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Humor: É certo que, talvez, tenha acontecido assim… Nº 1

Estou lançando hoje uma nova coluna de “humor”, com relatos sobre náutica que “certamente”, se não estou totalmente enganado, foi o que realmente aconteceu... espero que se divirta com situações inusitadas da náutica brasileira, descritas em textos curtos, como se estivéssemos “bate-um-papo” no bar… e aqui vai o primeiro;

Você está navegando, mar agitado, mas a brisa está boa e o veleiro desliza adernado… entra rajada, você orça um pouco para aproveitar a rajada… ele aderna mais um pouco… você sente aquela sensação fantástica da aceleração… tudo está sob seu controle… você pede para um tripulante adriçar um pouco mais a genoa pois sente que pode melhorar o ângulo de entrada do vento na vela… o draft da genoa muda para frente… a valuma fecha e melhora o fluxo de ar que passa pelo canal formado com a mestra… você vê que as birutinhas (ou lãzinhas) da genoa ainda não estão paralelas… arriba um pouco… o veleiro avança perfeito… o leme está leve… tudo parece perfeitamente ajustado… a vida é bela… então, de repente… bang! a genoa começa a planejar… uma rápida olhada pelo deck e pelos equipamentos relacionados com a genoa mostram que a roldana do carrinho soltou… ela bate junto com a escota, agora folgada… um tripulante avalia o problema e diz que o pino e a cupilha se foram… não dá mais para prender… você pensa rápido… colocar outro pino e cupilha vai ser complicado… hora de pegar a patesca e montar um barberhaul de emergência para estabilizar a genoa e continuar a velejar… alguém tem de buscar a patesca que está guardada no paiol embaixo do sofá de estibordo… você dá um grito para um tripulante buscar a patesca… xinga o tripulante quando ele pergunta fazendo cara de total ignorância: “Pegar o quê?”… pede para alguém assumir o leme… vai pegar você mesmo… se arremessa e desce as escadas… então, tira o acolchoado do sofá e joga num canto… tira a tampa do paiol e joga junto com o acolchoado… olha e vê que tem uma sacola cheia de pirotécnicos em cima… pensa “Não me livrei destes na semana passada, quando trouxe os novos?”… não dá tempo de entender por que ainda estão ali… tira a sacola e joga por cima do acolchoado e da tampa… tem uma caixa de plástico no fundo… o que será que tem dentro? não importa… a patesca não vai estar dentro da caixa… você tira a caixa e coloca por cima do acolchoado, da tampa, da sacola… volta a se concentrar no paiol… no fundo, um pouco de água já marrom que se acumulou… vê umas roldanas na água… estão marrons também… mas que m$#%@!… ok… resolvo isso mais tarde… vai tirando as roldanas e colocando em cima do acolchoado, da tampa, da sacola, da caixa… não acha a patesca… alguém grita do convés… “Achou?”… “Não!”, você responde já sem paciência… olha para o outro paiol e também tira a tampa… apoia a tampa em cima do acolchoado, da outra tampa, da sacola, da caixa e de vários moitões molhados e marrons… que pingam água no acolchoado… @#$%#@… olha dentro do novo paiol… dentro, no topo, dois coletes salva vidas Classe I… amassados… com umas manchinhas pretas de mofo… você tira os salva-vidas e joga por cima da pilha formada pelo acolchoado, tampa, sacola, caixa, moitões, a outra tampa, pois a pilha ficou alta demais e não dá mais para colocar os coletes salva vidas em cima… olha para a barreira que se formou entre você e a escada para o convés… pensa “Por que coloquei tudo isso junto?”… não importa, o importante é encontrar a patesca… olha dentro do paiol… a buja de tempestade que rasgou mês passado está ali… ainda rasgada… rápida anotação mental: levar a buja de tempestade para arrumar urgente!… tira a buja e joga do seu outro lado… dentro do paiol não tem mais nada a não ser um pouco da água do outro paiol que se interliga a este… você olha para a buja… @#$#%#… o lado de baixo da buja, que agora está por cima, está todo molhado e amarronzado… escorre água no acolchoado do sofá de boreste, onde você apoiou a buja… mais um @#$#¨&¨%&*$%, um pouco mais enfático desta vez… desiste… meio sem jeito, pula a pilha de coisas caindo torto com o balançar do veleiro… se segura na antepara de trás do sofá… pega uma sobra de cabo que está na mesa de navegação e sobe ao convés… agarra a escota e a acompanha com as mãos até pegar o moitão… amarra o cabo à base do moitão… passa a outra ponta do cabo pelo cunho de través e caça… a escota desce ao nível do convés… você caça a escota pela catraca e pede para o tripulante na roda de leme orçar… tudo se acalma… o veleiro aderna… você caça mais um pouco a genoa até próximo do guarda-mancebo e, ao mesmo tempo, um tripulante caça a mestra… o veleiro aderna mais um pouco… então, mais um barulho… não, não é outro “bang!”, está mais para um “blurrublumpumPAM!”… cai a ficha… você grita… $#@@%#%&!!!… tudo o que você empilhou dentro do veleiro foi parar no bordo oposto com a adernada… o veleiro continua sua rota e tudo se acalma… nova anotação mental: depois de arrumar tudo lá dentro, tenho de me livrar das tralhas que não uso!

É certo que, talvez, tenha acontecido assim…

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem!

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About Max Gorissen
Sailor, writer and editor, in that order...

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