Veleiro Ranger 22

O Ranger 22 foi um veleiro inovador para sua época, projetado por Gary Mull nos meados dos anos 70 para competir na “Mini-Ton Cup”que, na época, era um dos principais mostruários de jovens projetistas, a fim de expor suas idéias, levando ao extremo as limitações impostas pela fórmula IOR. 

Para a Mini-Ton Cup de 1975/76, disputada na costa oeste americana, Gary Mull entrou com um projeto de 22 pés e 950 kg, mastreação 7/8, usando um revolucionário perfil de camber constante, com indutores de turbulência e popa larga, com um fundo relativamente chato, capaz de planar nas condições de vento e mar esperadas na época da competição. O barco foi o terceiro colocado no evento.

Mas a história e características do Ranger 22 você vai conhecer a seguir nos seus mínimos detalhes.

O que realmente queremos, agora, é que você inicie a leitura já sentindo a emoção de velejar em uma máquina de regatas como é o caso do Ranger 22.

Ranger 22 - Design

Características técnicas

Estaleiro: Mariner Construções Náuticas Ltda. – Porto Alegre – RS

Período de Produção no Brasil: 1979 (em 1978 adquiriu-se os moldes da Bangor Punta-USA junto com os do O’Day 23 e do Cal 9.2) até 1985 (?)

Classe: Originalmente para a classe IOR, hoje compete pela BRA-RGS

Armação/ Tipo: Sloop/ Mini-ton

Projeto: Gary Mull

Material do casco: Fibra de vidro

Categoria: Mar aberto

Motorização: Motor de Popa.

Tripulantes: 4

Pernoite: 4

Comprimento: 6,86 m

Linha d’água: 5,33 m

Boca: 2,44 m

Calado: 1,30 m

Área vélica (Mestra e Genoa): 19,30 m²

Área vélica (Balão): N/D

Deslocamento: 990 kg (lastro 408 Kg)

Tanque de água: Não vinha instalado

Associação Brasileira do Ranger 22 – Flotilhas: Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal: www.ranger22.com.br

Matéria na revista Vela e Motor de Fevereiro de 1984: velaemotorfev84

Matéria na revista Velejar e Meio Ambiente: velejar5testeranger

Casco

Desenho da Proa

A proa do Ranger 22 é o resultado final de diversos anos de ensaios e experiências realizadas por Gary Mull na busca de uma proa ideal para regatas.

Trata-se de uma construção relativamente fina e moderna, com a roda de proa reta desde o início, com um leve chin emergindo justamente abaixo da linha d’água.

O mais importante, porém, é que se trata de uma proa extraordinariamente eficiente, particularmente em contravento.

Outro beneficio que a proa do Ranger 22 oferece é uma melhor classificação sob as regras da IOR.

Basicamente, no caso dos veleiros, existem 3 modelos de proa:

  • uma proa mais cheia, como a ilustrada, sacrifica a capacidade em orça em favor da velocidade dos ventos folgados.
  • uma proa muito fina e delgada, que pode ter uma tendência perigosa de se enterrar em ventos de popa.
  • e o chin do Ranger 22 que é levemente mais acentuado e mais pronunciado do que em outros barcos do mesmo tamanho. O resultado: desempenho melhorado a barlavento.

Desenho da Secção Central e da Quilha

Nesta secção as linhas do Ranger 22 continuam a ser agressivas e modernas, apresentando um fundo relativamente chato, encurvando-se pouco para tornar-se quase plano.

ranger22_casco5
Um fundo quase plano e quilha tipo fin keel ajudam a tornar o Ranger 22 extremamente estável enquanto reduzem o atrito.

O desenho usado atende a basicamente quatro funções importantes:

  1. reduz o deslocamento do Ranger 22 e torna o barco mais leve;
  2. ajuda a aumentar a estabilidade do barco e lhe dá maior capacidade de área vélica;
  3. dá ao Ranger 22 excelentes características de desempenho numa grande variedade de condições, em contravento ou em ventos folgados, enquanto promove habilidades de surfing (visto que a maior parte de empuxo é criado nas primeiras 3/4 partes do casco);
  4. e, finalmente, dá ao barco uma base mais larga de cabine e maior espaço de piso. E ainda: sua “boca” se desloca o suficiente à ré para aumentar a estabilidade e evitar os notórios problemas de leme que acontecem em outros tipos de casco.

Uma quilha mais afilada

A quilha do Ranger 22 é uma fin keel. Ela baseia-se nos padrões e dados da NACA (National Advisory Committee for Aeronautics), que produziu a melhor quilha de uso geral em termos de capacidade a barlavento e a sotavento com um mínimo de atrito.

As opiniões, entretanto, não são tão unânimes quando se trata do formato do fundo da quilha.

No entanto, a quilha do Ranger 22 é praticamente um acordo.

Os formatos de quilha no plano transversal variam muito. Algumas são em forma de cunha, outras são completamente planas. O fundo da quilha do Ranger 22 é semicircular, umas construção testada em tanque que reduz o atrito e aumenta o desempenho geral, somando as vantagens dos dois extremos.

Construção da Secção de Ré, do Leme e do Espelho de Popa

ranger22_casco9

“A secção de ré do Ranger 22 é uma área em que tivemos extrema preocupação com as regras de classificação IOR, antes de pôr o lápis no papel”, disse Garry Mull na época.

No decorrer dos anos experimentou-se vários formatos diferentes de secção de ré, com tendências extremas para formatos em V e para planas e largas.

A preocupação primária com a construção da secção de ré do Ranger 22 foi ajudar a fazer um barco bem equilibrado e muito estável direcionalmente, sem tendências para orçar ou arribar.

Também há um elegante mini skeg (como diz Mull) na secção de ré, logo à frente do eixo do leme, para lhe dar maior estabilidade direcional.

Assim, como a fin keel, também o leme foi projetado aproveitando os dados da NACA.

Espelho de popa invertido, agressiva secção de ré e leme interno com compensação, contribuem para as características positivas de manejo e sensibilidade do Ranger 22, enquanto lhe dão velocidade excepcional.

ranger22_casco10

O leme do Ranger 22 fornece o máximo de controle com uma quantidade mínima de superfície molhada e resistência passiva.

Para que você possa entender:

ranger22_casco11

Ainda que relativamente veloz, um barco com secção de ré larga e plana pode ter problemas de direção em condições severas de navegabilidade.

ranger22_casco12

A secção de ré do Ranger 22 é moderadamente plana e larga, dando velocidade sem os problemas típicos de manejo.

ranger22_casco13

Uma secção de ré em formato de V sacrifica a velocidade para resolver problemas de direção e manejo.

Convés e Cockpit

ranger22_conves1

“Ao planejar um barco do porte do Ranger 22, a gente realmente tem que ter o cuidado de construí-lo em função do tamanho real das pessoas, em vez de simplesmente reduzir em escala alguma ideia encontrada em um barco maior”, raciocina G. Mull.

Por isso, o convés do Range 22 está tão bem planejado como o de qualquer embarcação maior.

É limpo, seguro e orientado para o trabalho da tripulação.

Umas das características do convés são os rebaixos para fixação de peças que substituem os tradicionais ganchos e alças. A vantagem destes rebaixos é que evitam que você tropece, enganche suas calças, rasgue velas, além de diminuírem o atrito.

O Ranger 22 possui um convés com antiderrapante moldado amplo, com bastante espaço para a tripulação trabalhar.

Pelo fato dos fuzis, assim como os trilhos dos passadores de genoa estarem fixados mais junto à cabine, o convés está livre de obstáculos.

O sistema de escota das velas de proa permite o controle das mesmas a barlavento, fazendo com que a tripulação permaneça em posição de contrapeso.

ranger22_conves2

Os rebaixos para fixação de ferragens e cabos são mais seguros e mais reforçados.

ranger22_conves3

Um poço para a ferragem de proa torna a disposição do convés do Ranger 22 limpa e conveniente

O cockpit é pouco usual por ter mais dois assentos separados avante para a tripulação, pondo esta abaixo do nível do convés e reduzindo ainda mais a resistência ao vento.

O timoneiro possui um posicionamento especial em um cockpit exclusivo com assento ao nível do convés, permitindo-lhe uma ampla visão.

Interior

ranger22_interior

A cabine do Ranger 22 oferece acomodações funcionais para 4 adultos e surpreende pelo acabamento.

Possui ainda dois paióis para guardar objetos e equipamentos, e ainda espaço para o fogão e uma pia (opcional) para quem quer fazer cruzeiros.

Acima de tudo, o barco é confortável e sem complicações desnecessárias na sua cabine, divergindo da maioria dos outros barcos de sua classe, obedece as regras mini-ton que definem o pé direito e as acomodações.

Mastreação

ranger22_mastro3

O mastro do Ranger 22 foi planejado para tornar o barco mais veloz. O mastro é único. Uma construção que reduz o peso do mastro e a resistência aerodinâmica significativamente, sem sacrificar a integridade estrutural da extrusão.

Foram incorporados estimuladores de turbulência, ideia retirada das asas dos jatos Boeing, que ajudam a manter o fluxo de vento ligado à vela grande, por um período mais longo, pelo fato de tornarem o fluxo prematuramente turbulento. Os benefícios são simples, mesmo que o princípio não o seja: menos resistência passiva e uma vela grande mais eficiente.

O plano de velas em si é um aparelhamento em 7/8. Um plano que oferece diversas vantagens, como a facilidade de manejo, inclusive em ventos fortes.

Este aparelhamento é encarado favoravelmente pela maioria das fórmulas de classificação, pois penaliza mais a área vélica da buja do que a da vela grande.

ranger22_mastro1

Um mastro tradicional é pesado e possui uma maior resistência passiva.

O mastro do Ranger 22 reduz o peso no alto, enquanto seus estimuladores de turbulência ajudam a tornar o aparelho mais eficiente.

ranger22_mastro2

O mastro do Ranger 22 é especial, com estimuladores de turbulência fazendo parte da extrusão.

Estaleiro

Estaleiro Mariner Construções Náuticas Ltda

A Mariner Construções Náuticas Ltda., localizada na época à Rua João Moreira Maciel, 1010 – Bairro Dona Teodora – Dona Teodora – CEP 90250 – Porto Alegre – RS – Caixa Postal 10431. Tel. 51-343-0059 foi um dos maiores estaleiros do Brasil, seguindo seu slogan: MARINER: A Tecnologia da Emoção e Aventura.

A empresa foi aberta em 01/03/1977 e, com seis funcionários, num prédio de 400 m2 no bairro Navegantes, começaram fabricando um total de 3 unidades mensais do veleiro dingue Day Sailer.

CIMG2985-Max
Placa com número do casco do veleiro ORM, um Ranger 26, produzido pela Mariner e destacando o veleiro O’Day… as placas eram as mesmas para todos os modelos.

Manual do Ranger 22 fornecido pela Mariner junto com o veleiro e usado como fonte de referência para as informações do veleiros descritas acima: Manual_Ranger_22

O projetista Gary Mull

ranger22_projetista

Gary Mull é uma lenda viva entre os projetistas de veleiros.

Graduado pela Universidade Cal–Berkeley, formado com diploma duplo em Engenharia e Arquitetura Naval, logo foi trabalhar na conceituada firma Sparkman & Stephens em Nova Iorque, onde foi desenvolvendo o seu trabalho e construindo seu nome.

Com uma grande experiência em veleiros da classe 6 metros (Sf. Francis V e VI, ambos foram campeões da Copa Desafio Americano Australiano) e na quantidade crescente de projetos sob encomenda, com veleiros vencedores como o Lively Lady, La Fortza del Destino, Improbable, Swamp Fire e Gonnagitcha.

Com essa experiência, não demorou muito para que se tornara um especialista em projetos de veleiros para construção em série, como o Newport 20 e 30 e os Rangers: 23, 26, 28, 29, 32, 33 e 37.

E foi desta tradição competitiva que nasceu o Ranger 22.

Sobre sua obra-prima, diz Gary Mull: “O que eu realmente queria era projetar um barco melhor. Um barco com melhor engenharia, melhor detalhamento, melhor equipado, melhor estilizado e, acima de tudo, que proporcionasse maior emoção ao velejar.

Gary Mull morreu de câncer em Julho de 1994 aos 55 anos.

Outros veleiros conhecidos (se faltar algum nos avise!)

  • Alcova
  • Alvazar
  • Amoribunda
  • Aty-aty
  • Axokidá
  • Brisa da Mar
  • Canopus
  • Carrapicho
  • Carô
  • Catraio
  • C’est la Vie
  • Cisco Kid
  • Desafio
  • Diversos
  • Dominus
  • EdsoneAlda
  • Eletric Lady
  • Freedom Bay Freelancer
  • Fuga
  • Gaudéio
  • Grumari V
  • Hook
  • Hora Extra
  • Horus
  • Huevon
  • I Vagabundo
  • Idefix
  • Jaçamã II
  • Jacamin
  • Kukunká
  • Kauai
  • Kiko II
  • Le Perfer
  • Les Must
  • Lucman
  • Mad Dog
  • Maden – Primeiro Campeão Brasileiro de Ranger 22 com Jorge Zariff.
  • Mandinga II
  • Mareta
  • Marochka
  • Mastership II
  • Matuto
  • Meia Noite II
  • Melody
  • Musashi
  • Nadja Linda
  • Nandanii
  • Old Flame
  • Olívia Palito
  • Pantanal
  • Petisso
  • Pipa
  • Piti
  • Pium
  • Portuense
  • Ranugento
  • Rigel
  • Set Point
  • Sirius
  • Tago Mago
  • Tamanco
  • Tamatoa
  • Tango Bravo
  • Traffic
  • Tre-lê-lê
  • Velho Elias
  • Wind Kiss
  • Winner
  • Wonderful
  • Xodo
  • Xucrut

Fotos:

Estas são fotos que me foram enviadas por seus proprietários para postar na SailBrasil.com.br. O crédito está descrito na maioria das fotos. Caso não esteja e for uma foto de sua propriedade, favor enviar seu nome para que possa destacar o crédito da foto.
1Banner - Anuncie seu veleiro na SailBrasil 2

SailBrasil: O bom e velho veleiro

Desde o seu lançamento, a SailBrasil desenvolve um conteúdo focado no que interessa aos 99% dos velejadores e proprietários de veleiros… sim, você, que aproveita sempre que pode para velejar no seu veleiro, que tenta realizar a maior parte das manutenções, que está sempre em busca de como melhorar a sua velejada ou o seu veleiro e que busca inspiração em outros velejadores.

Sim, você, que como eu, possui e mantém um veleiro de cruzeiro ou de regata um pouco mais “antigo” … o “Bom e velho veleiro”.

ORM-Max

Como você sabe, hoje, a grande maioria dos veleiros que estão em uso no Brasil não são novos, assim como também, a grande maioria dos velejadores hoje no Brasil não está pensando em comprar um veleiro novo… a grande maioria, hoje, se for comprar um veleiro, este será um veleiro usado… o “Bom e velho veleiro”.

Como sei que é muito difícil no Brasil encontrar informações sobre os diversos “antigos” veleiros produzidos em algum momento pela indústria nacional, decidi criar uma nova categoria na SailBrasil na qual vamos nos concentrar em pesquisar, identificar, compilar e disponibilizar as informações de “todos” (os que pudermos identificar) os veleiros já produzidos em série no Brasil.

Sim, são muitos modelos e, como tudo no Brasil, não existe registro disponível ou de fácil acesso… então… vamos ter de ir devagar… curtindo a viagem… conversando, pedindo informações e trocando ideias com a comunidade da vela… como um velejador que, pacientemente, aproveita os ventos para chegar ao seu destino.

Com esta ação, a SailBrasil segue seu objetivo de disponibilizar informações para que você possa:

  • Estar atualizado com o que acontece no mundo da vela;
  • Conseguir as informações de que precisa para construir, reformar, manter ou melhorar seu veleiro/velejada;
  • Prover um lugar onde velejadores de recreação possam encontrar informação e dicas para cruzeirar ou competir no Brasil.

Veja os veleiros que já estão disponíveis no menu principal na categoria “Bom e velho veleiro” e, se algo faltar ou encontrar algo errado, entre em contato no e-mail gorissen @sailbrasil.com.br e nos informe para que possamos realizar a correção.

Também ficamos muito felizes se apenas escrever umas linhas de incentivo…

Bons ventos!

Max Gorissen

Veleiro Gaia 1 – F&C 40 – 1987… o “Bom e velho veleiro” … 😊

Velejador, escritor, editor… nessa ordem

Deixe uma resposta