Manter a água indesejada fora do casco é o primeiro princípio para se permanecer flutuando – Manutenção da bomba manual de porão.

Todos os veleiros possuem, ou deveriam possuir uma e quase todos os velejadores as ignoram. Muitas vezes, por vários anos… até que acontece uma emergência e se lembram dela rezando para que funcione… por sorte, na grande maioria das vezes, mesmo tendo sido “abandonada”, ela funciona. Contudo, se não funcionar, com certeza, o veleiro irá terminar no fundo do mar… estou me referindo às bombas manuais de porão.

Para se ter uma ideia da importância da bomba de porão, independentemente de ser manual ou elétrica, vou usar um velho ditado que diz “manter a água indesejada fora do casco é o primeiro princípio para se permanecer flutuando” (autor não identificado) e, não é para menos, já que são as bombas de porão que dão à tripulação a bordo de uma embarcação a chance de “lutar e resistir” para estancar o fluxo de água e permanecer à tona.

Neste artigo, não vou falar sobre as bombas elétricas e sim me restringir às bombas manuais… sim, aquelas que todo mundo esquece e que só se lembra dela numa emergência ou no momento em que a bomba elétrica deixou de funcionar.

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Peças limpas e colocadas sobre a mesa em sua sequencia e posição de montagem… só faltam os parafusos e porcas de inox que seguram toda a peça.

 

As bombas manuais

A bomba de diafragma ativada por alavanca foi inventada em 1857 por Jacob Edson e, ainda hoje, estas bombas da Edson servem como referência para todas as outras bombas de diafragma, inclusive, para as de porão, que é como chamamos as bombas nas embarcações.

Observação: as bombas elétricas não possuem diafragma e sim uma hélice acoplada ao motor.

Só para esclarecer, a versão original da bomba Edson, feita em bronze fundido, foi projetada para bombear cimento molhado “para cima”, além, é claro, de outros líquidos, como é o caso da água.

Hoje, as novas bombas de porão para veleiros não são mais construídas em bronze, mas em plástico injetado com um diafragma, geralmente de borracha.

Idealmente, o corpo da bomba de alavanca manual é montada permanentemente no cockpit do veleiro, em um local desimpedido e de fácil acesso, ligada a duas mangueiras, uma de saída pelo casco e, a outra, que vem do ponto mais baixo do porão onde, normalmente, se acumula a água (para “sugar” a água).

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O local de bombeamento neste veleiro está bem localizado e desimpedido permitindo, em caso de velejada solo, bombear do posto atrás da roda do leme. Falta na foto a alavanca (braço) de bombeamento.

 

É importante ressaltar que o design do casco é um fator-chave para o bombeamento, tanto que, as embarcações configuradas com um corpo de canoa (fundo chato) são difíceis de bombear. Isso porque, ao navegar, a água irá correr para a frente (proa) e para trás (popa), ou apenas se espalhar se a superfície do fundo for grande, à medida que a embarcação responder a cada mudança no plano da água.

Manter o dreno de uma bomba de porão no lugar certo, com suficiente concentração de água para fazer “vácuo” e não entrar ar, o que diminui o desempenho das bombas, pode ser um desafio. Muitas vezes, é necessário “construir” uma caixa de coleta de água em embarcações sem um “reservatório de porão dedicado” para permitir com que a água acumule e possibilite a sucção. Há também o desafio de evitar com que detritos obstruam as válvulas de retenção.

 

O que dizem as Regras de regata Offshore

Velejadores de cruzeiro sempre se preocupam com as bombas, sejam elas elétricas ou as manuais pois suas vidas e sua “casa” dependem delas.

Velejadores de regata também, só que em menor escala pois estão mais preocupados em fazer com que o veleiro veleje mais rápido…. Por ter sido um velejador de regatas por muitos anos, fui consultar o manual da ISAF para ver como a entidade lida com as bombas de porão em regatas offshore e foi interessante notar que os regulamentos da International Offshore Sailing Federation (ISAF, hoje World Sailing), que são bastante específicos em certas áreas de segurança relacionadas à navegação, são insuficientes quando se trata de detalhes e especificações das bombas de porão.

No ISAF OFFSHORE SPECIAL REGULATIONS diz (em inglês): 3.23 Bilge Pumps and Buckets 3.23.1 No bilge pump may discharge into a cockpit unless that cockpit opens aft to the sea. ** 3.23.2 Bilge pumps shall not be connected to cockpit drains. (OSR 3.09) ** 3.23.3 Bilge pumps and strum boxes shall be readily accessible for maintenance and for clearing out debris ** 3.23.4 Unless permanently installed, each bilge pump handle shall be provided with a lanyard or catch or similar device to prevent accidental loss ** 3.23.5 The following shall be provided: e) one manual bilge pump Mo4 f) two buckets of stout construction each with at least 9 lit.

Traduzindo e parafraseando o descrito acima, nos termos da seção 3.23, a descarga de uma bomba de porão não pode ser canalizada para um duto ou uma mangueira de escoamento do cockpit, a menos que a água possa passar sem ser bloqueada para o mar. Ainda de acordo com os regulamentos da ISAF, bombas e caixas de strum (que são caixas tipo ralo presas às pontas das mangueiras para evitar com que alguma sujeira entre na mangueira) devem ser acessíveis e de fácil manutenção, devendo haver uma bomba manual que possa ser operada do cockpit. Um cabo deve ser usado para manter a alavanca (braço) da bomba e, alguns baldes “robustos” de 2,4 galões também precisam estar disponíveis.

Após ler o texto da regra, é interessante notar que não existem especificações mínimas para as bombas de porão, componente tão importante quando se está no meio do mar em uma emergência, contudo, se você se aprofundar na regra, perceberá que existe uma grande quantidade de detalhes quando se trata, por exemplo, de refletores de radar… sem comentários…

 

Capacidade das bombas manuais de porão

Ao escolher uma bomba manual de porão para seu veleiro, você poderá optar por diversas “Capacidades de Saída” para cada bomba.

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Essa capacidade vem especificada na embalagem e na bomba e são calculadas pelo fabricante ao se elevar a água a 1 metro de altura.

Normalmente, as bombas manuais para embarcações, possuem uma capacidade de 0,80 litros ou 1,3 litros por “bombada” sendo, a primeira medida, para bombas manuais de ação simples (um ciclo é igual a uma abertura do diafragma) e, a segunda, para bombas manuais de ação dupla (um ciclo é igual a duas aberturas opostas do diafragma).

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Contudo, se a capacidade da bomba manual de porão serve para comparar os diferentes modelos/ marcas, quando se trata de estabelecer qual é a melhor bomba manual para “usar no seu veleiro”, nada melhor do que um simples “teste de vazão” com a bomba instalada a bordo.

Isso porque, um teste nas “condições reais em que a bomba vai atuar no seu veleiro”, irá levar em conta vários fatores como, a espessura, o tipo e a rugosidade da mangueira, o efeito do atrito causado pelo comprimento da mangueira, as curvas (torções) em serpentina que sua mangueira tem de fazer para chegar até a saída, as conexões existentes através de anteparas e o uso de válvulas de retenção. Há também o efeito de se elevar a água (gravidade do volume ascendente) do porão até o ponto de descarga no costado do veleiro. Tudo isso somado, adiciona resistência ao fluxo de água e contribuí para diminuir o volume escoado.

Então, quando você mede a descarga “real da bomba manual no seu veleiro”, usando um balde e um relógio, não se surpreenda ao descobrir que a água que está sendo despejada na saída (descarga) através do casco é consideravelmente menor do que a especificada na sua bomba de porão.

Aproveite e realize este teste com sua tripulação pois ele é uma boa chance para a tripulação ter uma ideia de como um prolongado ciclo de bombeamento manual pode afetar os ânimos da tripulação em caso de uma emergência.

 

Fazendo a manutenção da sua bomba manual de porão

Agora que se lembrou de que não faz uma manutenção na sua bomba manual de porão faz um bom tempo, aproveite o ensejo… e faça.

Fiz a primeira manutenção na minha bomba manual de porão quando comprei o veleiro, há 3 anos. A bomba deve ter sido instalada no veleiro quando este foi construído em 1987 e, acredito, nunca passou por uma manutenção completa. Aliás, quando fui checar, percebi que a mangueira de saída de água estava desconectada o que, num caso de emergência, faria com que a água bombeada fosse parar dentro do veleiro novamente; receita certa para afundar.

Minha bomba manual de porão é uma Plastimo “Double Action” Ref. 11724 com teóricos 1,3 litros de vazão por “bombada”.

 

Erros na instalação (quando desmontei)

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A mangueira de saída da água estava desconectada… sim, é a mangueira que passa dando a volta por cima da bomba… pode bombear a vontade que a água volta para dentro do veleiro… ):   Repare também no Sikaflex usado para “vedar” as mangueiras de entrada da água… além de ser o meio errado para fazer este tipo de vedação em mangueiras, olha o serviço de “porco” que fizeram escorrendo o sika…

 

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Olha que gambiarra que encontrei! A mangueira azul é a de escoamento da água do cockpit… as pretas, a mais fina foi na verdade de cor azul (está suja com mais de 30 anos de mofo) e é a mangueira da bomba manual de porão e, a outra, mais grossa e essa sim preta, é a mangueira da bomba elétrica de porão… ambas, em vez de ligadas direto a saídas independentes pelo costado do veleiro, se conectam a essa mangueira de escoamento do cockpit por uma peça de aço inox que concentra toda a água em uma mesma mangueira que direciona a água para a saída na popa do veleiro (atrás do leme).

 

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Esta é a mangueira que aparece como “preta” na foto anterior por causa dos mais de 30 anos de mofo e que é ligada a saída da bomba manual. Repare como usaram Sikaflex para fazer a vedação devido ao uso de uma mangueira sanfonada que, acredito, foi a saída encontrada por quem instalou pois não conseguia fazer pressão com a abraçadeira (já retirada… dá para ver as marcas da abraçadeira na mangueira). As marcas no plástico preto não tenho nem ideia de como foram parar lá… que falta de cuidado!

Procedimento de desmonte, limpeza, manutenção e montagem

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Assim estava a bomba manual quando a desmontei… a aparência externa e o estado de conservação após mais de 30 anos instalada é muito boa. A marca branca no topo é tinta que usaram para pintar o cockpit e, por “preguiça”, não protegeram o local adequadamente com fita para evitar que entrasse tinta pela fibra do costado.

 

Desmontando a bomba manual de porão (clique na primeira foto da esquerda para ver a sequencia)

 

Montando a bomba manual de porão (clique na primeira foto da esquerda para ver a sequencia)

 

Espero que tenha aproveitado e que este artigo o ajude a tomar coragem para realizar a manutenção que está enrolando para fazer… seus componentes e seu bolso agradecem!

Bons ventos!

 

Max Gorissen

Velejador, escritor e Editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem! 😊

 

 

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