Veleiro Atrevida

Especificações:

  • Ano de Fabricação: 1923 (maio)
  • Outros nomes: Wildfire
  • Estaleiro: Estaleiro Herreshoff (1878-1945) de Bristol, Rode Island – USA
  • Material construtivo: aço carbono ASTM 131A com as “costuras” entre as fieiras de chapas, rebitados com milhares de rebites colocados a quentes no casco por um lado e, arrebitados com marteletes pelo outro.
  • Armação: Race Auxiliary Schooner Wildfire (Palhabote em Português) – Auxiliary Race Schooner é um Palhabote de regata com motor propulsor, isto apareceu em 1914 quando o Cap.Net Herreshoff inventou a hélice folding.
  • Propulsão: Motor Scannia DI12 380 HP
  • Tripulantes/ Passageiros: 12+1
  • Numeral: BL 8 (Wildfire D 22 nos USA)
  • Comprimento: 95′ (LOD) ou 29,00 m
  • Design No.: 
  • Linha d’água (m): 
  • Boca (m): 6,00 m
  • Calado (m): 3,80 m
  • Área velica (m²): 
  • Deslocamento (Kg): 85.000
  • Projetista: Nathanael Greene Herreshoff (Nat)
  • Observações: Encomendado por Sr.Charles L. Harding (1873-1952).

Design do Wildfire – Copyright Estaleiro Herreshoff / Nathanael Greene Herreshoff.

No inverno de 1922, o Sr.Charles L. Harding (1873-1952), encomendou ao Estaleiro Herreshoff (1878-1945) de Bristol, Rode Island – USA, um projeto para a construção de uma escuna para participar das regatas da ASTOR CUP, a ser realizada no verão de 1923 e, até então, patrocinada pelo New York Yacht Club.

O Estaleiro Herreshoff, que pertencia desde o ano de 1863 aos irmãos Nathanael Greene Herreshoff (Nat), formado em Arquitetura Naval e Engenharia Mecânica pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology) e seu irmão John Brown Francis Herreshoff, foi escolhido para tal projeto.


Placa do ATREVIDA. Esta é uma réplica mandada fundir por Átila Bohn. Fotos: Átila Bohn

Uma vez tendo as especificações definidas, seguindo uma das características comum a todos os projetos dos irmãos Herreshoff, foi esculpido uma meia maquete do conceito de arquitetura naval (basicamente o casco com suas obras vivas e obras mortas) em madeira maciça.

Com as com as formas e proporções que imaginavam para o veleiro atendidas, esta meia maquete, foi cortada transversalmente em várias partes para então produzir o desenho das cavernas.


Meio modelo do Atrevida de Nat Herreshoff.

No outono ou segundo semestre de 1922, o Sr.Charles L. Harding aprovou o projeto de Nat Herreshoff e autorizou o início da construção do veleiro que viria a se chamar WILDFIRE, o Race Auxiliary Schooner Wildfire.

A construção teve início em dezembro 1922 e foi para a água em maio de 1923, ou seja, foi construído em apensa 6 meses!!


NY Times – 18/08/1923
Wildfire, correndo pelo Eastern YC, na segunda regata da Astor Cup. Data da foto: 17/08/1923 – Cópia da pagina do livro Sailing Craft, autor Edwin J. Schoettle.
Veleiro Atrevida em regata visto do alto. – Foto: Marcos Méndez, SailStation.com

Características técnicas e especificações

O projeto aprovado previa a construção de um veleiro de dois mastros, sendo o maior de 38 metros de altura, armado em escuna, com 85 pés de convés e 105 pés de LOA (Lengh Over All – comprimento total), incluindo neste, o comprimento do gurupés.

Ainda, o veleiro possuiria um calado de 3,8 metros e um total de 90 toneladas de deslocamento.

Toda a estrutura e o chapeamento do casco foram construídos em aço carbono ASTM 131A com as “costuras” entre as fieiras de chapas, rebitados com milhares de rebites colocados a quentes no casco por um lado e, arrebitados com marteletes pelo outro, unindo, assim, as duas chapas entre si (as chapas eram sobrepostas por uma largura de aproximadamente 3” para permitir a vedação). Estas fieiras, por sua vez, também eram rebitadas à estrutura das cavernas e a quilha.

O Deck, foi todo construído em madeira maciça de TECA com 3” de espessura e calafetado.

O interior do Wildfire era composto pela cabine do armador, cabines dos convidados e dos tripulantes além da cozinha e dos banheiros.

Completando os luxuosos ambientes, uma enorme sala de estar para receber convidados e saborear uma Champanhe ao final das regatas.


WILDFIRE The Boston Globe – 15/07/1923

Todo o veleiro e, principalmente seu interior, foi desenhado nos mínimos detalhes, tendo sido especificados os melhores materiais da época e incorporado ao projeto vários requintes como, por exemplo, o do corrimão da escada de acesso ao interior do barco e o dos trincos das gaiútas do casario.


Veleiro Atrevida – Aquarela: Max Gorissen

Os primeiros anos do Wildfire

Uma vez lançado e batizado com o nome de Wildfire, o veleiro realizou sua primeira navegação rumo ao Eastern Yacht Club em Boston, MA – USA.

Em agosto de 1923, cumprindo o cronograma, o veleiro estreia sua primeira regata na tão esperada ASTOR CUP, ganhando a competição e provando assim a capacidade e a qualidade dos projetos do já famoso Nat Herreshoff.

Após anos de regatas e cruzeiros, competindo e velejando em grande estilo, em 1926, o Sr.Charles L.Harding, vende o veleiro.

Durante a segunda guerra mundial (1939-1945), o veleiro é requisitado pela Marinha Americana para patrulhar a costa dos EUA, ficando à disposição do governo americano até 1945.



Wildfire muda de país e de nome

Com o fim da guerra e, novamente de posse do veleiro, o então “novo proprietário” de 1926, por sua vez, o vende no ano de 1946 para o brasileiro Jorge Behring.

O Sr.Jorge Behring, rebatiza o veleiro trocando o seu nome de Wildfire para Atrevida, nome com o qual o conhecemos até hoje, ostentando o pavilhão nacional brasileiro em sua popa.

Em 1949, o Sr.Jorge Behring o vende para o empresário da indústria farmacêutica, o Sr. Dirceu Fontoura (Inventor do famoso Biotônico Fontoura).

Durante a propriedade e o comando do Sr.Dirceu Fontoura, o veleiro Atrevida foi palco de inúmeras recepções a bordo, com participação de ilustres convidados, inclusive, de Reis e de Rainhas, além, é claro, de personalidade como Frank Sinatra e Henry Kissinger, entre muitos outros VIPs e Jet Sets da época, tudo e todos registrados no Diário de Bordo pelo comandante do veleiro a época, o espanhol Manolo.


Da esquerda para a direita – Em pé: Rita Hayworth, Alain Delon, Elvis Presley, HenrryKissinger, rei Carlos Gustavo, Jânio Quadros e Telly Savalas. Sentados: Niki Lauda, Martha Rocha, Chico Buarque e Billy Blanco. – Revista Playboy de 02/2000 – Artista Gonzalo Carcamo.

O Sr.Dirceu Fontoura, mantém o veleiro no Iate Clube do Rio de Janeiro até a data do seu falecimento, década de 80, quando o mesmo passou por herança para sua filha Christina e seu genro Auro de Moura Andrade.

Durante a propriedade e comando pelo casal Christina e Auro de Moura Andrade, o veleiro passou por diversas reformas e melhorias como, por exemplo, novos mastros de alumínio (eram de madeira) produzidos pela empresa gaúcha Nautec.

Nesta época, todas as docagens para manutenção periódica foram realizadas pelo estaleiro Wilson Sons do Guarujá, único, na época, com capacidade em seu dique seco para este grande veleiro.

Devido a dificuldades financeiras, o casal Christina e Auro, perdeu o barco para a financeira dos carros Nissan e o veleiro ficou abandonado e se degradou durante a disputa judicial.

Antes que naufragasse, foi colocado em um estaleiro no Rio de Janeiro onde foi parcialmente saqueado, indo a leilão pouco tempo depois quando, o Sr.Gilberto Miranda Batista, o arrematou e o resgatou.



Novo dono, nova fase

Na sequência do “resgate”, necessitando de uma grande reforma, inclusive estrutural, o veleiro Atrevida navegou para Santos onde foi içado ao seco pela Cabrera Pará e levado para o estaleiro da MCP que, na época, tinha suas instalações na Ponta da Praia de Santos.

A MCP, por sua vez, fez um trabalho minucioso de estudo e de “arqueologia”, indo buscar toda a informação técnica e os projetos originais do veleiro no Museu Herreshoff (Todos os desenhos ainda se encontram disponíveis no Museu Herreshoff em Bristol, RI – USA) que, prontamente, cedeu os projetos de design e de construção ao novo proprietário que se propôs a fazer uma restauração detalhada e a retornar o veleiro à sua forma original.


2014 Semana de Clássicos PDE Foto: Jorge Cousillas

Assim, todo o chapeamento e as partes da estrutura foram revisados, todo o interior foi reconstruído em seu lay out original, tudo nos mínimos detalhes e seguindo os desenhos originais.

Os novos casarios, incorporados ao longo dos anos, também danificados, foram removidos e substituídos por novos, seguindo os projetos dos casarios originais, em madeira, com todos os vidros bisotados.

Em 2012, o veleiro Atrevida passa por uma nova reforma, recebendo um novo deck em Teca que substituiu o anterior e, novos casarios, agora construídos também em madeira Teca, como os originais (Na primeira reforma, após o quase naufrágio foram feitos casarios de outras madeiras, contudo, estas tiveram vida curta e apodreceram).


Nesta foto dá para ver a cor da antiga madeira que hoje foi substituída pela Teca. Esta foto é de antes da troca da mastreação que foi substituída pela original do design. Repare no back-stay que hoje não existe mais pois a retranca passa a popa do veleiro e usa runnings. Foto: Max Gorissen
Tudo neste veleiro resplandece e brilha. Esta foto é de antes da troca da mastreação que não mais possui um back-stay. Hoje, a retranca passa um pouco a popa do veleiro e usa running-stays baseado no projeto original de Nat Herreshoff. Além disso, as cabines ainda usam a madeira antiga dos anos 80 e não a Teca envernizada de hoje. – Foto: Max Gorissen

Um detalhe especial foi o uso de verniz sobre a Teca que, quando envernizada, fica com um tom dourado muito bonito. Além disso, este procedimento de envernizar a Teca, aumenta em muito a já conhecida resistência desta madeira que dificilmente irá apodrecer já que, além desta nova proteção, possui grande quantidade de óleo e de sílicas.


Percebam a cor “dourada” da Teca envernizada. Foto: Aline Bassi/ Balaio

Na reforma da década de 90, os mastros da Nautec, por instrução dos proprietários, foram produzidos abaixo da sua altura original. Com isso, o veleiro nunca mais alcançou a performance desejada e, por este motivo, na reforma de 2012, novos mastro e velas foram encomendados e produzidos pelas firmas King (mastros) e North Sails (velas) da Argentina que, com base nos projetos originais de Nat Herreshoff de mastreação e de velame, retornaram o veleiro a sua potência e performance originais.

Após esta última restauração, o veleiro Atrevida passou a ter uma vida “agitada”, participado ativamente de regatas de clássicos, tanto no Brasil como no Caribe e Punta Del Este – Uruguai, e mostrando toda sua força, apesar de seus mais de 95 anos de existência, fazendo jus a seu reconhecido pedigree de um bom regateiro.


Veleiro Half-Tonner de madeira de 1974 de nome Pelikan, projeto Garry Mull e construído pelo próprio proprietário Raymond Grantham, “enfrenta” o poderoso Atrevida durante regata da Copa Clássicos Fernando Pimentel Duarte em 2017. – Foto: Aline Bassi/ Balaio

O Atrevida foi vendido no ano de 2019 para…

Reformas:

Principais regatas:

Durante os últimos anos, o Atrevida participou de várias Semana de Vela Ilhabela, Suzuki, Clássicos de Búzios, Semana de Clássicos de PDE, Antigua Classics, Heineken Regatta St Maaten, St Barth New Year’s Eve, REFENO, entre outras.

RegataPosição
Astor Cup 1923

Esta é uma história em desenvolvimento… caso possua informações, contribua!

Texto e informações fornecidas/com contribuição de: Raymond GranthamAtila Bohn (Capitão do Atrevida nos últimos 12 anos).

Cadastro Nacional de Veleiros

Cadastro Nacional de Veleiros Brasileiros (LOA até 100 pés).

Não importa se esses veleiros são de propriedade de indivíduos, organizações, fundos fiduciários ou museus. Também não importa se são novos, usados, estão em péssimas condições, se já foram destruídos ou afundaram.

Não importa se foram produzidos no Brasil ou no exterior, desde que tenham algum tipo de relação com o Brasil… Todos são importantes.

Quer ajudar ou possui informações? Clique aqui para saber como.

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About Max Gorissen
Sailor, writer and editor, in that order...

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