Humor: É certo que, talvez, tenha acontecido assim… Nº 4

Lancei em 03/01/2020 uma nova coluna de “humor”, com relatos sobre náutica que “certamente”, se não estou totalmente enganado, foi o que realmente aconteceu... espero que se divirta com situações inusitadas da náutica brasileira, descritas em textos curtos, como se estivéssemos “bate-um-papo” no bar… e aqui vai o quarto;

Um dia, estava ancorado no Mar Pequeno em Cananeia, quando tive de levantar ferro e achar outro fundeadouro: começava a ventar forte, 14 nós com 16 nós na rajada, e fiquei preocupado pois fortes marolas e correnteza indicavam que a maré estava subindo. Tive até a sensação de que o veleiro tinha unhado (se soltado) e estava derivando, mas nunca saberei com certeza, pois segundos depois já estava levantando o ferro. Com o vento forte e a maré enchendo muito rápido (devia haver uns 5 nós de correnteza), retornei correndo à roda do leme para ter o comando do veleiro, mas este girou e ficou de lado em relação ao vento e, com a maré enchendo e acertando o costado e a quilha, ele começou a derivar rápido em direção à costa. Foi quando vi que já estava quase em cima de uma poita marcada por uma garrafa plástica verde. Pensei rápido, calculei e dei uma acelerada forte em revés, para tentar fazer o veleiro recuar e a boia passar por baixo da proa, em vez da popa, onde podia se enrolar na hélice e no leme. Tudo funcionou conforme o cálculo, mas, com o veleiro passando com a proa por cima da boia verde, vi que ainda não podia acelerar para recuperar o controle, pois o veleiro derivava rápido em direção a uma poita amarela. Só ouvi o pessoal do píer gritando: “Olha o veleiro! Está solto! Vai encalhar!”. Impassível, analisei o ângulo novamente e calculei o que fazer para evitar que a poita enroscasse na hélice ou no leme. Tinha de fazer com que ela passasse novamente por baixo da proa, contudo a costa e um outro píer de madeira estavam bem perto, e o campo de manobra seria apertado. Então, engatei a ré com toda força, o motor foi para 2.600 RPM em segundos, senti o tranco do veleiro se movendo para trás e a poita a uns 2 metros do costado, paralelo à hélice. Imediatamente acelerei para 3.100 RPM, nível máximo do meu motor, e segurei até ver a poita a um metro do costado, quando desacelerei e coloquei em neutro. Ouvi o barulho da poita bater no casco e o veleiro se mover para trás e para o lado ao mesmo tempo. Deu certo: o cabo da poita passou avante da quilha e a poita seguiu arrastada pelo empuxo do cabo pela proa. Não estava safo ainda. O veleiro ainda avançava em direção ao píer de madeira. Então, quando vi que a poita passou para o outro lado do veleiro, girei controladamente a roda do leme e novamente engatei ré com força, para que o veleiro virasse em seu próprio eixo e se alinhasse com o vento e a maré. Assim que percebi o alinhamento, desengatei a ré e engatei avante, sentindo e escutando as engrenagens do reversor, abusadas pelo meu desespero. Acelerei a 3.000 RPM e o veleiro quase que levanta a proa. Virei o leme para longe da poita, que ainda estava perto do meu costado, e a distância do píer de madeira na minha popa começou a aumentar. A velocidade aumentou e retomei o controle do veleiro, passando a uns 2 metros da poita amarela e, na sequência, a uns 4 metros da poita de garrafa plástica verde. Alívio! O pessoal do píer? Com os celulares na mão filmando tudo, de repente, guardaram os celulares e aplaudiram com gritos de “Uhhhhuuu!!!” … não sei se pela minha destreza em evitar tanto as poitas quanto o píer ou pela “pataquada” de ter me metido nessa enrascada. Pude perceber que vários estavam realmente desconsolados por ter dado tudo certo… estes, estavam certos de que postariam nas suas mídias sociais o “velejador manza” que bateu no píer e foi parar com o veleiro em terra… não tiveram esse gostinho… 😊

É certo que, talvez, tenha acontecido assim…

Leia o primeiro relato clicando aqui , o segundo clicando aqui e o terceiro clicando aqui.

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem!

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