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Cupins e o novo teto do Gaia 1

Havia tempo que eu estava observando um pozinho no piso de uma antepara do meu veleiro Gaia 1.

Achava que fosse pó de madeira e sujeira arrastados pelo vento da área serviço do estaleiro, onde fica atracado meu veleiro.

Um belo dia, porém, encontrei um monte de asinhas no sofá do salão e tive certeza de que houvera uma revoada de cupins ali dentro!

A asinha da revoada, note o colorido típico do cupim Cryptotermes Brevis alados.

Enviei uma foto para a empresa Nagasaki Controle de Pragas (http://nagasakidedetizacao.com.br/) que realiza a descupinização da minha casa de São Paulo e do Guarujá (já estou escolado no assunto, pois há muito cupim no Brasil), e a resposta foi desanimadora: “Seu Max, a asinha da revoada, por seu colorido típico, é com certeza do cupim Cryptotermes brevis alado. É bem provável que o pozinho que o senhor vem encontrando sejam as fezes do cupim”.

Pedi um orçamento e contratei imediatamente a empresa para realizar o tratamento da madeira.

Após desmontar todo o forro do teto, encontraram os cupins e aplicaram o veneno, eliminando os bichinhos. Escrevendo assim parece que foi fácil e rápido… bem, não foi, como relato a seguir.

Desmontando o forro do teto

Não sei se você já desmontou o forro do teto do seu veleiro.

Não? Então fique feliz, pois é um trabalho terrível.

Soltando os parafusos. Os forros são encaixados sob pressão para dar o formato arredondado. Repare por trás da luminária que, ao retirar a madeira de moldura da gaiuta, o forro ficou reto.

Tudo em um veleiro é feito para ser de fácil remoção.

Mas remover um painel é uma coisa, remover todos os painéis é outra totalmente diferente!

São centenas de parafusos e encaixes que devem ser soltos e removidos, de ponta-cabeça, já que estão no teto, antes que se possa soltar os painéis. Sem contar os que dependem de soltar algum componente: por exemplo, o baby-stay na cabine de proa tem uma extensão de aço inox que vai até a estrutura que dá suporte ao mastro para evitar que esforços durante a velejada sejam distribuídos pelo deck, ou seja, para soltar um painel do forro do teto da cabine, é preciso soltar o suporte. Apenas um exemplo…

Resumindo, pois o objetivo aqui não é descrever a dificuldade de soltar o forro, deu um trabalhão!

O belo e aconchegante interior do Gaia 1 antes de retirar os painéis do teto. Repare que falta um, o da esquerda. Esta foto é anterior à data em que tiramos todos os forros e o painel foi retirado pois, quando comprei o veleiro, um estofador fez um novo painel para substituir um dos originais que havia apodrecido por causa de água entrando por um parafuso… o novo painel, descobri depois, feito de acartonado, não durou e tive de substituí-lo pois absorveu umidade e apodreceu.
Já sem o forro do teto da sala. Ao fundo, meu filho, focado em tirar os forros da cabine de proa.

Encontrando e matando os cupins

Uma vez livre dos painéis do forro do teto, o veleiro fica com outra cara… Incrível como o forro faz diferença na estética!

Agora, com acesso visual ao espaço entre o forro e a parte inferior do deck, dava para ver todas as longarinas de madeira que servem para moldar e aparafusar o forro. E a visão não era bonita!

Além da umidade e do mofo, causado por vazamentos que passavam pelo deck e deveriam ser reparados, dava para ver que os cupins tinham se instalado no veleiro havia muito tempo… Acredito que até mesmo antes de eu o adquirir.

Veja nas fotos a seguir o que encontramos e o que foi realizado.

Mas antes, um pouco de informação sobre o Gaia 1 e seu estaleiro.

Veleiro FyC 40 – 1987

O veleiro Gaia 1 é um FyC 40 ou F&C 40, classe IOR, com design de German Frers, fabricado em 1987 pelo Astilleros Frers y Cibilis S.A. na Argentina.

Nesta versão, de uma cabine e um banheiro com box para o chuveiro, ampla sala de estar e jantar, cozinha, mesa de navegação e mais uma cama individual na popa, todo o interior é construído com a madeira da Ruprechtia salicifolia, chamada na Argentina de viraró e, no Brasil, de marmeleiro-do-mato.

Muito resistente às variações de temperatura e umidade, características do ambiente marítimo, essa madeira tem uma tonalidade “loira” que reflete a luz, dando uma sensação de luminosidade natural muito agradável. Para aumentar ainda mais a luminosidade, foi utilizado um estofado cinza claro e almofadas com faixas azuis.

No carrinho, dá para ver todos os painéis do forro do teto… As “ripas” de madeira que aparecem também no carrinho, são as madeiras de acabamento que são usadas para dar a curvatura nos painéis ao parafusá-los à estrutura de madeira do teto.

Construindo, pintando e instalando um forro novo

Sempre adorei o estilo clássico dos móveis e a configuração desse veleiro.

A sensação interna é de conforto, espaço e leveza.

Mas nunca gostei muito do forro do teto e, principalmente, do acabamento do piso.

Tendo retirado todo o forro, e ciente de que várias peças teriam de ser substituídas por novas, tive a oportunidade de decidir se queria manter o mesmo tipo de forro ou mudar para outro mais prático e visualmente mais agradável. O piso, por enquanto, não será mudado…

O forro retirado era composto de uma chapa de compensado naval, forrada com espuma e um material de vinil antimofo de cor clara, puxando para um creme.

Ele pesava 15 quilos – o que foi verificado com uma balança –, o que me pareceu muito, pois sempre procuro diminuir o peso no veleiro. Além do mais, o interior clássico da embarcação permitiria trocar o forro liso por um de madeira rajado, como que ripado, e deixar à mostra o movimento da madeira, que adoro. O novo forro? Pesa só 7 kilos.

Foi isso o que fiz e, nas fotos a seguir, descrevo o trabalho realizado e os materiais usados.

A nova pintura foi toda feita por mim e por meu filho.

A marcenaria, baseada nas minhas especificações, foi realizada pelo PT Marceneiro, como é conhecido esse marceneiro do Guarujá com longa tradição e experiência, filho de um famoso marceneiro, que realiza serviços de marcenaria naval, restauro e execução de projetos especiais em madeira voltados para o mercado náutico (lanchas e veleiros). Recomendo. Após tê-lo conhecido e aprendido a apreciar seu excelente trabalho, descobri que só não se pode pedir que ele envernize ou pinte a madeira, pois a expressão de seu rosto muda! Ele só realiza a marcenaria e a instalação. Serviço de primeira!

Todas as tintas e resinas utilizadas foram fornecidas pelo Sr. Raymond Grantham da Coninco Tintas e Revestimentos Marítimos – Guarujá (www.coninco.com.br), que não só me assessorou na escolha das tintas mas, principalmente, na sua correta aplicação.

Tintas usadas:

  • Condite 210 C Epóxi Laminação Incolor 2 partes
  • Condur SP 350 F Branco GL Epóxi (Primer)
  • Conthane Yacht Finish ACR Oyster Whyte
Cupim Cryptotermes Brevis alados.
Fezes do cupim. Se encontrar algo assim no seu veleiro, não pense duas vezes e chame uma dedetizadora! Não tente fazer o serviço você mesmo, como verá a seguir, não é tão fácil!
Na parte de baixo da foto, sob a madeira, o pó das fezes do cupim.
O furo redondo na madeira é na realidade um buraco de cupim. Repare na madeira de baixo, onde os painéis do teto são apoiados, a quantidade de fezes de cupim.
Tudo foi desmontado e separado para uso futuro. Nesta foto dá para ver algumas das ripas de madeira teka usadas no suporte do forro do teto. Repare a quantidade de parafusos!
Esta era uma das madeiras mais “afetadas” pelos cupins… estava toda comida por dentro!
Por sorte, os cupins estavam concentrados nas madeiras de sustentação do forro do teto e não nas anteparas. Mas é incrível como tem fezes!
O “pó preto” é na realidade “mofo” por umidade. Fiz uma limpeza geral no teto depois de aplicado o veneno. Deixei tudo aberto por 2 meses para garantir de que todos morreram.
O processo de descupinização se dá primeiro abrindo os buracos com uma ferramente que parece um mini martelo com uma agulha em vez do cabo e, ao achar o buraco, vai cutucando e batendo na madeira para retirar as fezes. Só depois de concluído este processo é que aplicam o produto.
Repetiram o processo em todas as madeira… haja paciência!
O piso, nos locais onde o cupim entrou na madeira, foi ficando todo cheio de “pó” que, na realidade, são as fezes do cupim.
Após varrer e coletar o pó do chão, fica evidente quanto de madeira foi “comida” pelos cupins. Todas foram posteriormente trocadas por novas madeiras tratadas contra cupim.
Usando os EPI’s adequados à periculosidade do serviço, é aplicado o veneno.
O produto é aplicado por pressão em cada um dos buracos.
Fica fácil de visualizar o rastro dos cupins na madeira. Note os “rasgos” que ficaram na madeira mais clara, posteriormente substituída pois já não apresentava mais superfície de suporte.
Este é um exemplo das madeiras retiradas do veleiro, onde, depois de tratadas, foram retiradas para serem trocadas por novas. Os cupins já não mais ali residem!
Tem início então o trabalho de cortar e “testar” as novas madeiras do forro do teto.
Mantivemos os forros antigos até terminar de instalar tudo pois precisávamos destes para ajudar na marcação da posição das luminárias e como molde para as novas madeiras.
Todas as novas madeiras do forro foram testadas no seu lugar e ajustes foram feitos antes de passarmos para a nova fase, fazer os riscos para parecer taboas colocadas lado-a-lado.
A marcação dos riscos foi feito a partir da madeira do forro do meio, estendendo para as laterais. Era fundamental que os riscos seguissem de proa a popa na mesma linha.
Nesta foto do teto da cama de popa, fica fácil perceber como os riscos na madeira seguem de proa a popa. Apesar de seguir a marcação dos forros originais, mudamos algumas luminárias de lugar.
Também identifiquei vazamento por duas gaiutas, a de proa e uma na popa… resolvido!
Teste final antes de desmontar novamente para pintura. Tudo alinhado!
As madeiras são então lixadas com uma lixa muito fina e as imperfeições na madeira cobertas com massa para madeira.
Na parte de trás, que ficará escondida e sujeita a umidade caso exista algum vazamento, apliquei uma camada de Condite 210 C Epóxi Laminação Incolor 2 partes para “selar” a madeira.
Na parte que ficará exposta, apliquei antes da tinta final, uma camada de primer Condur SP 350 F Branco GL Epóxi.
Depois do primer, lixei com uma lixa fina antes de aplicar a tinta final. Repare a quantidade de lixa na parte inferior direito da foto.
Forro pintado!
O trabalho não tem fim… acabamento de entradas de ar ainda por reformar com fibra de vidro (repare nos cantos das peças) e pintar com mesma tinta do forro do teto.
A recompensa… um trabalho perfeito! Importante destacar de que queria que as ranhuras e desenhos da madeira ficassem visíveis, afinal, é madeira e não fórmica!
As luminárias originais, depois de convertidas uma-a-uma em LED “quente” (amarelada em vez de branca), complementam o ambiente com uma luz muito agradável.
Forros instalados.
Repare nas “ondas” da madeira. Os risco fazem com que o compensado naval pareça várias madeiras colocadas uma junto da outra.
Novo forro visto deitado na cama da cabine de proa.

Espero que este artigo o incentive ou o ajude a modificar, construir ou reformar o forro do teto do seu veleiro para que fique com a sua cara, tendo ou não cupins no seu veleiro…

Bons ventos!

Max Gorissen

Velejador, escritor e editor da SailBrasil.com.br… nessa ordem!

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About Max Gorissen
Sailor, writer and editor, in that order...

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