperadas que os sintomas certamente se repetirão. O vírus fica no sangue apenas aguardando uma oportunidade de voltar a se manifestar.

Desses veleiros, são poucos os que voltam a velejar e retornam a seus dias de alegria.

Agora que você está informado e consciente da doença, olhe as fotos com cuidado. Tem muito veleiro abandonado que dá vontade de restaurar.

Espero que algum dos veleiros apresentados nas fotos a seguir tenha a sorte de ser um deles.

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Veleiro de madeira Lod Jim de 1936 (ex. Meridian). Após afundar em 2007 em Paraty e os proprietários entrarem em disputa judicial com o estaleiro que o reformou, ficou apodrecendo semiabandonado na baia do Pontal em Angra dos Reis até que afundou em 2018 – Foto tirada por Max Gorissen em 28 de setembro de 2017.

 

Clique em uma das fotos abaixo para ver ampliado outros exemplos de abandono:

 

Matéria escrita por Maximilian Immo Orm Gorissen para a SailBrasil Magazine Nº 3 e reproduzida novamente a pedido de vários usuários que querem ter a facilidade de abrir o arquivo como um “remédio” para a doença do “este barco dá para restaurar fácil e barato” que eles já pegaram e se curaram… 😊 … Para ler a revista clique no link acima.

 

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem!

 

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Comentários

6 comentários em “Alguns veleiros ficam velhos e são simplesmente abandonados”
  1. Deivisson disse:

    Como Fasso pra recuperar um veleiro pequeno ou até um catamarã

    1. Max Gorissen disse:

      Boa tarde Deivisson… a resposta é complexa… tudo vai depender do que você comprar, do tipo de material usado na construção e do estado em que estiver o veleiro… Você me deu uma ideia e vou escrever um artigo a respeito para ajudar pessoas que queiram recuperar veleiros… aguarde… em breve! Abraço!

  2. Luciano reis disse:

    Boa tarde, você tem algumas informação a respeito dos barcos da imagem de numero 8 no dia 24 de maio 2019, temp interesse.

    1. Max Gorissen disse:

      Bom dia Luciano,

      Na imagem No. 8 existem dois veleiros… o catamarã amarelo Sonher, que se encontra na Marina Tropical no Guarujá (Canal de Bertioga) e um monocasco de nome Viajero, que se encontra abandonado em um terreno baldio no Saco da Ribeira em Ubatuba. Para informações do catamarã, entre em contato com a Marina Tropical através do Telefone: 13-3305-1321. Com relação ao monocasco não tenho nenhuma informação de contato pois tirei a foto enquanto passava pela rua que fica atrás do Iate Clube de Ubatuba. Para informações sobre esse veleiro terá de ir até lá para ver se o veleiro ainda se encontra no local (essa foto foi tirada há 2 anos) e procurar pelo proprietário. Espero ter ajudado. Bons ventos! Max

  3. shaila Oliveira disse:

    Bom dia amigo Max sou de Mage Rio de janeiro vc pode me da alguma informação sobre veleiros abandonados e como faço para adquirir um veleiro abandonado

    1. Max Gorissen disse:

      Bom dia Shaila,

      Normalmente, você tem de encontrar o proprietário e negociar direto com ele a compra do veleiro já que, o que importa, é conseguir o documento do veleiro e trocar a propriedade antes de proceder à uma reforma. Isso porque, exite a preocupação do “antigo” proprietário, uma vez finalizada a reforma e com o veleiro novinho, apareça e peça que o devolva ou que ainda pague o valor de mercado por ele.
      Só para ilustrar vou contar uma história que aconteceu com meu pai … havia um HC-14 no CDMI-Guarapiranga abandonado havia anos, quase destruído e todo coberto por plantas. Alguém da gerencia do clube, na época, disse que ele poderia pegar para reformar pois o proprietário não pagava a estadia e havia abandonado o veleiro. Foi só o veleiro voltar de uma reforma completa, alguns meses depois, que o proprietário apareceu e quis vender o veleiro como novo para meu pai, inclusive, ameaçando-o por ele ter reformado sem seu consentimento… acredito que, nesse caso, houve má fé do proprietário e alguém do clube que armaram para cima do meu pai… meu pai acabou devolvendo o veleiro todo reformado e sem cobrar nada e ficando com o prejuízo. O veleiro voltou para o mesmo lugar onde estava e foi abandonado novamente. Triste…
      O mais complicado é quando o veleiro está abandonado na marina já que, mesmo sem pagar a mensalidade por meses e até anos, a marina, pela lei, não pode se livrar do veleiro, nem mesmo como forma de compensação pela falta de pagamento. Novamente, você terá de falar com o proprietário e negociar com ele e, neste caso, também com a marina que está no prejuízo.
      Resumindo: Veleiro abandonado tem aos montes em marinas, casas de veraneio, garagens, etc. Ache sempre o proprietário e negocie com ele. Se o veleiro não tem documento, não compre. Cuidado quando comprar um veleiro abandonado em uma marina ou estacionamento pois é muito provável que existam dívidas que você terá de sanar.
      Se mesmo assim quiser comprar pois é uma oportunidade única, fique esperta e tente, imediatamente, entrar com um pedido de propriedade e um registro através de um despachante.
      Nunca recolha um veleiro abandonado sem falar antes com o proprietário pois, neste caso, isso pode se configurar como roubo.
      Espero ter ajudado.
      Bons ventos! Max Gorissen

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