Viagem de Paraty ao Saco da Ribeira pernoitando pelo caminho

Eu havia tirado alguns dias para levar meu veleiro Gaia 1, um F&C 40, de Paraty, no Rio de Janeiro, para o Saco da Ribeira, em Ubatuba, no estado de São Paulo.

Meu plano era partir bem cedo pela manhã, deixando a Baía da Ilha Grande, em Paraty, e velejando direto até Picinguaba, já em Ubatuba, onde pernoitaria; em seguida, velejaria por alguns dias por Ubatuba, ancorando e pernoitando em algumas das suas ilhas paradisíacas e curtindo o sol e o mar verde-esmeralda da região, aproveitando ao máximo meu veleiro.

Mas a previsão de que, na data planejada, uma frente fria sobre Paraty já haveria passado não se confirmou: ao anoitecer, quando cheguei à cidade, uma nova consulta à previsão meteorológica revelou que no dia seguinte o tempo ainda seria de céu encoberto e garoa.

E o pior: sem vento!

Condições de sol e vento para a travessia somente dali a dois dias.

Então decidi ficar em Paraty e aproveitar a cidade, sem dúvida uma das mais bonitas do Brasil, embora tenha se tornado um local totalmente voltado para o turismo e o comércio de “International Garbage” – como costumo chamar as bugigangas e artesanatos fajutos vendidos aos turistas.

Meu veleiro estava em uma vaga emprestada em uma marina, então decidi tirá-lo dali naquela mesma noite e ancorá-lo na Ilha da Bexiga, que fica bem em frente à cidade de Paraty, e dormir nele.

Para mim, uma marina é um lugar para guardar o veleiro enquanto não estamos nele, ou quando a embarcação está em reparo, o tempo está ruim ou não há lugar para pernoitar ancorado em segurança… Com base nessas premissas, soltei as amarras e saí motorando, após informar a marina da minha partida.

O percurso foi curto e em aproximadamente dez minutos eu já estava jogando ferro em frente à ilha, oculto de tudo e de todos pela noite sem lua e úmida pela garoa.

O mar estava tão calmo que, ao dar a ré, senti a âncora unhar de primeira.

Com 3,3 metros embaixo da quilha na maré baixa, mar calmo, garoa e sem vento, fui tomar um banho quente para então fazer meu jantar e, depois de telefonar a Zabetta para dizer que tudo estava bem, fazer a cama e me deitar.

Sem nenhum movimento do veleiro, imediatamente adormeci.

Paraty

Acordei lá pelas 8 horas da manhã com o delicioso barulhinho de chuva no convés.

Saí da cama de proa e fui dar uma olhada lá fora. Tudo nublado, com névoa baixa pela falta de vento e, uma garoa que, apesar de fraca, mantinha tudo molhado.

Bateu preguiça e voltei para a cama com a intenção de dormir mais um pouco; não consegui, e poucos minutos depois já me levantava para fazer o café da manhã.

Minha refeição matinal foi como de costume: meu chá preto, que sempre tomo em vez de café, foi acompanhado de ovos mexidos com pimentão, cebola e tomate, pães com manteiga e geleia, além de um pêssego. Refeição tomada dentro da cabine, pois lá fora estava tudo molhado apesar de a garoa já haver parado.

Como tudo que se faz sozinho e sem companhia, o café da manhã foi rápido, durou uns dez minutos. Ou seja, eram ainda 9 horas da manhã e eu tinha três horas até meu planejado almoço em Paraty.

Sem nada urgente no veleiro para fazer, e ainda preguiçoso, levantei a âncora e, sem vento, fui passear motorando pela baía de Paraty.

Saí em direção à Ilha do Cachorro, seguindo pela parte mais profunda do canal e passando a bombordo da Laje da Tapera.

No percurso, pude observar o desenvolvimento nas encostas já não tão virgens, com suas casas esparsas.

Passei por entre a Ilha do Mantimento e a Ponta do Cavalo, seguindo em um rumo meio paralelo pela costa dentro do Saco da Praia Vermelha, onde, ao chegar à Ilha da Pescaria, virei 180 graus para voltar a Paraty.

Nublado, tudo fica meio triste – diferente dos dias ensolarados, quando tudo parece mais vivo e colorido.

Naveguei tranquilo, sem pressa, chegando em frente a Paraty ao meio-dia e ancorando perto do limite da faixa rasa, próximo ao píer das escunas.

Meu bote estava no deque, então tive de virá-lo, apoiá-lo no guarda-mancebo e jogá-lo na água, procedimento muito simples dado o pouco peso do meu bote rígido, um WalkerBay 8.

Chegar por mar a Paraty é uma experiência maravilhosa. É realmente chegar pela porta da frente a essa cidade que é toda esplendor… mesmo nublado e garoando!

Já instalar o motor de popa é sempre um pouco mais complicado, por causa da estabilidade do bote na água; basta, no entanto, apoiar o motor no deque do veleiro perto da borda, descer no bote e pegar o motor apoiando primeiro no fundo do bote para, só então, depois de sentado, levantar o motor, girar o corpo e colocá-lo no suporte de popa.

Ancorado perto do limite da faixa rasa, próximo ao píer das escunas de Paraty.

Com o veleiro já fechado e de casaco de chuva, chapéu e uma sacola impermeável, parti rumo à prainha que fica no início do píer das escunas, aproveitando para curtir a beleza das construções coloniais de Paraty.

De fato, chegar por mar a Paraty é uma experiência maravilhosa. É realmente chegar pela porta da frente a essa cidade que é toda esplendor.

Com o tempo nublado, poucas pessoas na rua por causa da garoa, a cidade ganhou uma aparência bucólica que rapidamente me contagiou.

Comecei a pensar em como teria sido a cidade no período colonial. É impossível caminhar pela vila, cujos quarteirões não são quadriláteros perfeitos, com suas ruas e calçadas construídas com pedras de todos os tamanhos e formatos, apoiadas sobre a terra batida e, olhando constantemente para o chão a fim de não quebrar uma perna, não se perder em suas ruelas nem se deixar impressionar pelas construções e pela fidelidade das restaurações daquele pedacinho de nossa história. A mistura paradoxal do arcaico e do moderno pelas esquinas é fascinante: estruturas antigas incorporadas à modernidade dos bares e restaurantes que se alojam em seu interior.

Viajar para Paraty é como viajar no tempo.

Por tudo isso, viajar para Paraty é como viajar no tempo. É também uma experiência incrível de contato com a cultura popular do nosso país e com a natureza em sua forma mais espetacular.

Por lá, há muita história, mar, festivais e muito o que ver.

Naquele dia em particular, nublado e garoando, com as lojas ainda abrindo, quase ninguém nas ruas, nem as famosas carruagens de turistas, voltei por alguns minutos no tempo e pude sentir o que seria viver naquela cidade.

Então escutei uma suave voz cantando uma música brasileira, vinda de um restaurante; com fome, entrei.

A música que me convidou a entrar, fiquei sabendo depois, era “Casa e Janela”, cantada por Socorro Lira. No cardápio, a especialidade da casa (Arpoador – Rua da Matriz, 12), Moqueca de Peixe.

Delicioso! Perfeito para um dia chuvoso.

Moqueca de Peixe. Delicioso! Perfeito para um dia chuvoso.

Depois de comer, fui passear por Paraty e, com a maré cheia, pude observar a maravilha e a inconveniência que é a água subindo até o nível das calçadas – situação pensada, dizem, como forma de “lavar” as ruas da cidade, levando toda a sujeira com a maré vazante. Ainda bem que eu estava de chinelos…

Após algumas horas, voltei para o veleiro, com a chuva aumentando, e por lá fiquei, lendo um livro, beliscando salgadinhos e bebericando um copo de vinho tinto a cada tanto. Numa “trégua” dada pela chuva, remanejei o veleiro para a Praia dos Vagabundos, onde pernoitei protegido e tranquilo.

Acima, uma das tantas vielas e, abaixo, a água subindo até o nível das calçadas.
Praia dos Vagabundos, onde pernoitei protegido e tranquilo.

Pela manhã, com o céu ainda um pouco encoberto, mas dando sinais de que iria sair o sol, tomei meu costumeiro “chá da manhã” e, lá pelas 9 horas, parti.

Como queria conhecer o Saco da Velha, decidi não fazer o trajeto por fora da Ilha dos Meros, que daria na Ponta da Juatinga, mas entrar entre a costa e a Ilha do Algodão.

O Saco da Velha é muito bonito e, em uma próxima viagem, gostaria de ancorar ali e almoçar no restaurante Paixão do Vivinho, que me disseram ser excelente.

O novo percurso me vez navegar pelos canais constituídos pelas diversas ilhas e que formam o único fiorde brasileiro.

Naveguei até o final do Saco de Mamanguá, um dos meus locais favoritos da Baía da Ilha Grande e que é a representação dos fiordes escandinavos no Brasil, porém com uma belíssima vegetação tropical. Maravilhoso!

Eu poderia facilmente morar lá!

Ao deixar a proteção das ilhas e entrar no canal aberto para o mar, um vento de uns 15 nós apareceu, e subi imediatamente as velas.

Com uma orça forçada e fazendo 9 nós de velocidade, naveguei batendo em ondas curtas de uns 2 metros pela proa, que faziam com que minha proa muitas vezes ficasse sem água e, passado o ponto de equilíbrio do casco na onda, caísse com um estrondo de batida na água para, logo em seguida, subir novamente e repetir o movimento.

Fui assim até a Ponta de Juatinga onde, uma vez tendo aberto para bem longe da costa, girei o veleiro e entrei em um través gostoso… O vento na casa dos 15 nós e as ondas que vinham agora pela alheta de boreste faziam a velejada ser rápida e deliciosa, porém bastante desconfortável.

O veleiro atravessava com a onda que vinha da popa e fazia a embarcação empopar com perigo de dar um jibe-chinês, o que me obrigava a corrigir o rumo constantemente.

O vento na casa dos 15 nós e as ondas que vinham agora pela alheta de boreste faziam a velejada ser rápida e deliciosa, porém bastante desconfortável. Velejando só com a genoa.

Após alguns minutos desse perde-o-rumo-corrige-o-rumo, baixei a mestra e fiquei somente na genoa, o que estabilizou o veleiro e ajudou na manutenção do rumo. Então, liguei o piloto automático para poder preparar e comer algo.

Não preciso dizer que o veleiro ainda balançava muito e a solução prática de almoço naquela hora foi o bom e velho macarrão instantâneo, que gosto de comer cru, com uma água de coco gelada.

Esteira do veleiro no meio de um mar revolto, azulado cristalino, próximo a Ponta de Juatinga.

Levei umas duas horas para fazer o percurso, parte dele na genoa e no motor, o que estabilizava o veleiro, outra parte só no motor, quando cansava de tanto chacoalhar… Esse través entre a Ponta de Juatinga e a Ponta Cabeçuda, já em Ubatuba, na minha experiência, é sempre muito mexido – acredito que por causa do relevo da montanha, que forma um paredão o qual favorece o retorno das ondas, quando seu sentido está perpendicular a esse paredão, e assim elas se chocam com as novas ondas que se formam, criando ondas “descontroladas”.

Com um sol maravilhoso em um entardecer de tirar o folego, rodeado de um mar azulado cristalino e de montanhas exuberantes, que pareciam brilhar com a luz que em suas claras encostas refletiam, fui avançando em estado de êxtase, apesar do desconforto.
De qualquer maneira, após às 16 horas passei pela Ponta do Camburi e mudei um pouco o rumo, em direção ao centro do canal formado pela Ilha Comprida com a Ponta da Cruz na costa. Então o mar passou a vir pela popa e, com isso, o veleiro começou a “surfar” as ondas.

Nesse momento, eu já navegava no motor, pois, além de as ondas virem de popa, o vento de uns 10 nós, que também vinha da mesma direção, fazia com que meu veleiro, com a popa afunilada em formato de cunho, típica da classe IOR, atravessasse o tempo todo.

Com o motor, tudo ficava mais fácil, e o veleiro, sob controle, subia a popa e baixava a proa com a entrada da onda que avançava mais rápida que o veleiro, até a onda chegar a meia nau, e a popa abaixava e a proa se levantava até a onda passar a proa. Então, com a chegada de outra onda pela popa, o processo se repetia. Foi assim até eu chegar à Ponta da Cruz e entrar no abrigo das águas da Enseada de Picinguaba, onde as ondas diminuíram.

Amanhecer ancorado em Picinguaba. O mar acalmou depois de uma noite muito ruim!

Picinguaba

Ancorei em um espaço ao norte da baía, pois era o único lugar disponível, já que todos os barcos de pesca estavam em suas respectivas poitas. Embora essas poitas fossem bem mais abrigadas do que o local onde joguei ferro, eu ainda via os barcos de pesca subirem e descerem as ondas que entravam na baía. Mas eu estava cansado e achei que o mar acalmaria ao anoitecer, por isso tomei um banho rápido e fiz o jantar.

Não fui a terra porque o veleiro mexia tanto que fiquei apreensivo de que a âncora pudesse garrar e o veleiro ir parar na praia.

Besteira minha não ter levantado ferro e ido dormir em outro lugar. Em minha defesa, porém, vale dizer que a Enseada de Picinguaba, formada por um praião, tem muitas áreas rasas e descampadas, e não me agradava nada a ideia de deixar meu ancoradouro em uma baía que é sabidamente segura, para ancorar em uma praia. Se estava mexido e com ondas ali, certamente na praia estaria pior. Nem sempre podemos prever o que se vai passar, e sofremos as consequências.

Posso dizer que aquela foi uma das piores noites que já tive ancorado. Passei a noite toda levantando para ver se o veleiro não tinha garrado, pois, com os trancos das ondas, parecia a todo momento que ele havia se soltado… Quem veleja deve conhecer a sensação: o veleiro parece não estar preso, mas solto à deriva. É uma sensação como que de seu corpo estar “flutuando no ar”.

Todo o desconforto só foi passar lá pelas 5 horas da manhã, quando o vento e o mar finalmente acalmaram. Já muito aborrecido, levantei a âncora para ir tomar meu “chá da manhã” em outro lugar.

Tinha intenção de visitar a Praia da Fazenda, eleita uma das dez mais bonitas praias do Brasil. É uma praia preservada, sem construções, somente mata, com uma extensão de cerca de 3,5 quilômetros de areias claras, águas mornas, ondas suaves, completamente transparente e limpa.

Mas a noite provocou em mim um certo desespero por sair dali, e a praia, por mais paradisíaca que fosse, estava relacionada à baía onde havia passado mal a noite… Eu precisava ser um lugar especial para esquecer a noite que tive e, por acaso, um dos lugares mais especiais do mundo fica a apenas 2,5 milhas náuticas dali: a Ilha das Couves.

Ilha das Couves

Naveguei até a Ilha das Couves passando pela Ilha Comprida, que não possui nenhuma praia, e ancorei lá pelas 8 horas em frente à Praia de Fora, em um lugar bem protegido e próximo da praia.

A fome bateu e fiz meu tradicional chá da manhã, que devorei na mesa montada no cockpit, aproveitando o dia ensolarado, mas ainda fresco, e a vista das duas praias maravilhosas chamadas de Praia da Terra (ou das Couves), com cerca de 100 metros, e a Praia de Fora (ou do Japonês), maior que a primeira, com cerca de 250 metros.

Café da manhã no paraíso… Praia de Fora na Ilha das Couves e, abaixo, pescadores chegando.

Pouco depois, para completar a paisagem, começaram a chegar e a ancorar alguns barcos de pesca, com seus belos cascos e cores, complementando a magia do lugar.

Apenas para esclarecer a origem do nome da Ilha, ela não tem nada a ver com a verdura de mesmo nome e nem com as pedras na praia. O nome vem do sobrenome de um de seus antigos donos, motivo pelo qual era então chamada de Ilha dos Couves – com o tempo, apenas o “dos” acabou sendo modificado para “das”.

Dizem os esotéricos que o arquipélago tem uma energia diferente, uma força magnética, algo místico. Eu não acredito nisso… Acho que seu atrativo é simplesmente a beleza exuberante, tanto do mar quanto da Mata Atlântica em suas encostas, que faz com que quem chegue não queira mais ir embora.

E foi isso que eu fiz! Fiquei dois dias ancorado, aproveitando para nadar e descansar na praia de manhã cedo e no fim da tarde. Esses são os melhores horários para aproveitar o local, pois a partir das 10 horas a praia começa a lotar, mesmo em uma terça-feira, com gente chegando via barco a partir da Praia de Picinguaba, um percurso de 15 minutos contratado diretamente com a Associação dos Barqueiros e Pescadores de Picinguaba (ABPP). Também existem passeios de escuna ou lancha que partem da Praia da Almada, do Saco da Ribeira e da Praia do Itaguá, próximo ao centro de Ubatuba, que acabam lotando a Praia das Couves… O bom é que todo mundo vai embora lá pelas 17 horas e a praia fica novamente vazia.

As três fotos são diferentes vistas da Praia da Terra ou das Couves. Maravilhosa!

Passados os dois dias ali, bem cedinho, com um vento de 5 nós, decidi levantar a âncora e partir para outro local: a Ilha dos Porcos Pequena.

Foi uma bela velejada até a Ilha dos Porcos Pequena, também conhecida como Ilha da Almada, por estar localizada bem em frente a uma área conhecida como Comunidade da Almada.

Ilha dos Porcos Pequena, também conhecida como Ilha da Almada.

Essa ilha é particular, tem uma casa e, pelo que parece, o único morador é um caseiro; contudo, a praia pode ser livremente visitada e exibe uma paisagem incrível, com águas claras e transparentes de cor esmeralda. A ilha não é muito frequentada, pois sua praia é pequena.

Baixei as velas e liguei o motor em busca de um lugar para fundear, mas não me encantei pela ilha: apesar de rodeada pela beleza da Serra do Mar, é uma praia sem nenhum charme, que dá direto em um costão de pedra e vegetação, com a casa dos proprietários da ilha encravada no centro e uma passarela de concreto construída ao longo das pedras, que, para mim, tirou totalmente o atrativo do lugar.

A meu ver, havia um lugar mais bonito e abrigado para ancorar e passar a noite: a Ilha do Prumirim. Levantei novamente a vela mestra, desenrolei a genoa e, meio orçado, com 8 nós de vento, velejei gostoso até a nova ilha.

Ilha do Prumirim

Cheguei à Ilha do Prumirim lá pelas 11 horas e, depois de ancorar, decidi fazer o almoço antes de visitar a praia. No cardápio, pene ao molho de tomate fresco, especialidade da Zabetta, que é italiana – infelizmente, meu molho nem chegou perto do dela, mas a vista da praia e da ilha de Prumirim compensou.

Pene ao molho de tomate fresco, especialidade da Zabetta, que é italiana – infelizmente, meu molho nem chegou perto do dela, mas a vista da praia e da ilha de Prumirim compensou.

Velejar dá muita fome – comi uma tigela cheia, acompanhada de pão sueco e suco de pêssego.

Sim, uma tigela. A mesma que uso sempre que viajo sozinho com meu veleiro, pois é muito prática por ser grande e funda, coberta por uma camada de esmalte branco, que esconde o metal. É perfeita, pois, quando o veleiro está adernado, a comida não cai.

Terminado o almoço e com tudo lavado, chequei novamente se a âncora havia unhado e, tudo safo, coloquei o bote na água e instalei o motor de popa. Esta é uma das coisas chatas de se navegar em águas brasileiras: não dá para deixar o bote na água durante a noite, pois as chances de roubo são grandes. Então, no fim do dia, é preciso subir e amarrar o bote no deque e prender o motor de popa com cadeado ao seu suporte. Pena.

A Ilha do Prumirim não perde nada em beleza para a vizinha mais famosa, a Ilha das Couves.

Também, naquele dia, não tinha tanta gente. Com mar transparente, longa faixa de areia branquinha, fácil acesso e pedras que formam belos cenários para fotos, principalmente com o veleiro ao fundo, a Ilha do Prumirim é visita imperdível para quem gosta de belas praias.

O mar é calmo e raso, parecendo convidar a um mergulho.

Nas duas fotos destas páginas, a praia de águas esmeralda da Ilha do Prumirim.

É uma das praias mais bonitas que já vi e, depois de caminhar, nadar e me sentar em um tronco embaixo das árvores para absorver o cenário, voltei ao veleiro para descansar.

Com um movimento suave e um leve “splash-splash” da água batendo no casco, relaxei e acho que adormeci… Durante o sono, lembrei que não havia checado a previsão meteorológica do dia pela manhã. Levantei assustado e peguei meu celular. Acessei o WindGuru. Não havia nenhuma previsão de frentes que prejudicassem minha ancoragem no dia; contudo, para o dia seguinte, quinta-feira, estava prevista a entrada de uma frente fria com ventos de 30 nós, por volta das 21 h 30. Com ventos de oeste, os únicos lugares abrigados seriam a Ilha Anchieta, a Praia do Flamengo e o Saco da Ribeira.

A orla da Praia de Itaguá, protegida pelo Morro da Ponta Grossa, em frente da cidade de Ubatuba, também seria uma opção, não fosse pelo problema de calado: toda a orla da Enseada de Ubatuba é muito rasa, somente tendo uma profundidade aceitável de uns 5 metros a partir de mais de 0,6 milha náutica da praia.

Como meu destino era o Saco da Ribeira, decidi que no dia seguinte velejaria direto para minha poita na Praia da Ribeira, que fica no Saco da Ribeira.

Voltei a dormir e acordei lá pelas 17 horas. Fui dar uma nova volta na praia, agora vazia. Delícia.

Areia extremamente branca e limpa e, com exceção de um grande tronco de árvore que jazia na faixa de ondas da praia, provavelmente trazido pelo mar, não havia nada. Nem uma sujeira! Fiquei encantado.

A rede e a canoa caiçara do pescador, dono do bar da ilha.

Na ilha há um pequeno bar escondido na mata, propriedade de uma família que mora no lugar e que serve basicamente porções de peixes, lulas, camarões, fritas, pastéis e bebidas.

O casebre de pau-a-pique pintado de verde, bem rústico, exibe em sua parede duas setas pintadas em preto: uma indicando o bar e a outra, a cozinha – não sei para quê, se a casa deve ter no máximo 5 metros de comprimento… Pensei em comer ali, mas como tinha muita comida no veleiro, decidi cozinhar meu próprio jantar em vez de comer no “restaurante” da ilha. Além disso, parecia fechado.

Balança amarrada em uma árvore “Chapéu de Sol” (amendoeira-da-praia).

Então esquentei uma carne de panela pronta, no saquinho que comprei no supermercado, acompanhada de arroz, também de saquinho, e feijão, este de caixinha, e adicionei ao prato final um pouco de batata palha. Para acompanhar esse “manjar”, uma boa garrafa de Carménère.

Após jantar, lavar e organizar tudo, sentei-me no deque e fiquei bebericando meu vinho enquanto olhava a lua, minguante na data, e os contornos da ilha que iam perdendo a definição com o anoitecer, enquanto a costa ia ganhando luz e progressivamente parecendo bem próxima de onde eu estava.

Nessa noite, a proximidade de terra – não a da ilha, mas a do continente – me incomodou. A praia do Prumirim, na costa de Ubatuba, fica a apenas a 800 metros da ilha, ou seja, seria possível chegar ao veleiro até mesmo nadando. Por esse motivo, não acendi nenhuma luz. Nem a de tope. Sei que isso é errado, contudo a probabilidade de alguma embarcação passar por ali à noite era remota, e eu optei pela falsa sensação de segurança que a penumbra e a escuridão me davam.

É nessas horas que a falta de uma arma a bordo se faz sentir: estamos indefesos e as pessoas “de mal” sabem disso.

Subi o bote e o amarrei no deque, colocando o motor no seu suporte com cadeado.

Obviamente, com essa preocupação em mente, não dormi bem. Sei que a região de Ubatuba é tranquila em termos de segurança, mas, mesmo assim, eu acordava com qualquer movimento mais brusco ou barulho no veleiro.

Como estava próximo a uma praia, as ondulações são um pouco mais fortes, nada com que eu não estivesse acostumado. Mas o subconsciente, durante o sono, não processa as informações de maneira racional, e era inevitável acordar de supetão e ir até a gaiuta com uma faca na mão para ver se estava tudo bem.

Acordei desse sono “quebrado” lá pelas 6 horas da manhã e, saindo pela gaiuta, pude ver um belíssimo amanhecer. O suor da noite anterior me incomodava e, olhando em volta sem ver ninguém, tirei o pijama (sim, durmo de pijama no veleiro… mais confortável) e, pelado, depois de baixar a escada de emergência que tenho na popa, me joguei na água! Estava gelada, mas após alguns momentos na água meu corpo se acostumou e comecei a nadar em torno do veleiro, inserido naquele belo cenário formado por um mar ainda azul escuro, que refletia as diferentes tonalidades de amarelo, laranja e vermelho do nascer do sol.

Esses momentos são simplesmente maravilhosos!

Pensar que acontecem praticamente todos os dias e que, morando na cidade, não temos como vivê-los. Só esses minutos já fazem valer a pena possuir e curtir um veleiro.

Saí da água e tive de me secar com uma toalha, pois os leves raios do sol não eram capazes de me esquentar. Ainda nu, fiz ovos mexidos com pimentão, cebola e tomate, que comi direto entre duas fatias de pão, acompanhados de chá. Tendo arrumado tudo e vestido sunga e camiseta, chequei novamente a âncora, baixei o bote na água e, só com os remos, fui até a praia. Belo exercício.

Melhor ainda foi andar pela praia deserta, já sentindo o calor do sol que despontava no horizonte. Posso dizer que, naquele momento, experimentava quase a felicidade máxima, incompleta apenas pelo fato de meu filho e minha esposa não estarem ali comigo. Se não estavam fisicamente, sem dúvida, caminhamos e nadamos juntos em pensamento.

Voltei novamente remando ao veleiro, e comecei a sentir fome. Desta vez, fiz um café na “mokinha” e peguei um pacote de bolachas goiabinha que comi sentado no deque. Sem pressa. Sem estresse. Sem preocupação. Só curtindo o momento.

Não havia vento e a previsão do dia, tirando a noite em que entraria a “porrada” já prevista, também era de ventos fracos, 2 a 3 nós, ou seja, as aproximadamente 12 milhas náuticas de onde estava até minha poita no Saco da Ribeira seriam de navegação a motor.

Eu não estava com nenhuma pressa de sair no motor e, como todo bom velejador, ainda tinha a esperança de que a previsão estivesse errada e de que ainda pudesse velejar até o Saco da Ribeira.

Então decidi esperar até depois do almoço para partir. Se mesmo assim ainda não houvesse vento, talvez eu esperasse até depois de uma cochilada pós-almoço para partir… Basicamente, o que eu queria mesmo era velejar!

Eram 9 horas da manhã. Como eu tinha muito tempo e nada para fazer, decidi realizar uma revisão nas velas. Como todo velejador de cruzeiro quando não está velejando, tenho sempre a genoa enrolada e a mestra dobrada sobre a retranca. Passam a semana inteira assim, somente abrindo nos finais de semana em que velejo.

Então abri a genoa e a baixei ao deque, revisando todas as costuras e procurando por desgaste ou pequenos rasgos. Não encontrei nada e, depois de lubrificar o trilho do perfil do enrolador até onde alcançava com silicone spray e realizar a mesma operação ao longo de todo o cabo de reforço da testa da genoa, subi e voltei a enrolar a genoa.

A vela mestra é sempre mais complicada de inspecionar pois, no meu caso, a testa está presa por olhais aos vários carrinhos roletados acoplados ao trilho preso no perfil do mastro. Soltar a vela dos carrinhos dá muito trabalho e, para inspecionar, como a vela abaixada está apoiada sobre a retranca em camadas em zigue-zague, é preciso ir abrindo e levantando as “camadas” uma a uma.

Primeiro um lado e depois do outro. Como minha mestra possui um sistema no qual a valuma é presa ao amantilho por cabos presos a olhais de metal que passam pelo amantilho para que a vela desça esticada em vez de usar os lazy-jacks, fica mais fácil inspecionar, pois a vela está sempre esticada em vez de cair no deque. A vela mestra, apesar de um pouco suja e amarelada, estava também em perfeito estado. Fiz uma anotação mental para futuramente tirar as duas velas e levar para lavar.

Feito isso, bateram 11 h 30. Contente por ter cumprido essa faina que é muito chata, mas necessária, fui fazer meu almoço.
Depois do almoço, ainda sem vento, tirei a soneca planejada e, ao acordar, surpresa! Não havia vento, como previsto.

Sem opções, liguei o motor, levantei a âncora e parti.

Não tenho nada a comentar sobre a viagem de 12 milhas náuticas a motor além de que, entre a Ponta Grossa e a Ponta das Toninhas, limites em cada extremo da Praia das Toninhas, o mar começou a vir pelo través com ondas de uns 2 metros, o que tornou esse final de viagem desconfortável. Foi só entrar na proteção da Ilha Anchieta que o mar se acalmou e a navegada foi tranquila até minha poita na belíssima Prainha da Ribeira.

Apenas um aparte sobre a Praia das Toninhas: na minha opinião, é uma das praias mais “muvuquentas” de Ubatuba, por causa da quantidade de prédios construídos na sua orla, congregando uma grande quantidade de turistas no final de semana. Passar de carro por ali é desesperador, devido à quantidade de pedestres tentando atravessar a rodovia que fica entre os prédios e a praia, e à quantidade de carros tentando também cruzar a mesma via. Uma confusão total!

Passada a Ilha da Anchieta, já dá para ver o Saco da Ribeira. Os pinheiros no morro da esquerda, para quem conhece, já serve para determinar onde você está.

Saco da Ribeira

Já na poita, arrumei o veleiro para receber o vento de 30 nós previsto para aquela noite. Não é um vento exageradamente forte, mas sempre é bom prevenir, pois não se sabe de quantos nós serão as rajadas.

O vento ficou em 20 nós, com 22 nós nas rajadas.

Ao final, o vento ficou em 20 nós, com 22 nós nas rajadas. Tranquilo, apesar de que dava para ver as velas de alguns veleiros no entorno, que ou se soltaram ou se desenrolaram, batendo forte. Também vi algumas coisas que não estavam bem presas ao deque de alguns veleiros voarem, como boias salva-vidas e um painel solar, que levantou voo, caiu na água e afundou. Mais um lixo no fundo do Saco da Ribeira. Tranquilo por estar na minha poita, lá pelas 22 horas deitei na cama e “apaguei”, dormindo como um bebê.

No dia seguinte, depois do café da manhã, chamei a Aumar pelo rádio e pedi para que viessem me buscar. Queria fazer o passeio a pé desde o píer até a Praia das Sete Fontes e voltar, parando para almoçar no restaurante que fica na Praia do Flamengo. É um passeio que, se sua condição física é boa, vale a pena fazer. Não vou descrever aqui a maravilha que é esse passeio. Você vai ter de vir ao Saco da Ribeira e fazê-lo para saber. Só adianto: vale a pena!

Acima, vista da minha poita na Ribeirinha e, abaixo, Praia das Sete Fontes.

Ao retornar ao veleiro, o vento que estava previsto entrar lá pelas 14 horas já estava soprando e, nem bem preparei tudo para velejar, soltei as amarras da poita para passar uma bela tarde velejando, com 10 nós de vento, em torno da Ilha Anchieta.

Voltei para a poita na vela já passadas as 18 horas e, apoitado, liguei o motor para aquecer a água, tomar um banho e então jantar.

Arrumei e limpei o veleiro, pois Zabetta e Maxy chegariam no dia seguinte, sábado, para passar o fim de semana velejando comigo.

Minha viagem solo de Paraty ao Saco da Ribeira havia terminado.

Agora era dormir para curtir o final de semana no veleiro junto da minha família, retornando a São Paulo no domingo à noite.

Foi maravilhoso tê-los comigo! Outro dia conto em detalhes como foi…

Curtindo o pôr-do-sol na minha poita na Ribeirinha – Saco da Ribeira.

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor SailBrasil… nessa ordem!

SailBrasil lança novo aplicativo: ServiçosNáuticos.com

A idéia é muito simples:

Disponibilizar um aplicativo com o qual os proprietários de embarcações possam encontrar, próximo ao local do seu barco, em qualquer lugar do Brasil, profissionais para realizar manutenções e serviços em sua embarcação… Simples assim!

Com a ServiçosNáuticos.com, você encontra informações atualizadas de contato dos prestadores de serviço quando você mais precisa!

Clique aqui e comece a usar! … Para o proprietário de embarcação é Gratuíto!

Anúncios

Comentários

Um comentário em “Viagem de Paraty ao Saco da Ribeira pernoitando pelo caminho”

Deixe uma resposta