Anúncios

Nova geração de velejadores sonha com veleiros de sua juventude

Outro dia, fui incluído em uma discussão, numa dessas mídias sociais, em que várias pessoas relembravam saudosamente como era bom velejar na época dos veleiros de madeira, e lamentavam como os novos veleiros – que chamavam de “plástico” (em referência a materiais construtivos como a fibra de vidro ou de carbono) – não são tão marinheiros e gostosos de velejar.

Foto em destaque: Veleiro Cairu III (no ICRJ) fabricado em madeira. Sem dúvida um Clássico. – Foto: Max Gorissen

Além disso, diziam que os novos velejadores, com todos os seus eletrônicos (GPS, profundímetro, cartas digitais, piloto automático etc.), também não eram marinheiros de verdade, pois sem todos esses instrumentos não conseguiriam fazer uma Santos-Rio.

No meio da discussão, uma pessoa que também velejou naquela época dos veleiros de madeira e agora velejava em um veleiro de fibra de vidro entrou argumentando que os veleiros de hoje são tão bons e até melhor do que os antigos.

Não preciso dizer que havia sido “declarada a guerra” e que os debatedores foram ficando com os ânimos acirrados.

Ao final, lendo os posts, nenhuma conclusão havia sido alcançada. Mas ficou claro, para alguém que não defende nem um nem outro tipo de veleiro, que ambos os lados tinham argumentos que faziam sentido.

É a mesma coisa nas discussões sobre os carros clássicos, a fantástica vida dos “anos dourados”, a arquitetura de antigamente, a qualidade superior dos materiais do passado, entre tantas outras: geralmente existe a ilusão de que elementos próprios a uma geração anterior ou a uma fase de infância dos interlocutores sejam melhores do que os atuais.

Sem dúvida, frequentemente reconhecemos o “valor” (no sentido amplo da palavra) de um objeto em particular, seja um veleiro, lancha, carro, joia, relógio ou objeto de decoração, muito tempo depois de se encerrarem sua produção e sua disponibilidade. É, normalmente, quando associamos ao objeto a palavra “clássico”.

Eu não diria que existe uma mudança no conceito de “carros clássicos”, “barcos clássicos”, “anos dourados” etc., apenas uma constante evolução no gosto das pessoas por coisas do passado que estão, geralmente, relacionadas a seus sonhos, desejos e vivências durante sua infância ou juventude.

É um fato a expansão do mercado de veleiros mais novos (ou menos antigos), aqueles fabricados entre os anos 1970 e 1990, considerados hoje como antigos, ou até mesmo clássicos.

Fast 345 fabricado nos anos 80… ainda não é considerado um Clássico. – Foto: Max Gorissen

Entendendo a diferença entre veleiro antigo e clássico

Apenas para conceituar e contextualizar, no Brasil, os barcos classificados como Clássicos, atendendo à definição adotada pela ABVClass, da Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO), são divididos em três grupos, inspirados em várias regras utilizadas pelos grupos de Veleiros Clássicos (aplicam-se somente a veleiros monocasco, cujo principal meio de propulsão é a vela) em várias partes do mundo, da seguinte maneira:

  • Barcos de Época
  • Barcos Clássicos
  • Spirit of Tradition

Barcos de Época

São aqueles com casco de madeira ou metal e lançados até 31 de dezembro de 1949. Os barcos cujos projetos foram elaborados entre 1º de janeiro de 1946 e 31 de dezembro de 1949, e que tenham sido lançados antes de 31 de dezembro de 1952, podem ser classificados como Barcos de Época, após a aprovação da Comissão Técnica da ABVClass/ABVO. Barcos

Réplica de Época são aqueles construídos com base em projetos elaborados até 31 de dezembro de 1949, utilizando-se métodos, materiais e técnicas de construção idênticos aos usados na época. Para sua classificação, eles são analisados individualmente pela Comissão Técnica da ABVClass/ABVO. As réplicas genuínas de Barcos de Época podem competir no grupo dos Barcos de Época.

Classe Guanabara construído nos anos 1940 é um Barco de Época. – Foto: Max Gorissen

Barcos Clássicos

São aqueles com casco construído em madeira ou metal, obedecendo aos planos originais, e lançados entre 1º de janeiro de 1950 e 31 de dezembro de 1980.

No Brasil, barcos de fibra de vidro lançados nesse período podem ser enquadrados como Clássicos após aprovação da Comissão Técnica da ABVClass/ABVO.

Barcos construídos em série não são admitidos como Barcos Clássicos, a menos que tenham sido construídos por um único estaleiro, sob licença exclusiva, com só um jogo de moldes ou formas, e por isso intercambiáveis de um exemplar para outro.

Barcos lançados nesse mesmo período, mas construídos com madeira laminada, alumínio, sanduíche de balsa e/ou espuma de PVC e Strip Planking, pelo método West System.

Anúncios

Barcos Réplica de Clássicos são aqueles construídos com base em projetos elaborados até 31 de dezembro de 1980, utilizando-se métodos, materiais e técnicas de construção idênticos aos da época. Esses barcos são analisados individualmente pela Comissão Técnica da ABVClass/ABVO, para sua classificação.

As réplicas genuínas de barcos Clássicos podem competir no grupo dos Barcos Clássicos.

Veleiro Classe Brasil de nome Malagô, considerado um Clássico. – Foto: Max Gorissen

Spirit of Tradition

Uma categoria que está nascendo é a Spirit of Tradition, que reúne barcos com aspecto e estilo fiel aos projetos tradicionais dos barcos Clássicos ou de Época, construídos com materiais modernos, e com projetos avançados nas obras vivas (abaixo da linha d’água).

Essas definições são as regras geralmente utilizadas pelos grupos de Veleiros Clássicos em várias partes do mundo para permitir que os diferentes barcos de Época, Clássicos e Spirit of Tradition participem de uma mesma regata com as compensações (rating) adequadas.

Com base dessa descrição, qualquer veleiro construído com base em novos projetos/design e a partir dos anos 1980 são considerados “antigos”.

Veleiro Eagle 44 com moderno projeto nas obras vivas. Spirit of Tradition? – Foto: Max Gorissen

Um sonho de infância

Se analisarmos bem, a evolução (equipamento mais moderno) é um processo normal em qualquer hobby.

Fazendo uma associação com os carros antigos, o automóvel que deverá ser o mais desejado por colecionadores em 2050 provavelmente ainda não foi produzido.

Você imagina como será esse carro? Eu também não, mas, qualquer que seja sua marca ou modelo, ele deverá ter uma aparência agradável (não podemos dizer que será bonito, pois beleza é algo muito pessoal), apresentar inovações mecânicas ou tecnológicas, e ser produzido em uma série limitada (apesar de o conceito de série limitada hoje diferir muito da concepção de alguns anos atrás).

Apenas para dar um exemplo, meu filho de 17 anos, bem como, acredito, a maioria dos filhos de quem está lendo este artigo, é fanático pelas novas Bugatti, Ferrari, McLaren e Jaguar, entre outros.

Quando as pessoas começaram a colecionar carros no final dos anos 1940, os carros dos anos 1930 eram considerados apenas como carros usados, alguns nem com 10 anos de produção.

Na década de 1940, os carros chamados de clássicos eram os dos anos 1920.

Na década de 1930, eram os de 1910; nos anos 1920, eram os de 1900 – e assim por diante.

Se viajarmos no tempo até os anos 1980, automóveis como o muscle car estadunidense dos anos 1960 a 1970 (Camaro, Mustang, Cobra, Dodge, Thunderbird, Corvette, Bel Air, Pontiac GTO, Plymouth Cuda, e os produzidos no Brasil, como Dodge Charger, Maverick e Opala, entre outros) também eram apenas carros usados. Contudo, para os anos 2000, esses carros são autênticos antigos clássicos, objetos de desejo e adoração.

Isso não é diferente quando se pensa em veleiros ou outros objetos de desejo.

Jaguar XJ 6 – 1974… Sonho de infância. – Foto: Max Gorissen

Em geral, cada nova geração almeja comprar carros – ainda recorrendo ao exemplo automobilístico – que não podia adquirir em sua juventude ou adolescência.

Assim, a pessoa que começa a se estabilizar, fazer sucesso ou ter os recursos para comprar um carro antigo, nos anos 1950, provavelmente procura um exemplar dos anos 1910 ou 1920; já aquela que está nessa situação nos anos 2000 almeja comprar um muscle car estadunidense ou um carro europeu (Jaguar, Alfa Romeo, Mercedes Benz, Ferrari etc.) dos anos 1960 a 1980.

É o mesmo com veleiros.

No meu caso, meu primeiro veleiro foi um HC-16 “bem” usado, chamado Bad Max, que encontrei abandonado em um terreno na represa Guarapiranga, de cujo ano nem me lembro. O segundo foi um Mariner Ranger 26 chamado Pitula e que rebatizei como ORM, um Quarter Tonner 1983 da classe IOR, também usado. Ele era muito parecido com o veleiro retratado em um pôster que ficou anos pendurado em meu quarto, quando eu tinha por volta de 17 anos (L’Esprit d’équipe, um veleiro de alumínio, modelo Export 33, que correu e venceu a Whitbread Round the World Race, hoje Volvo Ocean Race, de 1985-1986). Sem me dar conta, pintei ORM da mesma cor do veleiro no pôster…

Veleio Gaia 1, um FyC 40 1987. – Foto: Max Gorissen

Hoje, tenho o veleiro dos meus sonhos, que levei 10 anos para encontrar e comprar: um Onne Tonner, classe IOR, design German Frers, fabricado na Argentina, no estaleiro do designer, modelo FyC 40, ano de 1987. Tendo chamado Navy Blue e Alucinante X, hoje ele está batizado como Gaia 1.

Em minha opinião, querer ter algo que o marcou na sua infância é muito bom, pois o que mantém e estimula o hobby da vela e o mercado de veleiros antigos é a constante evolução nos gostos das pessoas.

Poderíamos dizer que toda nova geração acrescenta um novo nível de desejo ao nosso hobby.

Meu sonho de infância, que culminou na compra do FyC 40 de 1987, foi o veleiro Flyer II, design de German Frers de 1981 e vencedor da Whitbread Round the World Race de 1981-1982, comandado por Cornelis van Rietschoten. Contudo, se eu pudesse, teria também o veleiro J Class – Shamrock V, projeto de Charles Ernest Nicholson (construído a pedido de Sir Thomas Lipton para a 5ª America’s Cup, de 1930), ou um veleiro da Classe Dragon, desenhado por Johan Anker em 1929 para o Royal Gothenburg Yacht Club da Suécia, que já foi classe olímpica e ainda hoje é uma classe muito popular nos países escandinavos.

Também gosto de veleiros modernos, e aprecio muito sua rapidez, espaço, conforto e navegação, apesar de não gostar muito das popas cortadas e retas.

Porém, o que mais gosto é do “antigo” design dos veleiros da classe IOR… e do Jaguar XJ6 Série II de 1974.

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem!

Anúncios
About Max Gorissen
Sailor, writer and editor, in that order...

Deixe uma resposta

Aumentar fonte
Contraste
UA-141530851-1
%d blogueiros gostam disto: