Dingue – Uma breve história

O barco a vela mais versátil do Brasil

O primeiro Dingue fabricado no Brasil surgiu no Rio de Janeiro, há 42 anos, inspirado no Dinghy inglês. Apesar da idade, este pequeno veleiro está mais jovem e arrojado que nunca. Na verdade, o tempo fez dele um barco muito melhor.

São duas gerações. A primeira seguiu o padrão do projetista Miguel Pomar, que desenhou e produziu o protótipo em 1978, utilizando processos de construção naval e materiais disponíveis na época. Já a segunda geração surgiu com a Holos Brasil, que assumiu a produção em série do Dingue em 1998, introduzindo conteúdo tecnológico, processos de laminação mais modernos e materiais compósitos de última geração.

ALUNO VIX NÁUTICA – Foto: Divulgação

A ideia de Pomar foi construir um barco a vela cujo casco pudesse também ser usado com motor de popa. De tamanho pequeno, mas com espaço suficiente para transportar uma família de quatro pessoas. Que servisse para o lazer, mas que fosse competitivo para disputar regatas. E que pudesse ser transportado em cima de um “Fusca”.

Não é preciso dizer que ele conseguiu transformar o sonho em realidade.

Mas, em 1993 o barco parou de ser fabricado. Foram cinco anos de estagnação. A classe que havia se formado em torno do calendário de competições desmobilizou-se. Foi quando a Holos Brasil passou a produzir o Dingue, fazendo-o renascer com força total no cenário nacional da vela.

ALUNOS DO PROJETO GRAEL NO BRASILEIRO 2019 – Foto: Mehane Albuquerque

Nova geração

No início, a Holos contou com respaldo técnico do Polo Náutico da UFRJ, laboratório de pesquisa, desenvolvimento de projetos e construção de embarcações, que também atua como incubador de empresas — dentre elas, a própria Holos. A recém-criada fábrica foi, aos poucos, aperfeiçoando a construção, adotando métodos modernos de laminação e matérias-primas que tornaram o Dingue um barco mais leve, resistente e seguro. Novos materiais, como o Divinycell, foram incorporados ao casco. A empresa também passou a modelar e desenvolver peças laminadas em fibra de carbono, mais fortes e duráveis.

Brasileiro 2019 – Foto: Fred Hoffmann

Enquanto a fabricação acompanhou o ritmo do avanço tecnológico, a Classe Dingue se reorganizou. As competições cresceram, registrando a média de 50 duplas nas regatas mais importantes desta última década. O coordenador nacional da Associação Brasileira da Classe Dingue (ABCD), David Baker, conta que quando surgiu a nova versão do barco muitos proprietários do modelo antigo pararam de correr campeonatos, pois se consideravam em desvantagem. Mais ágil e rápido, o Dingue da Holos foi, aos poucos, conquistando a preferência dos velejadores.

CARTIANE MARTINS – VIX NÁUTICA – Foto: Divulgação

A partir de 2006 ocorreu uma renovação significativa da flotilha. Atualmente, ela é praticamente toda formada por barcos dessa nova geração“, conta David.

O campeonato brasileiro de 2019, por exemplo, registrou 73 dingues inscritos, evidenciando que os competidores estão cada vez mais mobilizados e unidos. Muitos participam apenas pelo prazer de estar entre amigos. Por isso, regatas do calendário nacional, mais que disputas, são uma verdadeira festa com famílias, crianças, jovens e veteranos. As mulheres têm destaque. Quase sempre estão na proa, acompanhando os maridos timoneiros, ou navegando ao lado dos filhos.

CARTIANE MARTINS – VIX NÁUTICA – Foto: Divulgação

O Dingue é o barco a vela mais democrático do país“, afirma Lorenzo Cardoso de Souza, engenheiro naval fundador da Holos e um dos principais responsáveis pelo ressurgimento da classe.

O veleiro vem se tornando cada vez mais popular, não apenas por ser o barco de pequeno porte com o melhor custo-benefício do mercado nacional, mas em razão das diferentes opções de uso que oferece, e também pela segurança e durabilidade.

COPA DINGUE CNC 2019 -CASAL COMEMORA NA CHEGADA – Foto: Fred Hoffmann

Quem compra um Dingue Holos está adquirindo uma embarcação de altíssimo padrão. Nosso objetivo é fabricar um produto de qualidade, dentro dos critérios técnicos mais rígidos para monotipos. Mas nosso foco está, principalmente, no respeito às pessoas“, garante.

Diversão e aventura

Ao mesmo tempo em que conquistou espaço no cenário esportivo, o Dingue se consolidou como barco de lazer para passeios em família e travessias de aventura. Atualmente são quase mil embarcações com o selo da Holos Brasil espalhadas pelo país, navegando não só no mar, mas também em rios, lagoas e represas do interior. E a flotilha não para de crescer. 

DAVID BAKER E LUCAS MIRANDA – Brasileiro 2019 – Foto: Mehane Albuquerque

Na última edição da Barqueata Victor Muanis, travessia de 23 milhas náuticas na Lagoa de Araruama (RJ), em dezembro último, os dingues formaram maioria e roubaram a cena. Foram 15 ao todo, entre 50 embarcações de diferentes classes.

Pela ampla participação, a Classe Dingue faturou dois prêmios. O de ‘Embarcação mais antiga’, um ‘Pomar’ com quase 40 anos de uso. E de ‘Futuro da Laguna’, um Holos novinho“, conta Dolfão Muanis, organizador da barqueata, frisando que o barco vem ganhando cada vez mais novos adeptos na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, estado que reúne a flotilha mais numerosa em todo o Brasil.

KURT JURGEN – Foto: Fred Hoffmann

Seja para disputa, aprendizado ou diversão, o Dingue hoje ocupa um lugar de destaque na vela brasileira. E no coração dos velejadores também. Mas o que faz dele tão especial, assim, a ponto de atrair gente de todas as idades e de diferentes níveis técnicos?

Versatilidade é a resposta. Enquanto alguns o preferem por ser descomplicado, prático para montar, estável, fácil de velejar e seguro, principalmente para crianças; outros optam pelo tamanho compacto, ideal para guarda e transporte. Navegadores de embarcações de maior porte também se rendem aos encantos deste pequeno, mas valente, veleiro. 

LORENZO SOUZA (de amarelo) – Foto: Fred Hoffmann

É um barco de família e de amigos por natureza. Comecei a velejar nele depois dos 40 anos. Tenho outros barcos, mas mantenho o Dingue porque é possível velejar sozinho, com outras pessoas, brincar, passear, fazer regatas. Ou seja, pode-se realmente aproveitar todas as possibilidades“, diz Wilmar Amorim, coordenador da classe no Rio de Janeiro.

LORENZO SOUZA NA REGATA LORENZO- Foto: Fred Hoffmann

Educação e inclusão social

O Dingue, antes de tudo, é um barco-escola, ideal para quem quer dar os primeiros passos, ou melhor, os primeiros bordos na vela. Projetos de inclusão social e educação através do esporte náutico, como o Projeto Grael, em Niterói (RJ); ou o Praia Grande — um dos núcleos do Navega São Paulo, criado por Lars Grael quando foi secretário de Juventude, Esporte e Lazer do estado — têm formado velejadores de Dingue com excelente nível técnico, que participam das principais provas do calendário oficial para ganhar experiência.

MENINAS COMPETINDO – BARCO SEGURO E FÁCIL DE VELEJAR – Foto: Fred Hoffmann

No último brasileiro, em novembro, em Niterói, o Projeto Grael foi representado por cinco duplas de jovens, entre 13 e 17 anos. Uma turma cheia de garra que se revezou nas primeiras posições da categoria estreante durante todo o campeonato, e acabou conquistando o segundo lugar, com Luiz Salema e Isabela Santana.

É simples de navegar e, ao mesmo tempo, completo. Quem aprende os fundamentos básicos da vela com o Dingue consegue velejar tranquilamente em outras classes“, diz Ronald Ricardo, técnico da equipe. 

PEQUENO-VEJEJADOR-BRASILEIRO-2019 -Foto: Mehane-Albuquerque

Também assíduos em competições, disputando palmo a palmo com os campeões, os alunos do Colégio Naval da Marinha do Brasil aprendem as primeiras noções de navegação a bordo de um Dingue, antes de começar o treinamento em barcos de oceano. Por ser a porta de entrada para a vela, a classe atrai grande número de crianças e jovens que sonham com um futuro no esporte, incentivados por iatistas que fazem o Brasil brilhar no cenário olímpico, como os irmãos Torben e Lars Grael, Robert Scheidt, as meninas Martine Grael e Kahena Kunze, entre tantos outros.

REGATA KURT JURGEN – Foto: Fred Hoffmann

Essa renovação é importante, pois garante o futuro da classe no Brasil“, afirma David Baker, velejador experiente que vem repassando desde cedo os conhecimentos náuticos para o filho, Lucas Miranda, com quem faz dupla nos principais campeonatos.

REGATA KURT JURGEN – Foto: Fred Hoffmann

Alma e personalidade

Na opinião de Cartiane Martins, professora na escola de vela Vix Náutica, em Vitória (ES), o Dingue é ideal para o aprendizado por ser “paciente e generoso”.

Na vela costumamos dizer que barcos têm alma e personalidade. Para aulas precisamos de um barco que não capote facilmente. Por isso digo que ele é paciente, porque tolera alguns erros de manobra e dá tempo para aluno se acertar, ao contrário de outros mais exigentes, como laser e snipe, por exemplo. E generoso porque nos proporciona momentos incríveis, tanto passeios quanto competições, além de conforto“, diz ela.

Regata Lorenzo – Foto: Fred Hoffmann

Cartiane destaca os pontos positivos do barco em regatas esportivas.

“A simplicidade de regulagens permite que qualquer pessoa comece a competir rapidamente. O conforto ergométrico é outra vantagem. E o espaço para a geladeira também conta. Sempre é bom levar lanche e água para não passar aperto nas provas“, avalia.

Dentre todos os velejadores da classe, o maior entusiasta é, sem dúvida, o veterano Kurt Jurgen, que acompanha a saga do Dingue desde o início.

Troféu Kurt Jurgen – Gabriel Pomar ao centro 2018 – Foto: Fred Hoffmann

Vi o projeto nascer nas mãos do Miguel Pomar e velejei o primeiro protótipo, da praia do Camorim, casa do Miguel, até a Ilha do Cavaco. Na época, eu velejava em diversas classes e aprovei as qualidades velicas do barco. Anos mais tarde, vi no Hotel Blue Tree, em Angra, um barco da nova geração fabricado pela Holos. Velejei nele com minha neta e comprei meu primeiro Dingue. Já estou no terceiro. Fundei a classe no ICRJ e me tornei o primeiro capitão de flotilha“, diz com orgulho.

O experiente navegador não poupa elogios.

É valente nas ondas e tem boa navegabilidade também nos rios e águas abrigadas. Forma, atualmente, a maior classe de monotipos do Brasil“, afirma.

Pelo pioneirismo e paixão pela vela, Kurt é homenageado todos os anos pela comunidade do iatismo carioca com uma prova esportiva: a regata de Dingue Kurt Jurgen, cuja 17ª edição realizou-se no dia 18 de janeiro, no ICRJ.

Outro homenageado, pelo incansável trabalho para manter a classe unida e ativa, o fundador da Holos Brasil, Lorenzo Cardoso de Souza, também empresta o nome a uma prova. A Regata Lorenzo — com percurso entre a Praia do Adão, em Niterói, e o ICRJ, na Urca — já se tornou tradição e adotou como causa a preservação do meio ambiente. A cada evento, os organizadores distribuem aos velejadores e ao público variedades de mudas de árvores nativas da flora brasileira. Este ano, a 11ª edição será no dia 9 de maio de 2020.

Foto em destaque: Juventude presente no Brasileiro 2019 – FRED HOFFMANN.

Mehane Albuquerque Ribeiro

mehane.albuquerque@gmail.com

MAR Assessoria de Comunicação

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Comentários

2 comentários em “Dingue – Uma breve história”
  1. Antônio Carlos Garcia Junior disse:

    O Dingue é um veleiro completo para aventuras ou competições

  2. Daisy Lowndes Dale disse:

    Só agora ouvi com.entários sobre esse barquinho a vela ,o Dingue., mandados pelo Jorge Aragão .

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