Queira apenas ficar no mar e dormir sob as estrelas.

Foi no dia seguinte ao Natal de 2018 que decidi que partiria, já nas primeiras semanas de 2019, em uma viagem em solitário com o meu veleiro Gaia 1.

Queria apenas ficar no mar. Sem grandes objetivos a não ser passar a noite sob as estrelas e velejar para uma ilha onde nunca antes estivera.

Então surgiu a ideia de velejar para o Sul, até a Ilha do Mel, na divisa entre Paraná e São Paulo, a 143,5 milhas náuticas da Baía de Santos – cerca de 21 horas de viagem, se fosse em linha reta e a uma média de 7 nós de velocidade.

Decisão tomada, bastava comunicar minha esposa e meu filho, além de organizar algumas coisas.

Férias lendo livros e revistas sobre vela

Estávamos de férias no Guarujá eu, minha esposa Zabetta e meu filho Maximilian, desde 17 de dezembro, curtindo as três semanas que decidimos passar em nossa casa de praia. Este ano, resolvemos ficar no calor, em vez de viajar para o Norte e passar frio!

No dia anterior, já havíamos feito a tradicional ceia de Natal com toda a família em nossa casa, em São Paulo, pois não estaríamos na cidade na noite de Natal, e depois viajamos para o Guarujá. O balneário é uma delícia nesses dias que antecedem o Réveillon, já que a maioria das pessoas passa o Natal em suas cidades com a família e só depois desce para a praia. Após essa data, salve-se quem puder!

Durante esses dias de férias, aproveitei para colocar a leitura em dia e, além das revistas baixadas no iPad, li um dos livros que já havia comprado e baixado no Kindle, a autobiografia de Robin Knox-Johnston, Running Free, editada pela Simon & Schuster. Para um velejador solitário em férias, ler Robin Knox-Johnston – a primeira pessoa a navegar sozinho e sem parar ao redor do mundo, em seu veleiro Suhaili, entre 14 de junho de 1968 e 22 de abril de 1969 – não só é relaxante, mas também ativa a imaginação! O livro é inspirador e obviamente cria aquela vontade de partir em uma aventura solo!

No Guarujá, passamos os dias relaxando, indo à praia para caminhar, nadando na piscina, comendo fora, passeando de carro pela cidade, caminhando no condomínio, velejando na Baía de Santos, assistindo a filmes, lendo, tirando sonecas e descansando… Tudo com calma, sem estresse: diferentemente das viagens internacionais, nas quais parecemos ter a obrigação de visitar tudo, em nossa casa de praia, que nem TV a cabo e Internet tem, realmente descansamos e tiramos férias!

O único aborrecimento que passei foi com a descoberta de cupins de madeira seca no veleiro – sim, aqueles bichinhos que comem madeira… Quando vi um monte de asinhas no sofá do salão, tive certeza de que houvera uma revoada de cupins ali dentro! Já “escolado” no assunto, chamei imediatamente a empresa que cuida de minhas casas em São Paulo e no Guarujá para realizar o tratamento da madeira: após desmontar todo o forro do teto, encontraram os cupins e aplicaram o veneno, eliminando os bichinhos.

No dia 5 de janeiro, Zabetta, que tinha de trabalhar na segunda-feira, e Maxy, que queria voltar para seu computador e jogos on-line com os amigos, voltaram para São Paulo. Eu aproveitei minha semana de férias remanescente para partir em uma aventura até a Ilha do Mel.

No domingo, logo pela manhã, fui ao supermercado comprar tudo de que precisaria para cinco dias a bordo. Meu plano era velejar por três dias, mas sempre compro mais mantimentos para o caso de mudar de ideia – afinal, na vela, sabemos o destino, mas nunca quando iremos chegar lá. Passei o dia organizando as compras e tudo que era necessário para uma viagem solo.

A limpeza do casco do veleiro era uma delas. Eu já havia encomendado ao Sr. Assis, mergulhador, uma raspagem do fundo do veleiro para aquele mesmo domingo à tarde. Meu veleiro fica na Marina Supmar, no CING-Guarujá (ler matéria sobre o Guarujá na SailBrasil Magazine n.º 4), em um braço de canal do Rio do Meio, de águas paradas – o que é muito propício para o desenvolvimento de cracas, mariscos, ostras, algas e outros organismos marinhos.

Limpeza e retirada das cracas do casco por raspagem com o veleiro na água.

Antes do Natal, eu já havia feito uma limpeza prévia de fundo, com o veleiro fora d’água, pois o casco estava com uma camada de uns 2 centímetros de “vida marinha” grudada nas obras vivas (parte submersa do casco), reduzindo absurdamente seu desempenho. Ele havia ficado uns dois meses sem limpeza de fundo, tempo após o qual, em locais de água corrente e fresca, basta uma limpeza com pano ou bucha para tirar as poucas cracas que grudam na tinta anti-incrustante. Contudo, em pleno verão, nesse canal de águas paradas e quentes, inserido em um ecossistema que combina Mata Atlântica e manguezais, o desenvolvimento de toda e qualquer vida marinha é muito favorecido… Resumindo: meu casco estava novamente com muita craca grudada, mas o Sr. Assis conseguiu limpar tudo e deixá-lo lisinho.

Um completo “ecosistema” grudado nas águas vivas do casco do Gaia 1

Outra providência necessária era organizar as cartas náuticas de que precisaria para o percurso. Fiquei incomodado por não possuir a carta em papel da região da Ilha do Mel e Paranaguá. Não gosto de navegar sem as cartas de papel nem por regiões conhecidas, imagine as desconhecidas. Eu tinha duas cartas da região até Cananeia, uma da Ilha de São Sebastião à Ilha de Bom Abrigo e uma do Porto de Cananeia. Acessei então o Navionics no meu iPad e salvei ampliações de detalhes da Ilha do Mel e região, para poder acessar sem estar conectado à Internet. Também programei meu GPS Raymarine de bordo com as cartas e os waypoints necessários para uma navegação safa.

Outros preparativos incluíram passar linha de vida; trazer e subir o botinho; checar o funcionamento do motor de popa; revisar a passagem de cabos, roldanas e catracas; revisar o motor de centro; trocar baterias de lanternas e equipamentos manuais, como o GPS; colocar água no tanque; colocar água nos dois galões de reserva de 25 litros e diesel no tanque e galões.

Para o abastecimento de diesel, naveguei até o Iate Clube de Santos, e acabei presenciando uma situação inusitada que não posso deixar de relatar – e que, apesar de preocupante, também é hilária… Quando terminei de abastecer, apareceu uma lancha de 25 pés com dois casais e um bebê chorando a bordo. Ao se aproximar do píer, o rapaz do posto pediu para que o capitão da lancha – o lancheiro, pois não posso chamá-lo de capitão após o ocorrido – jogasse o cabo, diante do que ele respondeu que não tinha nenhum cabo a não ser o da âncora. Com cara de espanto, o rapaz do posto, vendo que a embarcação vinha rápido e estava sem defensas, pediu para ele diminuir a velocidade e colocar as defensas, para segurar a lancha. Sem reduzir a velocidade, o lancheiro pegou uma defensa pequena, daquelas de bote de pesca, e, em vez de amarrá-la para proteger o casco, jogou-a para o rapaz do posto, que até a deixou a cair na água de tão abismado que ficou… A lancha bateu no píer com barulho de fibra quebrando, mesmo com o rapaz do posto tentando segurá-la. Enquanto isso, da minha popa, eu via a embarcação virando e vindo por inércia com o motor de popa em direção à popa do meu veleiro: quase bateu, mas o rapaz do posto conseguiu segurar a lancha e evitar o abalroamento. Ficamos popa com popa. Muito perto para meu conforto. O dono da lancha então olhou em volta, como se nada tivesse acontecido, e pediu para encher o tanque de gasolina. O rapaz do posto pediu para abrir a tampa do tanque, e o lancheiro disse que não sabia onde era… Complicado… O bebê chorando? A mãe estava lambuzando o rosto do garoto com protetor solar e estava entrando nos olhos… haja!!! Enquanto o rapaz do posto segurava a lancha com uma mão e abastecia com a outra, pois o dono da lancha não se deu nem ao trabalho de descer para segurá-la, este gritava com a mulher que não aguentava mais, que estava ali para relaxar e que ela devia fazer a criança parar de chorar… Terminado o abastecimento, o lancheiro não quis ir até a cabine do posto pagar, nem descer para segurar a lancha. Seu amigo parecia em transe bebendo cerveja na popa aberta e conversando com a outra mulher, ambos deitados em uma daquelas boias de puxar pessoas como esqui aquático. O rapaz do posto soltou a lancha e foi correndo pegar a máquina de pagamento; quando voltou, a lancha já batia no píer. O lancheiro permanecia inabalável, como se nada estivesse acontecendo. Pagou, virou para o volante, ligou a lancha e, sem dar tempo de o rapaz do posto empurrar a embarcação para longe do píer, arrancou raspando a lateral até que virou o volante da lancha, que virou rápido e bateu no píer o canto da popa e o motor. Por sorte a hélice não acertou a parte baixa do píer, mas o canto da popa tirou um pedaço. Então ele arrancou acelerando, com a mãe e a criança cambaleando para trás e caindo no cockpit. Um perigo!!! Devia ter filmado!!! “É”, pensei, “começou a temporada de perigo no mar…”

Voltando à marina, com o veleiro abastecido (110 litros no tanque e mais quatro galões de 25 litros) e tudo pronto e organizado, retornei à minha casa no Guarujá para uma boa noite de sono, pois planejava passar a noite seguinte em turnos de 2 horas acordado para cada 20 minutos de cochilo.

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Partindo para a Ilha do Mel

Após uma boa noite de sono e um belo café da manhã, cheguei à Marina Supmar por volta de 8 h 40, e às 8 h 57 já estava partindo e avisando minha partida no canal de segurança dos velejadores da Baixada Santista no WhatsApp, chamado “Canal 16”, com o seguinte texto: “Gaia 1 partindo da Supmar com destino à Ilha do Mel no Paraná – uma pessoa a bordo”.

Apenas para esclarecer, o referido Canal 16 é um grupo do WhatsApp que não tem qualquer relação com o Canal 16 do Rádio VHF, usado para contato com a Marinha, Capitania dos Portos, Emergência etc. Ele tem como objetivo claro e restrito manter um canal de comunicação entre os velejadores cadastrados no grupo e a Polícia Ambiental de Santos, informando sobre partidas/chegadas e situações de risco às embarcações/tripulantes durante a navegação na Baixada Santista. Criado em 2016 durante a época em que estava havendo muitos roubos a veleiros na costa de Santos e do Guarujá, as postagens são restritas a fotos e avisos de saída/chegada, principalmente avisos de perigo. O canal é monitorado por seus membros, que incluem a Polícia Ambiental, única com poder de polícia na costa do Brasil (não existe no país a figura da Guarda Costeira). Em caso de emergência, ela atua imediatamente dando apoio ou tomando as ações cabíveis de acordo com cada situação. A ideia é simples e funciona muito bem.

Partindo. No canal de Santos, muito movimento de navios. Saída registrada no Canal 16.

Saindo da Baía de Santos e passando a Ponta de Itaipu

Ao passar pela Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande (coordenadas aproximadas 23⁰ 59.666’ S e 46⁰ 18.399’ W), no Guarujá, na margem esquerda de quem parte por mar pelo canal do porto de Santos, temos a visão completa, à direita, da orla de Santos e de São Vicente.

De imediato, o que se percebe é a quantidade de edifícios ao longo de quase toda a orla, logo indiciando que algo está errado. Alguns deles estão inclinados, parecendo na iminência de cair sobre o prédio ao lado… Não, não estou mareado!

Logo depois de passar pela fortaleza, clipei meu cinto de segurança paraquedista (arnês que passa pelos ombros) à linha de vida (possuo duas fitas amarelas da Plastimo, feitas de tecido de poliéster de 30 mm de largura e com tensão de ruptura de 2000 DaN, uma para cada bordo do veleiro), que já havia instalado de proa a popa, em ambos os lados, no dia anterior.

Por falar em linha de vida, é importante destacar que esse é um equipamento fundamental para quem vai encarar o mar sozinho. Junto com o cinto de segurança paraquedista ou o colete salva-vidas de inflar com arnês integrado, ela tem por objetivo impedir que um homem que caia ao mar fique para trás, mantendo-o ligado à embarcação mesmo do lado de fora. Conseguir subir de volta ao veleiro já é outra história, mas pelo menos você não fica para trás no meio do mar e tem uma chance de voltar à embarcação.

Como não havia vento, o percurso entre a fortaleza e a Ponta de Itaipu, ao sul da Baía de Santos, foi realizada com a ajuda do motor. De obstáculo, apenas alguns barcos de pesca puxando suas redes.

Partindo com a ponta da praia de Santos ao fundo… nada de vento! Mas a previsão de vento no trajeto era boa… 🙂

Velejando sozinho

Interrompendo por um instante o relato, gostaria de falar um pouco sobre velejar sozinho.

Velejar sozinho é um desafio, principalmente em alto-mar. Essa é uma atividade na qual o indivíduo é totalmente responsável por sua própria segurança e capacidade de resolver o que quer que venha a ocorrer. Não há a quem recorrer, nem é possível esperar que alguém resolva o que quer que seja.

Por esse motivo, velejar sozinho é uma atividade de muita concentração e pouco descanso. Concentração no vento, no mar, no tempo, no movimento do veleiro: tudo tem de estar em harmonia. Pouco descanso porque não podemos nos dar ao luxo de dormir por oito horas seguidas – muitas vezes, nem por uma hora inteira –, o que causa exaustão, até o velejador se acostumar (se é que isso é possível).

Além disso, velejar sozinho tem um grande impacto no estado emocional do velejador, uma vez que no percurso se enfrentam inúmeros desafios mentais e físicos. Um exemplo bastante comum: durante uma ventania forte com mar desencontrado, normalmente o velejador assume o leme, pois não é possível manter o rumo no piloto automático. Em pouco tempo, sobrevêm o cansaço, por ser necessário ajustar constantemente o rumo, e o frio, em razão do vento ou da chuva batendo no corpo. Nesse momento, não há quem possa substituí-lo, ninguém para fazer um café quente ou trazer um sanduíche após horas no leme…  Também não é possível deixar o leme para ir ao banheiro nem para um simples xixi… Nesses casos, é preciso estar bem, mental e fisicamente, para suportar tal esforço, lembrando que, sozinho, não há outra saída. Não é possível simplesmente parar no posto de combustível para descansar, comer ou ir ao banheiro, como fazemos em uma viagem de carro.

É nesses momentos que você percebe que depende inteiramente de uma grande força de vontade interior. Quem não tem essa força padece. Quem não tem essa força não deve nem tentar se lançar ao mar sozinho.

Contudo, quando se alcança essa paz interior, para quem navega em solitário, finalmente se passa a ser livre… É assim que me sinto quando velejo sozinho.

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Da Ponta de Itaipu até Peruíbe

Ao passar a Ponta de Itaipu já se avista toda a orla do litoral sul de São Paulo, onde se encontram, nesta ordem, as cidades de Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe, depois a Ilha Comprida, que vai de Peruíbe até a Ilha do Cardoso (onde fica a entrada para a cidade de Cananeia), a Ilha do Superagui e a Ilha das Peças, limite fronteiriço dos estados de São Paulo e Paraná, onde fica a Ilha do Mel (coordenadas aproximadas 25⁰ 32.519’ S e 48⁰ 17.589’ W).

Abrindo-se, da Ponta de Itaipu, umas 2 milhas náuticas e colocando-se a proa no rumo 143⁰, sempre com cuidado por causa das lajes e ilhotas pelo caminho, a entrada do Canal da Galheta, que passa pela Praia das Encantadas na Ilha do Mel, que seria meu destino final, situa-se em linha reta a 141,2 milhas náuticas.

Foi quando passei a Ponta de Itaipu que o vento entrou. Começou devagar, com 3 nós vindos de leste, e foi subindo para 5 nós. Então abri as velas, desliguei o motor e, finalmente, entrou um vento de 8 nós, que se manteve constante até chegar a Peruíbe, umas 7 horas depois.

Vista da orla do litoral sul a partir da Ponta do Itaipu… só prédio a perder de vista…

O trecho Ponta de Itaipu-Peruíbe foi uma daquelas velejadas de cruzeiro tranquilas, com mar calmo, vindo da alheta, o que ajudava o veleiro avançar, sendo necessário apenas ajustar as velas, ligar o piloto automático e relaxar. Simplesmente coloquei um dos meus assentos com suporte para as costas de frente para a proa, e estiquei as pernas por cima da proteção do cockpit.

Você já deve conhecer a sensação: o vento enche as velas e empurra o veleiro a uma velocidade de 5 a 6 nós. Sentado, olhando para a proa, com o corpo totalmente relaxado e as pernas esticadas e um pouco elevadas apoiadas na proteção do cockpit, você se concentra no balanço do mar, olhando as marolas. Nos pés, as sandálias de borracha dão o tom do momento, criando uma imagem de relaxamento e descanso. O silêncio do mar, quebrado somente pelo barulho da água sendo deslocada pelo casco, num chuaaaaá inebriante, e, eventualmente, um tong seco de algum cabo batendo no metal da mastreação quando entra uma rajada. Você está em transe, mas atento ao movimento do veleiro, que, suavemente, aderna e volta, aderna e volta, em um movimento constante gerado pelas marolas que levantam o casco e pelo vento que estufa as velas.

Nesse ambiente, esquecemos nossas preocupações, e nossas sensações se aguçam. Começamos a perceber de maneira muito mais intensa tudo o que está a nossa volta. Percebemos o vento passando rasteiro através das águas, pela diferença de coloração da superfície do mar durante a rajada. Sentimos quando as velas pegam o vento, o casco aderna e começa a se mover, e a velocidade aumenta, como se uma mão invisível estivesse nos empurrando. É uma experiência maravilhosa!

Paz e tranquilidade…

Nem por isso o velejador deixa de estar atento, como que em suspenso, aguardando por algo. Velejar demanda total atenção e implica todas as suas capacidades. Os olhos varrem tudo no entorno, checando se as velas estão na posição correta, ao mesmo tempo em que se concentram nas ondas, nas lãzinhas indicadoras da direção da rajada de vento, no enchimento, bater e contorno das velas, na posição da tripulação (se houver), nas outras embarcações e nas ilhas ou praias próximas. Os ouvidos registram o som das ondas, do vento, das velas e qualquer barulho no casco ou na mastreação. O tato imediatamente transmite ao cérebro diversas sensações, como se existissem sensores espalhados por todo o veleiro e conectados ao velejador, indicando qualquer mudança na direção ou na força do vento, na umidade do ar, no rumo da embarcação, na influência das pequenas marolas ou das ondas batendo no costado, do casco respondendo ao vento ou às ondas e, até, se o veleiro está velejando solto ou não. Na vela, todas as capacidades do navegante são essenciais e precisam estar ajustadas com perfeição para aquele momento.

Por isso, é difícil menosprezar a intensidade da sensação que velejar provoca nas pessoas, embora poucas pessoas venham a ter a dádiva de sentir tudo isso.

Assim, divagando sobre o momento, sozinho em meus pensamentos, tirando uma soneca de 20 minutos a cada duas horas, fui avançando em direção à Ilha do Mel.

Até que cheguei, após passar por entre a Ilha da Queimada Pequena (24⁰ 22.463’ S e 46⁰ 48.550’ W) e a Ilha da Queimada Grande (24⁰ 28.831’ S e 46⁰ 40.631’ W), por uma linha imaginária de intersecção da minha rota com Peruíbe (coordenada aproximada no mar 24⁰ 28.380’ S e 46⁰ 54.176’ W). Ali, tudo começou a mudar. Eu navegava a umas 15 milhas náuticas da costa.

O sol vai se pondo no horizonte… longe de tudo e de todos, é simplesmente maravilhoso!

De Peruíbe à Ilha do Cardoso

No través da Ponta do Juquiá, em Peruíbe, o mar começou a crescer, e o vento a diminuir.

Quando percebi as mudanças, aguardei uns cinco minutos para ver se as condições se confirmavam e, em seguida, liguei o motor, enrolei a genoa e baixei a mestra, travando tudo para aguentar o balanço do mar.

Foi como o previsto: sem vento e com marolas grandes vindo pela alheta, o veleiro passou a dar chacoalhadas mais fortes. Acelerei, na tentativa de estabilizar a embarcação pelo empuxo, mas as ondas que entravam pela popa a faziam subir e, ao passar pelo veleiro e sair pela bochecha de proa, faziam o casco seguir o movimento diagonal causado pela onda, levando o veleiro a adernar na diagonal e produzindo a sensação de que meu corpo seria jogado pela borda, até o momento em que o peso da quilha contrabalançava e interrompia o movimento, retornando o veleiro ao prumo. Então, tudo se repetia com a próxima onda, naquele movimento desconfortável que faz muita gente marear.

Mantive o veleiro no motor nessas condições por pelo menos uma hora, até que, no través da Ponta da Grajaúna, o vento começou a aumentar. Então, abri a genoa, subi a mestra e voltei a velejar.

Voltando a velejar… repare nas linhas de vida amarelas, uma em cada bordo. Nessa hora, estou preso pelo gato ao guardamancebo superior – lado direito embaixo da foto.

O vento subiu a 10 nós, mas as ondas continuaram iguais, mantendo o desconforto do balanço – apesar de que, navegando a vela, com uma velocidade mais próxima daquela apresentada pelas marolas, o movimento era menor.

Já eram 20 h quando identifiquei no GPS a parte norte da Ilha Comprida pelo través. Eu havia beliscado alguma coisinha ao longo do dia, mas naquele momento bateu uma fome danada de “comida”, então desci para fazer meu jantar.

Preparei um pene ao molho de tomate com cebolas e queijo ralado. O veleiro balançava muito, então tive de colocar o mínimo de água para ferver a massa, pois o fogão articulado ia de um lado para o outro. O molho, apesar de pronto, gosto de incrementar com cebola. Primeiro corto em pedaços pequenos e frito meia cebola no azeite e, quando estão dourados, coloco meio saquinho de molho pronto, um belo pedaço de manteiga e mexo até tudo ficar aquecido (não ferver). Então pego um prato fundo de metal que guardo para momentos de mar agitado, ponho a massa já escorrida e jogo por cima o molho de tomate e o queijo ralado. Fica delicioso! Uma fatia de pão e uma garrafa de água (vinho seria o ideal, porém nunca bebo álcool quando velejo) complementam o jantar simples… À noitinha, depois de um dia de velejada, uma comida quente – não tem nada melhor!

Pene ao molho de tomate, com cebolas e queijo ralado no prato fundo de metal. Quando a fome bate depois de um dia velejando, nada como um prato quente!

Mas ficou melhor ainda quando olhei para cima e vi o céu estrelado pelo qual tanto ansiava desde minha decisão, no dia seguinte ao Natal, por uma travessia noturna.

Fiquei um longo tempo observando o céu, como que em transe… quanta beleza! Sem as luzes da civilização, tendo desligado até a luz de navegação – que no meu veleiro fica instalada no topo do mastro –, o céu estrelado era de tirar o fôlego. Acho que nunca vira nada igual, nem em outras navegadas noturnas, como o céu sem nuvens que havia naquele momento. E só iria melhorar, pois por volta de meia-noite ele estava tão limpo que era possível ver até o leitoso da Via Láctea, e todo um universo de estrelas e constelações. São momentos como esse que valem qualquer coisa!

No entanto, naquelas condições de mar, as sonecas de 20 minutos podem ser muito complicadas, pois os movimentos, às vezes bruscos, interrompem o sono, impedindo que se durma bem. Os olhos vão ficando pesados, ardidos, como que cheios de areia.

Do ponto em que me encontrava, faltavam ainda umas 16 horas de viagem até a Ilha do Mel.

Terminado o jantar, desci e lavei tudo, como sempre faço. Não gosto de deixar nada sujo e sei que o melhor momento para lavar os pratos e as louças é, se as condições permitirem, quando se acaba de comer, porque não há garantia de que essas mesmas condições vão durar. Com o calor, aquela pilha de coisas sujas pode acabar cheirando mal.

E foi ótimo ter seguido minha rotina, pois, ao subir novamente ao deck, pude constatar que as marolas e o vento haviam mudado de direção e vinham de popa!

Baixei a mestra e reduzi a genoa pela metade, pois o vento continuava nos 10 nós com rajadas de 12 nós. Cacei bem os dois running-stays e o back-stay para dar suporte ao mastro, e sentei atrás da roda do leme, a fim de acertar o rumo. Coloquei o veleiro em popa-rasa e me preparei para o perrengue…

Perrengue porque, tendo meu veleiro um design de 1987 baseado nas regras da Classe IOR (International Offshore Rule – regras aplicadas aos veleiros de regata entre os anos 1970 e meados da década de 1990, que estabeleceram os parâmetros para o rating das “Ton” Classes, ou classes de tonelagem), ele tem uma popa mais estreita, dificultando a estabilidade com ventos de popa. É um veleiro insuperável na orça e muito bom nos ventos de través, contudo, nos ventos de popa, parece um João Bobo, pendendo de um lado para o outro só por causa do vento, o que piora ainda mais se as marolas também estiverem vindo da popa… Resumindo: as perspectivas para as próximas horas eram de muito desconforto!

Eu poderia ter orçado um pouco e mudado meu rumo para mar aberto (rumo à África), entrando em um través, o que faria com que o veleiro se estabilizasse e não balançasse tanto, mas a popa rasa me levaria direto para meu destino, e eu já começava a ficar cansado. Por isso decidi aproveitar os 10 nós de popa e rumar direto para a Ilha do Mel.

Tentei tirar umas sonecas seguidas, colocando o despertador (uso um timer de cozinheiro, com alarme por corda) a cada 20 minutos, para acordar e verificar se tudo estava bem, voltando então a dormir, e repetindo o procedimento em seguida. Esse esquema de sono, no entanto, acaba me deixando mais cansado do que ficar acordado direto, e minha energia foi diminuindo.

O veleiro avançava no piloto automático, só na genoa reduzida, fazendo 7 nós de velocidade em 10 nós de vento, balançando de um lado para o outro…

Mas bastava acordar e olhar para o céu que todo o desconforto se justificava. Lá pela meia noite, as estrelas e as constelações estavam tão nítidas que tudo era registrado pelos meus olhos em alta definição… Não sou capaz de descrever a beleza que foi o céu dessa noite! Longe de tudo e de todos, velejando a 7 nós, só com o barulho do vento e da água sendo deslocada pelo casco do veleiro – é de tirar o fôlego! Passei muito tempo fixado em tanta beleza, até que o movimento descontrolado do veleiro, por causa do vento que chegava a 15 nós e das marolas que aumentaram pela popa, me levou a diminuir ainda mais a genoa.

Lá pelas 2 h da madrugada, com a cidade de Cananeia pelo través, mas ainda a umas 20 milhas náuticas da costa, cansei de ser jogado de um lado ao outro e decidi buscar pouso na Ilha do Bom Abrigo, próximo à entrada do canal que leva até Cananeia.

Eu nunca havia estado na região e, apesar de não haver nenhum “perigo à navegação” (lajes, ilhas, pedras etc.) registrado entre minha posição e a Ilha do Bom Abrigo, decidi, por estar sozinho, me aproximar em ziguezagues de 30 minutos, tirando sonecas de 20 minutos, para chegar com a luz do amanhecer, prevista para às 5 h 30… Mantive essa decisão por dois percursos de 30 minutos, até que, olhando melhor os detalhes da carta náutica, percebi que mesmo na maré baixa teria água sob a quilha nos pontos mais rasos. Então liguei o motor, enrolei o que restava da genoa (que já mais parecia uma storm sail), engatei o motor e acelerei, rumando para a Ilha do Bom Abrigo, aonde cheguei por volta das 4 h da manhã.

A primeira coisa que fiz foi tentar localizar o Farol da Ilha do Bom Abrigo (Lp Alt. BBE 30s 146m 28/23M). Eu estava dentro dos limites de sua luz, mas não conseguia identificá-lo. Recorri então ao GPS, que me mostrava onde deveria procurar, e nada! Descobriria depois que ele não estava funcionando – mais um perigo para a navegação! Irresponsáveis!

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Eram umas 3 h da madrugada quando, visando terra, tentei contato com Zabetta para avisar que estava tudo bem. Como não havia sinal de celular, mandei uma mensagem de WhatsApp, imaginando que ela já estaria bastante preocupada, pois eu não dera sinal de vida desde Peruíbe (não levei Spot ou outro meio de comunicação por satélite). Por incrível que pareça, tive sinal quando terminei de escrever o texto, vi que a mensagem foi entregue, e em seguida o sinal desapareceu – foi como se tudo conspirasse para deixá-la tranquila!

Chegando à Ilha do Bom Abrigo, levei um susto! Um monte de luzes vinha em minha direção! Diminuí a rotação do motor, tentando identificar o que eram. Toda uma faixa de mar à minha proa estava tomada por essas luzes! Parecia o filme Contatos imediatos do terceiro grau, só faltava a música: “Pam, Pam, Pam… Pom, Pom!!!”

Não entendia o que eram as luzes, pois, segundo meu GPS, eu não estava rumando para terra, mas para um canal bordeado pela Ilha do Bom Abrigo a bombordo (minha esquerda) e pela Ilha do Cardoso a estibordo (minha direita). Talvez embotado pelo cansaço, levei uns momentos até compreender que as luzes nada mais eram do que diversas embarcações de pesca, navegando paralelamente umas às outras, com todas as luzes acesas, puxando suas redes através do canal formado pelas duas ilhas.

Ancorado na Ilha do Bom Abrigo com o sol nascendo por trás da ponta sul da ilha. Vou dormir…

Aliviado pela descoberta, acelerei o motor em direção às luzes e rumei para onde o Navionics dizia ser o melhor ponto de fundeio na Ilha do Bom Abrigo (25⁰ 7.085’ S e 47⁰ 51.675’ W). Finalizei meu fundeio às 5 h 30 da manhã e, após verificar que estava safo, com o Sol despontando por trás da ilha, exausto, mas feliz por ter conseguido cumprir meu objetivo de passar a noite sob as estrelas, fui dormir na cabine de proa.

Pensando em mudar meu destino para Cananeia

Dormir não foi realmente possível, pois o “canal” formado pelas ilhas, onde eu estava ancorado, não era abrigado dos ventos e das marolas que vinham do leste. Foi uma chacoalheira igual ou pior que a da noite anterior. Mas dormi um pouco e, duas horas depois, acordei faminto.

Logo ao acordar, a primeira coisa que fiz foi inspecionar todo o veleiro, para verificar se estava bem ancorado e se tudo estava bem após a velejada. Ao meu redor, nenhum perigo à embarcação e nada além de um barco de pesca com um pessoal segurando varas de pescar. Acenei e me retornaram a gentileza, como que dizendo “Bom dia para você também”. Estando tudo certo, entrei na cabine para vestir a sunga e dar um belo mergulho nas águas convidativas.

Estando ainda suado do dia anterior, o banho refrescante restabeleceu minhas energias “mentais”. Fiquei um bom tempo na água, nadando em torno do veleiro. Com as energias mentais restabelecidas e toda a moleza lavada do meu corpo, faltava repor as energias físicas, com um belo café da manhã.

Como de costume, preparei meus ovos mexidos com cebola, pimentão e tomate, que comi na mesa do cockpit junto com um chá preto e pão de forma com manteiga e geleia de frutas vermelhas. Delícia! Café da manhã completo! Acho que nem em São Paulo como tanto!

Enquanto minhas forças voltavam e me inseria no ambiente a minha volta, lembrei que as cartas náuticas de que eu dispunha terminavam bem naquele local, a Ilha do Bom Abrigo. Eu as havia comprado  no ano anterior, com a intenção de vir a visitar Cananeia com meu veleiro. Por isso, tinha a carta para navegação “Da Ilha de São Sebastião à Ilha de Bom Abrigo” e a carta detalhada mostrando a entrada e o canal do “Porto de Cananeia”.

Bem, eu estava ali. Logo em frente ao lugar que desejava um dia visitar. Então, por que não visitar Cananeia em vez de continuar viagem por mais 16 horas até a Ilha do Mel?

Café da manhã reforçado após mergulho no mar. Em vez de café, um chá preto acompanhado de ovos mexidos e pão com manteiga e geleia… Acho que nem em São Paulo como tanto!

A vantagem de velejar sozinho é que não é necessário negociar com ninguém. Analisando a situação e não encontrando argumentos contrários, decidi visitar Cananeia, satisfeito com minha nova alternativa.

A Barra e o Canal de Cananeia

Um grande problema da Barra e do Canal de Cananeia é a falta de indicação e demarcação por boias. Mas o maior problema é a constante mudança dos bancos de areia na entrada do canal (barra), devido às mudanças de maré que atuam sobre os baixios.

Por esses dois motivos, falta de demarcação e mudança nos bancos de areia, a barra já não pode receber navios, como no passado. Porém barcos de pesca, lanchas, jets e veleiros, dependendo do calado, ainda conseguem passar por ali, já que a parte mais rasa, dependendo também da época do ano e da Lua, chega aos 2 metros na maré baixa e ultrapassa os 4 metros na maré alta.

Apesar das indicações nas cartas e no Navionics, faltam, como mencionado, boias demarcando a entrada do canal. Elas provavelmente desapareceram por falta de um trabalho de manutenção e remanejamento de acordo com as mudanças dos bancos de areia. É como tudo no Brasil: largado… E, neste caso, perigoso! Além disso, as cartas náuticas da Marinha (de 1988) estão com a batimetria completamente desatualizada. Tudo isso reduz o turismo náutico na região, que é muito visitada por terra, mas pouco procurada pelos velejadores que navegam entre o sul e sudeste do Brasil.

Repare que na minha carta em papel da entrada da barra de Cananeia, tem um pedaço de carta atualizada colada sob a anterior… muda tanto que a Marinha decidiu por simplesmente adicionar um “pedaço” à carta antiga. Nesta, ainda existem as boias de balizamento…que não existem mais…

Passando pela Barra de Cananeia, o navegante pode encontrar abrigo, abastecimento, manutenção e turismo na cidade, e ainda acessar o Canal do Varadouro. Hidrovia natural de aproximadamente 40 milhas náuticas em zona de mangue, parte da Mata Atlântica, o Canal do Varadouro foi aberto em 1953, conectando os estados de Paraná e São Paulo. Ele interliga o porto de Paranaguá a Cananeia por águas abrigadas, apesar de ainda perigosas, devido à constante movimentação de seus bancos de areia e, para um veleiro, pela falta de profundidade em diversos locais, às vezes inferior a 1 metro.

Apesar de tudo isso, eu queria entrar com meu veleiro que cala 2,05 metros para conhecer a região e pernoitar em Cananeia.

Eram 10 h 30 da manhã quando levantei o ferro e parti rumo à entrada do canal. O Sr. Assis, do Guarujá, havia me dado o telefone de um amigo residente em Cananeia, o Orlando, que poderia me ajudar a entrar no canal.

Sem sinal de celular, não consegui falar com ele de imediato, então mandei uma mensagem por WhatsApp e fiquei procurando a entrada da barra com base nas antigas marcações de boia nas cartas (que não servem para nada) e das ondas. Mas não seria fácil. Com o profundímetro indicando mudanças constantes de profundidade, muitas vezes indo de 10 metros para 2 metros em segundos e obrigando a virar a roda do leme desesperadamente rumo à parte mais profunda, decidi permanecer na frente da barra fazendo ziguezague, esperando por sinal de celular ou por um barco de pesca que me indicasse a entrada do canal.

Nesta foto vemos o barco de pesca que me ajudou a entrar no canal pela proa e as ondas formadas ao longo da entrada do canal de Cananeia. Olhe na carta náutica na página anterior e entenderá de que estas ondas estão na faixa dos 1 metros limítrofes do canal formado pelo azul escuro.

Lá pelas 11 h, um pescador passou com seu barco, gritando e fazendo gestos para que eu o seguisse. Sem pensar duas vezes, virei o veleiro e aproei na sua popa, mantendo uma distância de três embarcações.

Nesse momento, meu celular tocou. Era o Orlando, que recebera minha mensagem (incrível ter conseguido enviar um texto por WhatsApp, mas não fazer um telefonema: acho que o aplicativo fica tentando conexão até encontrar). Continuei seguindo o barco de pesca e expliquei pelo telefone o que estava fazendo, que Orlando me respondeu ser o procedimento recomendado, pois os bancos de areia mudam muito de lugar e, inclusive, os pescadores têm usado uma nova entrada na barra, um pouco mais ao norte, pois a tradicional já não permite mais a entrada de embarcações com calado superior a 1,5 metro. Enquanto conversávamos, eu ia entrando no canal e, de repente, o profundímetro marcou 2 metros! Dei um grito, mas Orlando me tranquilizou dizendo que essa era a profundidade na maré baixa, mas ela logo iria aumentar. Então entrou uma onda pela popa que levantou o veleiro mais 1 metro. Quando estava no topo da crista, pensei que o veleiro bateria a quilha no fundo após a passagem da onda, mas não bateu, e o profundímetro voltou a indicar 2 metros e logo 2,5 e então 3, profundidade que se manteve até passar a barra e entrar na parte funda do canal, com 8 metros. Em ambos os lados, via as ondas nos locais onde existiam os baixios: o canal é limitado pelos baixios com suas ondas. É muito estranho, mas ao mesmo tempo fantástico… Então relaxei. Estava safo!

Repare na faixa de águas calmas que se formam até o limite do banco de areia onde dá claramente para ver as ondas… do outro lado é igual. Uma vez que achou a entrada do canal fica fácil navegar.

Continuei acompanhando o barco de pesca, que seguia o contorno do canal. Em momentos se passa perto de terra, em outros se passa no meio do canal, e é possível ver claramente, pela cor das águas, onde a profundidade é de centímetros, mesmo parecendo estar muito longe da costa e a apenas alguns metros do veleiro.

Ele ia devagar, a 3 nós, e decidi segui-lo nessa velocidade até o fim, curtindo a beleza ao redor. A região é muito bonita e, até passar o Morro Mirante São João Batista, que esconde a cidade de Cananeia, parece ser inóspita. Após o morro, a ilusão se desfaz e voltamos à civilização, visualizando a orla da cidade (para ser sincero, bem feia…).

Eu havia combinado de encontrar Orlando no Centro Náutico Cananeia (www.centronauticocananeia.com.br), 25⁰ 0.44’ S e 47⁰ 55.35’ W, única “marina” da cidade e, por incrível que possa parecer, único posto de abastecimento náutico entre Santos e Paranaguá.

Joguei ferro a uns 40 metros do pontão, a uma profundidade de 10 metros na maré baixa, organizei tudo a bordo e baixei o botinho para ir a terra me encontrar com Orlando, que já acenava da varanda.

Orlando é daqueles sujeitos nota dez! Você gosta dele de imediato! Prestativo, amável e educado, ele decidiu mudar de vida e abandonar a cidade grande para poder “viver” em vez de “sobreviver”. De bom nível social, ele mesmo se intitulou de “vagabundo”, apesar de viver em uma bela casa com sua esposa, o que faz gostar ainda mais dele! Ele me mostrou a marina, apresentou o dono e sua esposa, e se colocou à disposição para qualquer coisa. E então partiu, de bicicleta, com a certeza de ter feito mais um amigo nessa vida…

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Aproveitei que havia descido a terra e eram 13 h para almoçar no restaurante da marina. Comi – tendo o prazer de ter como vista meu veleiro sobre o pano de fundo do mangue da Ilha Comprida – um prato executivo por R$ 30,00, com uma salada de entrada e um muito bem servido prato principal de filés de pescada da região com arroz, feijão e batata frita. Tomei uma jarra de suco natural de abacaxi. Delicioso! Como é bom o gosto do peixe quando ele é fresco e sem agrotóxicos!

Satisfeito, voltei ao veleiro para descansar um pouco e me preparar para um passeio pela cidade de Cananeia.

Cananeia

Historiadores afirmam que Cananeia é o povoado mais antigo do Brasil. Não vou discorrer longamente sobre a história do local, mas vale dar algumas pinceladas, pois ela é muito rica e pouco conhecida.

Acredita-se que o início do povoado original é de 1502, data aceita como a do desembarque de um europeu ilustre, de alta classe, que se tornou conhecido como o Bacharel de Cananéia. Dizem que esse homem foi o Mestre Cosme Fernandes, bacharel português e judeu convertido (cristão novo) que foi desterrado, tornando-se o primeiro europeu a se estabelecer no Brasil.

Saltando para 1872, Cananeia passa a focar suas atividades econômicas na pesca. Na época, já contava com 16 estaleiros com mais de 200 embarcações construídas, tendo contribuído para isso a necessidade de transportar tropas e mantimentos para a consolidação das fronteiras no sul do Brasil. Em 1889, um cais de pedra é construído para a movimentação do pescado.

Em 1895, São João Batista de Cananeia é elevada à categoria de cidade, passando a se chamar apenas Cananeia em 1905.

No início do século XX, a pesca transforma-se na principal fonte de renda da cidade, chegando a se registrar a exportação, em 1920, de 25 toneladas de pescado, entre peixes, camarões, ostras e mariscos. A vocação pesqueira se consolida na década de 1930, e em 1936-1937 é construído o Entreposto de Pesca.

Antes disso, com o objetivo de encurtar o caminho e eliminar a necessidade de passar pela foz do Rio Ribeira para se chegar a Iguape, os habitantes desta vila haviam exigido a construção do canal que a ligou ao rio. Terminada em 1885, a obra hidráulica, chamada de Valo Grande, inicialmente com 4 metros de largura e 2 quilômetros de extensão, logo foi destruída, pois suas margens foram levadas pelo caudaloso rio, principalmente na época das chuvas na cabeceira, carregando canal abaixo grande quantidade de aluvião através de todo o lagamar.

O mar fez o resto e, durante cem anos, carregou tudo para o sul, causando o progressivo assoreamento da barra de Cananeia. Assim é que, até 1960, navios cargueiros com cerca de 120 toneladas, contratados pela Cia. Serrana de Mineração para retirar minério do terminal de Porto Cubatão e levar até Santos, por via marítima, para fabricação de cimento, entravam e saíam livremente da barra. Depois dessa data, nenhuma outra embarcação desse porte entrou no porto.

Assim entendemos o motivo da existência da Barra de Cananeia: tudo causado pela ignorância e ganância do homem…

Voltando a minha viagem, como fazia 35 graus de temperatura, decidi esperar um pouco para desembarcar e visitar a cidade e, lá pelas 15 h, subi no botinho e rumei ao Píer Municipal no motor. Lá chegando, tentei amarrar o botinho em um lugar que não incomodasse a grande quantidade de embarcações de alumínio que levam e trazem os turistas às diversas atrações naturais e vistas de botos, maior atração da região.

Caminhei pela orla suando sob o intenso calor. Nem a brisa ajudava: ela também era quente. Entrei na cidade e fui até o centro.

Para dizer a verdade, fiquei meio decepcionado com Cananeia. Talvez por ter Paraty como parâmetro… Achei Cananeia, em termos de casarios de época, pouco atrativa. Muitas casas históricas já viraram restaurantes ou lojas de artesanato e quinquilharias para turistas – aquelas coisas que a gente acha legal quando está viajando, compra e, depois que volta para casa, não sabe porque comprou ou o que fazer com aquilo…

O melhor ponto turístico da cidade, na minha opinião, é a Igreja Matriz de Cananeia, levantada entre os anos de 1660 e 1680, de construção simples e muito bonita. No entanto, salvo as paredes externas, tudo ali é novo, já que todos os elementos originais que havia dentro da igreja foram retirados durante reformas nos anos 1970. Até a imagem do Padroeiro São João Batista, feita de madeira policromada e datada aproximadamente do século XVIII, foi roubada, restando apenas uma réplica no local. Que pena: nada sobrevive neste país!

Igreja Matriz de Cananeia, levantada entre 1660 e 1680, de construção simples e muito bonita

Outro ponto turístico que adorei foi a Sorveteria Frutos de Goiás Cananeia, a uma quadra da igreja, que tinha uns 50 tipos de sorvetes! Naquele calor, nada melhor!

Andei por toda a orla, passando pelo ferry-boat, até chegar às cooperativas de peixe, na base do morro Mirante São João Batista. Então, morrendo de calor, retornei ao meu botinho através de algumas das ruas internas, atrás da igreja, a fim de observar as casas coloniais. Nenhuma me animou… Talvez eu tenha de voltar e pesquisar melhor.

De qualquer forma, o que Cananeia tem de mais belo são os manguezais, os canais e a Mata Atlântica que, ali, resplandecem! Só isso já vale a visita. Cidades temos em todos os lugares, mas uma natureza tão selvagem, preservada e isolada é sem dúvida o diferencial de Cananeia. E como estou em um veleiro, posso viver tudo isso sem ter de pisar na cidade!

Da base do morro Mirante São João Batista, dá para ver toda a orla de Cananeia com suas cooperativas, hotéis, residências e, ao fundo, bem no meio da foto e antes do “mundão” de manguezais, o Centro Náutico Cananeia, único posto de abastecimento entre Santos e Paranaguá.

Ninho de marimbondo

Voltei ao veleiro e amarrei o bote. Estava na hora de sujar as mãos e resolver o efeito de um problema ainda não solucionado desde que o identifiquei durante minha quase viagem para Miami: o vazamento do tanque de água doce quando o veleiro aderna muito. E como adernou durante a viagem! O resultado foi um porão cheio de água que precisava ser retirada – falo daquela água que a bomba de porão não consegue escoar, que se espalha e fica abaixo do nível do automático da bomba.

Para facilitar o trabalho, utilizei o aspirador que mantenho no veleiro. Liguei o motor, coloquei em 2.500 RPM para manter as baterias carregadas, acionei o inversor (12v/127v) de corrente, retirei todo o assoalho e o acomodei em uma das anteparas e, finalmente, liguei o aspirador. Coletei 6 “aspiradores” de 10 litros – 60 litros de água doce perdidos, sem contar o que a bomba escoou durante a velejada. Está na hora de resolver esse o problema!

Enquanto jogava a água aspirada pela borda, comecei a observar marimbondos voando pelo barco. Por experiência anterior, sei que isso significa que estão fazendo um ninho por ali. Nem precisei procurar muito, bastou identificar a concentração dos insetos no púlpito de proa, na conexão com o guarda-mancebo, para saber onde estavam fazendo o ninho.

Para combater os marimbondos, minha arma, a mesma que usei da outra vez que isso aconteceu (na Marinas Nacionais, quando tentaram fazer o ninho na retranca) foi uma embalagem de spray SBP para mosquitos e pernilongos, aplicando a favor do vento para acertar o ninho.

Retranca com os marimbondos fazendo seu ninho. Dá para ter uma ideia do que foi.

Essa estratégia só tem um problema: é necessário segurar a embalagem de spray a uns 30 centímetros do ninho, e os marimbondos não gostam nada nada disso. Como eles estavam se instalando no púlpito de proa, eu só podia me posicionar para o ataque por fora do veleiro. Então subi no botinho e fui no motor até a proa, me segurei na barra oposta do púlpito, estendi o braço até que o spray estivesse a uns 30 centímetros do ninho, e apertei o borrifador, regulando o ângulo do jato em relação ao vento para que o borrifo acertasse o ninho bem no meio. Não preciso dizer que, assim que o primeiro borrifo acertou o ninho, foi uma revoada de marimbondo para todo lado!

É necessário ficar borrifando até que todos os marimbondos desistam do local – ou será a rainha?… Por isso, mantive a ação por uns dois ou três minutos e, a cada aproximação de um inseto ao meu rosto, parava de borrifar o ninho e borrifava o marimbondo… É um desespero! Minha alternativa para o caso de os marimbondos começarem a me picar era me jogar na água. Quando o púlpito estava quase sem marimbondos, não sei por quê (talvez a rainha tenha se liberado e estava muito brava), os marimbondos começaram a vir para cima de mim em enxame!

Engatei o motor e saí dali a toda. Mas os marimbondos começaram a me seguir. Foi então que passei a apontar o borrifo para trás, tentando acertar os marimbondos em pleno voo, sem ao menos olhar para onde ia: foco total nos insetos! De repente, não sei como, o costado do veleiro surgiu a minha frente, a uns 5 metros da minha proa! Girei o manche do motor de popa do botinho com tamanha força para evitar bater no veleiro, que ele deu um cavalo de pau e quase me faz cair na água. E os marimbondos em cima de mim! Mudei o rumo, acelerei novamente e continuei a borrifar. O spray estava quase terminando… Olhei para o píer e vi uma plateia que acompanhava tudo, mas duvido que entenderam o que realmente se passava, pois daquela distância era impossível ver os marimbondos. Deviam pensar que o velejador que ali chegara era louco e estava tentando pulverizar o entorno do seu veleiro contra insetos!

De qualquer forma, em algum momento os marimbondos pararam de me perseguir e, voltando ao veleiro, sem uma única picada, tive de limpar o monte de insetos que jaziam mortos no meu deck e matar os últimos que ainda se aventuravam por ali, talvez à procura do ninho ou de sua rainha. Depois que tudo terminou, fiquei triste por ter matado toda uma comunidade… Mas não poderia deixar prosperar um ninho de marimbondos bem no púlpito do meu veleiro!

Terminei então de tirar a água do porão e fui esfriar o sangue descansando no deck por meia hora – o que, com o calor que fazia, não adiantou muito. Mas logo tive de me movimentar novamente, para levantar ferro e achar outro fundeadouro: começava a ventar forte, 14 nós com 16 nós na rajada, e fiquei preocupado pois fortes marolas e correnteza indicavam que a maré estava subindo. Tive até a sensação de que o veleiro tinha unhado (se soltado) e estava derivando, mas nunca saberei com certeza, pois segundos depois já estava levantando o ferro.

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Com o vento forte e a maré enchendo muito rápido (devia haver uns 5 nós de correnteza), retornei correndo à roda do leme para ter o comando do veleiro, mas este girou e ficou de lado em relação ao vento e, com a maré enchendo e acertando o costado e a quilha, ele começou a derivar rápido em direção à costa. Foi quando vi que já estava quase em cima de uma poita marcada por uma garrafa plástica verde. Pensei rápido, calculei e dei uma acelerada forte em revés, para tentar fazer o veleiro recuar e a boia passar por baixo da proa, em vez da popa, onde podia se enrolar na hélice e no leme. Tudo funcionou conforme o cálculo, mas, com o veleiro passando com a proa por cima da boia verde, vi que ainda não podia acelerar para recuperar o controle, pois o veleiro derivava rápido em direção a uma poita amarela. Só ouvi o pessoal do píer gritando: “Olha o veleiro! Está solto! Vai encalhar!”

Impassível, analisei o ângulo novamente e calculei o que fazer para evitar que a poita enroscasse na hélice ou no leme. Tinha de fazer com que ela passasse novamente por baixo da proa, contudo a costa e um outro píer de madeira estavam bem perto, e o campo de manobra seria apertado. Então, engatei a ré com toda força, o motor foi para 2.600 RPM em segundos, senti o tranco do veleiro se movendo para trás e a poita a uns 2 metros do costado, paralelo à hélice. Imediatamente acelerei para 3.100 RPM, nível máximo do meu motor, e segurei até ver a poita a um metro do costado, quando desacelerei e coloquei em neutro. Ouvi o barulho da poita bater no casco e o veleiro se mover para trás e para o lado ao mesmo tempo. Deu certo: o cabo da poita passou avante da quilha e a poita seguiu arrastada pelo empuxo do cabo pela proa. Não estava safo ainda. O veleiro ainda avançava em direção ao píer de madeira. Então, quando vi que a poita passou para o outro lado do veleiro, girei controladamente a roda do leme e novamente engatei ré com força, para que o veleiro virasse em seu próprio eixo e se alinhasse com o vento e a maré. Assim que percebi o alinhamento, desengatei a ré e engatei avante, sentindo e escutando as engrenagens do reversor, abusadas pelo meu desespero. Acelerei a 3.000 RPM e o veleiro quase que levanta a proa. Virei o leme para longe da poita, que ainda estava perto do meu costado, e a distância do píer de madeira na minha popa começou a aumentar. A velocidade aumentou e retomei o controle do veleiro, passando a uns 2 metros da poita amarela e, na sequência, a uns 4 metros da poita de garrafa plástica verde. Alívio!

Então, naveguei no motor por uns 15 minutos, indo até o ferry-boat e voltando, só para baixar a adrenalina e relaxar, e em seguida reposicionei o veleiro um pouco mais longe da costa, tarefa que só consegui cumprir na terceira tentativa. Dei toda a corrente que tinha, 40 metros, e fiquei de olho em dois pontos de referência em terra por uns 15 minutos, para ter certeza de que o ferro não iria se soltar e o veleiro derivar. Após a noite anterior, queria uma noite de sono tranquila!

Essas situações ilustram o que comentei mais acima sobre os problemas de navegar em solitário e a necessidade de pensar e resolver sozinho as dificuldades que surgem. No caso da ancoragem, no curto tempo em que eu não estava no controle do veleiro, ou seja, enquanto o ferro não subiu e travou em seu suporte, ele ficou desgovernado e sujeito às influências do vento e da maré. Se houvesse alguém na proa para levantar o ferro enquanto eu estivesse na roda do leme e manche para manter o veleiro aproado e sob controle, nada disso teria acontecido.

Mas todos esses perrengues fazem parte da experiência de velejar e de aprender a velejar e a se virar sozinho. Para quem gosta, é maravilhoso!

Tanto calor só podia acabar em tempestade

Já eram umas 20 h quando escutei o primeiro trovão. De banho tomado e tendo jantado macarrão instantâneo cru – pois de tão cansado nem quis fazer o jantar –, subi ao deck para ver o que me esperava: nuvens escuras, raios e trovões. Então começou a chover, e o vento, que continuava por volta dos 14 nós, começou a diminuir.

Chover não: diluviar! Com muitos raios, que pareciam veias prateadas vindo das nuvens em direção às montanhas, e trovões, daqueles barulhentos que fazem retumbar e vibrar tudo. Fiquei muito preocupado, pois meu mastro era, naquele momento, o ponto mais alto no canal.

Fiquei observando a tormenta por alguns minutos, mas estava tão cansado que tudo que eu queria era dormir. Liguei para Zabetta, avisei que tudo estava bem e fui dormir com o barulho de chuva batendo no deck e dos trovões que, apesar de próximos, soavam distantes dentro da cabine de proa toda fechada.

Nuvens pretas e raios e trovões com ventos de 14 nós.

Saindo de Cananeia

Acordei no dia 9 de janeiro às 6 h, pois nesse horário a maré estava em seu ponto mais alto, o que deveria me garantir uns 4 metros de profundidade na barra do canal. Também queria chegar ao Guarujá naquele mesmo dia, e calculei umas 17 horas de viagem, pois, se não ventasse, eu usaria o motor para tentar manter a velocidade de 7 a 8 nós de cruzeiro.

Como dizem, “depois da tempestade vem a bonança”. Naquela manhã, o ditado não podia ser mais verdadeiro: o dia nasceu maravilhoso! O Sol, vindo por trás de toda a extensão de mangue da Ilha Comprida, coloria toda a faixa de terra em camadas de diferentes tons de amarelo, laranja e vermelho. Por cima, tons de azul, entrecortados por nuvens que ora refletiam a cor alaranjada do sol, ora a cor acinzentada da noite. Maravilhoso! Coisas de quem vive e se aventura pelo mar…

“Depois da tempestade vem a bonança”… o dia nasceu maravilhoso! O Sol, vindo por trás de toda a extensão de mangue da Ilha Comprida, coloria toda a faixa de terra em camadas de diferentes tons de amarelo, laranja e vermelho.

Fiz um sanduíche de pão de forma com manteiga e geleia e, com o motor já ligado, depois da primeira mordida no sanduíche, fui até a proa para levantar a âncora. Não houve estresse: as águas do canal estavam paradas, como um espelho refletindo as cores da manhã.

Parti, sem plateia, sob as luzes de Cananeia a estibordo e o nascer do Sol a bombordo, aproando para o ponto mais profundo do canal. Girei o manche até chegar a 2.600 RPM e motorei avante pelos sinuosos canais de Cananeia.

No meio do canal, uma grande quantidade de botos cruzava de um lado para o outro – pareciam pedestres cruzando em suas faixas. Até aquele momento, não havia visto nenhum desses animais, mas então tive certeza: Cananeia é o lar dos botos! Naquele pequeno percurso de 1 milha náutica, devo ter visto uns 200 deles elevando suas barbatanas para fora da água. Lindo!

Mas eles acabaram sendo uma distração, quando eu devia estar concentrado para não sair da parte profunda do canal e, principalmente, tentar identificar por onde passar a barra para não encalhar.

Botos pela proa. Eles não colaboraram fazendo pose… aqueles pontinhos na água entre os brandais e o running são os tais botos!

Xingava minha própria estupidez por não ter ligado o GPS, no dia anterior, na entrada do canal, o que me daria a rota de entrada, que eu poderia inverter para sair. Embora meu GPS manual esteja sempre ligado, na manhã anterior eu o havia desligado, antes de decidir entrar em Cananeia, pois o deixara ligado a noite inteira, por descuido ou cansaço. Mas não adiantava chorar pelo leite derramado: se eu não encontrasse um barco de pesca saindo para o mar, teria de me virar para encontrar a saída… Tinha a tranquilidade de estar na maré alta, mas e se eu errasse a saída do canal e desse em um banco de areia?

Enquanto avançava, o dia ia clareando. O Sol, já não mais escondido pelo mangue no horizonte, exibia seu formato redondo bem em frente do veleiro. Eu conseguia ver claramente o canal definido pelas ondas que se formavam nos bancos de areia em ambas as laterais. No canal, as águas eram calmas, apenas formando marolas compridas, que faziam o veleiro subir e descer em um movimento delicioso.

Ainda assim, percebia a tensão em meus braços. Eu segurava a roda do leme com força e sentia o friozinho no estômago. Não era medo ou qualquer sensação ruim. Era pura ansiedade pelo desconhecido.

O sol nascendo por trás da Ilha Comprida… sim, aquela mancha na água são botos nadando…

Olhava as margens roídas pelo mar, as águas do canal, as ondas nas laterais, a carta náutica e o meu GPS e, com toda essa informação, não conseguia determinar o rumo a seguir. Olhei então para o Sol, imponente, bem na entrada da barra a minha frente, e pensei: vou rumar em direção ao Sol. Para muitas gerações de navegantes, esse astro sempre foi um aliado para determinar a direção a seguir. Neste caso, o rumo pelo Sol era tão bom quanto qualquer outro rumo que eu escolhesse…

Então cheguei mais perto da barra, que ficou mais nítida. O rumo para sair estava claro. Por acaso, a saída ficava exatamente em direção ao Sol.

De Cananeia para o Guarujá

Ao sair da Barra de Cananeia, basta traçar um rumo direto para a Baía de Santos-Guarujá. São 103 milhas náuticas com rumo de bússola 232⁰ e, a uma média de 7 nós de velocidade em linha reta, aproximadamente 15 horas de viagem.

A viagem de volta foi de grande beleza, com o Sol a boreste iluminando toda a Mata Atlântica a bombordo, as montanhas verdes, de diversos contornos, delimitadas e destacadas pela incidência de luz . A faixa de praia e de mangue da Ilha Comprida parece que nunca vaia acabar e são raras as cidadezinhas, ou melhor, vilas caiçaras, em sua margem.

A Ilha Comprida é um território de conservação e preservação rara nos dias de hoje, sendo um dos poucos ecossistemas não poluídos do Brasil. Ela tem cerca de 10 mil habitantes e apresenta diversas áreas ainda selvagens e de Mata Atlântica nativa, além das tradicionais vilas caiçaras.

Piloto automático ligado, Ilha do Cardoso pela popa, rumo à Baía de Santos.

Integrando o Complexo Estuário Lagunar de Iguape – Paranaguá, a Ilha Comprida constitui um dos maiores viveiros naturais de peixe e crustáceos do Atlântico Sul. É considerada Reserva da Biosfera do Planeta, devido à sua importância ambiental, pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Todo o município é considerado Área de Proteção Ambiental, e suas políticas estão vinculadas ao status de Cidade Modelo do Turismo Sustentável.

Por isso, aproveitei para apreciar a vista enquanto estava com a Ilha Comprida pelo través, já que, mais ao norte, quando se chega próximo da Ilha do Guaraú e seu farol (24⁰ 22.905’ S e 46⁰ 59.086’ W), um pouco antes de Peruíbe para quem vem do sul, o resto do litoral até Santos é puro desenvolvimento imobiliário. Não estranha que a Rodovia dos Imigrantes esteja sempre congestionada pelo pessoal que vem do litoral sul. É muito prédio!

A partir de Peruíbe, observei no mar uma faixa de espuma marrom com plantas boiando. A mancha era muito estranha e não parecia nada natural. Ela estava localizada justo no limite das águas costeiras, ao longo da faixa de 12 milhas náuticas (22 quilômetros) a partir do litoral. Quando vi o noticiário, após o fim de minha viagem, soube que um cargueiro lavara seus porões, despejando restos de fertilizantes pela costa do estado, antes de acessar o Porto de Santos. Isso é crime ambiental e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a Marinha e a Polícia Federal estavam estudando o caso.

Faixa de espuma marrom com plantas boiando… era fertilizante despejado por navio.

Lá pelas 14 h 30, entre Peruíbe e Itanhaém, começou finalmente a entrar um vento pelo través. Começou com 5 nós. Imediatamente abri a genoa para ajudar no motor, que mantive a 2.600 RPM, aumentado em 1 nó minha velocidade, que subiu para 8 nós.

Dia lindo, vento de través… O barulho do motor incomodava, mas não tanto, afinal, era ele que me levava rápido para onde eu queria ir. Então, lá pelas 16 h o vento foi a 11 nós, vindo da mesma direção. Mas eu estava preguiçoso e não subi a mestra; ao contrário, comi um pacote de salgadinhos e aproveitei a brisa do mar. Em seguida, foi para 15 nós, então ajustei a vela para que o veleiro não ficasse muito adernado. Mantive motor e genoa, e a velocidade do veleiro subiu para algo entre 8 e 9 nós – o limite para um casco deslocante de 40 pés como o meu.

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O vento forte pelo través e as rajadas de 17 nós obrigavam o piloto automático a corrigir constantemente o curso. Eu continuava com uma tremenda preguiça… Ou estava simplesmente relaxado? O fato é que, constatando que o piloto automático sofria para manter o rumo, desconectei o dispositivo e peguei na roda do leme, passando eu mesmo a navegar com motor e genoa totalmente aberta nesses 15 nós de vento com rajadas de 17 nós. Os puristas da vela que me desculpem, mesmo porque não tenho essas frescuras, mas foi uma delícia de velejada!

Voltando para o Guarujá velejando com 11 nós só na genoa.

Velejei até um pouco antes da Laje da Conceição (24⁰ 14.161’ S e 46⁰ 41.413’ W), que estava bem no meu rumo, e tive de decidir se passava por cima ou por baixo para não ir direto nela! Com o vento do momento, teria de orçar a laje e, ainda com 15 nós de vento, não queria fazer toda a força necessária para ajustar o veleiro para uma orça. Estava velejando bem no través do jeito que estava. Também não estava animado para de abrir a vela, por isso simplesmente a enrolei e continuei no motor, passando por baixo da Laje da Conceição e mantendo o rumo para a Ponta do Itaipu, ao sul da Baía de Santos.

Com várias nuvens no horizonte, o céu exibia aquela mistura de cores, sempre com o astro solar redondo, mas difuso, em destaque, e os diferentes tons de branco e cinza das nuvens de acordo com a forma como nelas incide a luz.

Por trás, o Sol já começava a se pôr naquele belo final de tarde. Com várias nuvens no horizonte, o céu exibia aquela mistura de cores, sempre com o astro solar redondo, mas difuso, em destaque, e os diferentes tons de branco e cinza das nuvens de acordo com a forma como nelas incide a luz. O mais bonito mesmo eram os raios solares se destacando rente à água na esteira do veleiro, cuja popa apontava exatamente para o Sol. Como a natureza é bela e como a vela é maravilhosa por nos permitir viver esses momentos!

Dali para frente, o vento se manteve forte, mas o mar ficou muito revolto, o que, junto com o cansaço, aumentou o desconforto. Assim, pensei em ligar novamente o piloto automático, mas comecei a encontrar muitas redes de pesca pelo caminho. Foram oito até a Ponta de Itaipu, e mal dava para ver suas bandeiras pretas, principalmente com o dia escurecendo. Fiquei na roda do leme, para desviar de todas elas, identificando a cada tanto uma bandeira preta e tendo de localizar a outra para desviar da rede.

Tudo transcorreu bem, e às 20 h 40, com a Ponta de Itaipu pelo través, e com sinal de celular, mandei uma mensagem ao grupo “Canal 16” do WhatsApp: “Gaia 1, chegando de Cananeia, passando a Ponta de Itaipu e entrando na Baía de Santos. 1 pessoa a bordo”.

Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande iluminada… cheguei no Guarujá.

Recebi os cumprimentos dos que sempre monitoram o grupo e respondi à pergunta do Sérgio, “Bate e volta, Max, ou algum problema?”, com o seguinte texto: “Bate e volta… Só passei o dia de ontem em Cananeia… A ideia era ficar no mar…”

Às 21 h 50 cheguei à Supmar e, usando a buzina manual de neblina, dei dois buzinaços duplos espaçados por 5 segundos, para que o vigia se alertasse da minha chegada, já que não havia mais ninguém na sala rádio para receber a informação.

Ao chegar à vaga, como sempre acontece quando você está cansado e só quer amarrar e descansar, tive de esperar boiando no canal até que movessem duas lanchas, uma de 35 pés e outra de uns 25 pés, que estavam amarradas uma a outra pelo través, ambas na minha vaga, com todas as luzes acesas e o pessoal batendo papo e ouvindo música. O canal estava um espelho. Nem vento havia. Depois de esperar que movimentassem as amarras no braço, sobrou um espaço justo para meu veleiro. Já havia colocado duas defensas de cada lado, pois iria ter de encaixá-lo entre a lancha de 25 pés e o veleiro Serelepe (o Fast 345 do Cassio), que estava do outro lado, em sua vaga. Vi a cara de preocupação dos lancheiros, provavelmente imaginando que eu rasparia suas lanchas, como acontece quando um deles faz uma manobra. Sorri para mim mesmo e engatei ré.

Acertei o ângulo de entrada e, em uma só manobra, coloquei a popa entre a lancha e o veleiro, e entrei calmamente na minha vaga. Só tive de empurrar um pouco a lancha quando chegou a meia nau, para que as defensas pudessem entrar também, tão estreito estava… Observei os lancheiros comentando: “Caramba! O cara entrou de uma só vez sem bater em nada!” Então deixei a roda do leme e caminhei até a proa, onde lacei o poste com a espia, prendendo a outra ponta no cunho, e retornei para continuar a manobra a ré até chegar perto do píer. Ali, dei uma engatada avante no manche, soltando ao perceber que o veleiro parara. Virei então para jogar os dois cabos de amarração de popa ao vigia da noite.

Sem acreditar na manobra a que acabavam de assistir, os lancheiros só disseram, em tom de respeito: “Bem-vindo, capitão!” Ao que retribuí com um “Obrigado!”

Eu estava cansado. Verifiquei se tudo estava amarrado e organizado e, fechando o veleiro e planejando voltar no dia seguinte para arrumar tudo, mandei um texto no Canal 16: “Gaia 1 safo na Supmar. Abs!” Minha viagem havia terminado.

Telefonei a Zabetta para dizer que tudo estava bem, peguei o carro e fui para minha casa dormir, do outro lado da ilha.

Durante o traslado entre a marina e a casa, repassei com alegria toda a viagem em minha cabeça.

Ao final do dia, após ter tomado um bom banho e já deitado para dormir um sono profundo, a última coisa que pensei foi: “Como é bom estar no mar!”

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor SailBrasil… nessa ordem!

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