Prestador de serviço: amigo ou inimigo? Como evitar preocupações

Quem conhece o mercado náutico sabe que encontrar um bom prestador de serviço para realizar uma manutenção ou um reparo em sua embarcação – seja um veleiro, lancha ou outro – pode ser difícil.

Contudo vários proprietários de embarcações com os quais conversei me garantiram exatamente o contrário: é muito fácil…

O segredo, segundo eles, está na reputação dos prestadores de serviço recomendados por amigos, outros prestadores de serviço e marinheiros (o famoso boca a boca). “Tanto faz com quem você está lidando, pode ser uma grande empresa ou um prestador pessoa física. Se vier com recomendação favorável de alguém conhecido, você pode confiar!”, afirmou um proprietário de uma lancha de 48 pés no Guarujá.

Reforma de quilha danificada por infiltração de água. – Foto: Max Gorissen

Mas a verdade é que nem sempre é assim.

Apesar de existirem excelentes profissionais que podem ser indicados por amigos, muitas vezes o que temos é mais um problema para resolver.

Uma pessoa que pediu para não ser identificada nos contou uma experiência: após um passeio pelo Canal de Bertioga, sua lancha de 53 pés começou a superaquecer, ao chegar à marina.

Um mecânico “recomendado” foi chamado com urgência.

Como estava à disposição em uma marina próxima, veio imediatamente e, após alguns minutos realizando testes no compartimento do motor, informou que o problema estava nas bombas de água dos motores.

Também informou que tinha duas bombas disponíveis para esses motores em sua oficina, e poderia instalar na manhã seguinte.

Na manhã seguinte, após algumas horas trabalhando no compartimento do motor, saiu de lá dizendo que tudo funcionava bem.

O proprietário testou o motor e ficou feliz ao ver que tudo estava funcionando, e também muito orgulhoso com a menção do mecânico a como seus motores estavam bons.

O prestador apresentou uma nota fiscal de duas bombas mais o custo de seu serviço, incluindo o valor adicional de “taxa de final de semana”, mostrou as bombas com problema e pediu para o proprietário recomendar seu serviço aos amigos.

Retirada de um mastro de carbono para manutenção devido à delaminação em volta das cruzetas. – Foto: Max Gorissen

Algum tempo depois, o mesmo problema se repetiu.

Foi quando o proprietário descobriu o que realmente havia acontecido: durante seu passeio no Canal de Bertioga, na maré baixa, suas hélices provocaram a suspensão do fundo de lodo e areia. Ao acelerar, os rotores da bomba de água sugavam grande quantidade de lodo e areia para dentro dos filtros, o que provocou o entupimento das mangueiras e dos filtros… Devido ao entupimento, a lancha começou a superaquecer. Resultado: tudo o que o mecânico fez foi desobstruir a mangueira e limpar os filtros… E as bombas apresentadas? Refugo: tinham sido retiradas de outra embarcação já consertada.

Estaleiro no Guarujá com barcos de pesca afundados no canal. – Foto: Max Gorissen

Com base nesse relato, como saber se devemos ou não confiar ou em um prestador de serviço?

Infelizmente, no Brasil não existem órgãos certificadores, como o American Boat & Yacht Council (abycinc.org) ou a American Boat Builders & Repairers Association (abbra.org), que acompanham e certificam as empresas ou prestadores pessoa física com base em vistorias e programas de educação e treinamento.

Por aqui, mesmo com a profissionalização que vem ocorrendo nos últimos anos, a “certificação” de um prestador de serviço ainda é dada pelos conhecidos ou pela “comunidade náutica local”, no “boca a boca”, segundo sua boa ou má reputação.

Finalizando a montagem do cabo em um perfil Tuff Luff – Foto: Max Gorissen

Não me entendam mal. Todos sabem e reconhecem que há vários prestadores de serviço muito bons e competentes, contudo, com a complexidade dos equipamentos e sistemas instalados nas embarcações modernas, ficam cada vez mais claras as vantagens de se lidar com empresas de assistência técnica autorizada, que possuem equipamentos e acompanhamento, treinamento e certificação das próprias fabricantes.

E o motivo dessa precaução é muito simples: vai desde o fornecimento e a disponibilidade de peças originais de fábrica até a responsabilidade pela correta manutenção realizada e pela reposição, reparo ou reembolso caso algum problema venha a ocorrer.

Isso não quer dizer que problemas como o relatado acima não possam vir a ocorrer, mas as chances são menores.

Para ajudar, aqui vão algumas dicas para identificar prestadores que podem gerar problemas futuros: falta de firma registrada, falta de alvará de funcionamento, ausência de um local físico adequado para a realização do serviço (oficina), funcionários sem uniforme, não ter web site, nunca ter feito propaganda ou anúncio em revistas ou jornais, falta de veículo devidamente identificado com o nome da empresa, falta de seguro de responsabilidade civil, entre outros, são alguns dos sinais de alerta.

Muitas vezes, a aparência das instalações do prestador de serviço pode ser um forte indício de que ele não oferece a qualidade desejada. Mas, como a maioria dos proprietários de embarcações sequer visitam as oficinas para saber mais a seu respeito, só descobrem quando é tarde.

No pior dos casos, é isto que acontece quando algo não foi bem feito. – Foto: Max Gorissen

Visitar as instalações do profissional, ou conversar com alguém que visitou, é fundamental. Verificar se o local é limpo e organizado, com pessoal uniformizado ou em trajes adequados, pois esses podem ser indícios do tipo de serviço que você irá receber.

Se uma empresa está preocupada com o modo como se apresenta ao público, é provável que realize seus serviços e conduza seus negócios da mesma maneira.

Faça uma experiência. Visite as instalações de seu prestador de serviço e observe, além do que já foi mencionado: se o ambiente é coberto (portanto o clima não influencia a realização do serviço); se as ferramentas, maquinários e recursos parecem adequados; como estão os reparos e as manutenções em andamento. Assim, conclua se eles têm capacidade e habilidade para realizar o trabalho que você deseja.

Tenha cuidado se, durante a visita, tiver a sensação de que, ao contratar o prestador, sua embarcação não ficará pronta dentro do prazo ou com a qualidade estipulada. Um prestador de serviço respeitável deve dar a sensação de que irá atender a diligência do proprietário como se fosse um contrato de fidelidade.

Contudo, mesmo usando empresas especializadas, outros problemas podem ocorrer. Por exemplo, quando várias empresas trabalham simultaneamente em uma mesma embarcação e, diante de um problema, cada prestador aponta o outro como responsável. Então, o que fazer?

A solução pode estar em ter uma única empresa (ou um profissional) para gerenciar e administrar todo o serviço, inclusive os vários prestadores de serviço envolvidos em uma construção, manutenção ou reforma. Se você tem um único responsável por gerenciar todo o trabalho, então tem alguém a quem cobrar.

Obras vivas do veleiro protegidas por plástico para evitar do pó contaminar todo o entorno. Profissionais que se dão ao trabalho e chegam a este nível de detalhe, certamente, farão um bom trabalho. – Foto: Max Gorissen

Outro problema comum é a falta de orçamentos antes do início de um reparo. Quando muito, o que se consegue é uma estimativa do prestador, que geralmente já iniciou o serviço. Desse modo, outros problemas podem vir à tona, e tudo o que o proprietário pode fazer é “assinar um cheque em branco” se quiser ter sua embarcação funcionando o mais rápido possível.

Se o proprietário não pode estar presente com certa frequência ou durante o reparo, o mais adequado é ter uma pessoa de confiança que possa acompanhar e, caso necessário, interromper o trabalho, analisar a situação e informar o proprietário das alternativas.

O ideal é que cada proprietário de embarcação possa realizar o acompanhamento do serviço. Se isso não for possível, utilize uma assistência técnica autorizada ou tenha uma pessoa ou empresa independente e especializada para prestar assessoria e suporte, identificando os melhores prestadores de serviço, conseguindo orçamentos antes do início do trabalho, acompanhando os reparos e realizando a gestão dos custos e pagamentos.

Mas se, mesmo assim, o mecânico que você escolheu foi aquele recomendado pelo famoso método “boca a boca”, pelo menos siga as dicas acima e conheça pessoalmente (não por telefone, WhatsApp ou por intermédio de outra pessoa) o prestador de serviço, de preferência em suas próprias instalações… Isso pode evitar muita dor de cabeça!

Espero ter ajudado!

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador, escritor e Editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem!

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