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Doce de Esperma – Juca Andrade

Foto em destaque: Cusco Baldoso/ Juca Andrade

Dia desses – já faz tempo, admito – eu estava em um catamarã, enfrentando ondas grandes e muito vento.

A Ilha de São Luis (MA) ia ficando pequena e as reentrâncias maranhenses começavam a surgir no horizonte: Alcântara na proa.

Desembarquei e fui fazer o que todo turista faz: andei para lá e para cá, tirei milhões de fotografias e comi bem, muito bem.

Sempre de olho no relógio: por aquelas bandas todos seguem o ritmo da maré e depois que ela baixa, não tem choro nem vela: o retorno é apenas no ciclo seguinte.

O lugar parece que parou no tempo. Já foi muito próspero e a Festa do Divino faz lembrar disso. Lembra, também, que o Brasil apesar de imenso tem seus laços de unidade, pois a mesma festa é cultivada em vários outros lugares, como em minha amada Paraty (RJ) ou em Santo Amaro da Imperatriz (SC).

Perambulando entre uma viela de casarões históricos e outra, me deparei com uma pequena venda, típica do nordeste.

Na tabuleta estava escrito: “Doce de esperma“.

Curioso, tive de ir investigar melhor.

Fui recebido por uma menina de no máximo onze anos. Pele morena, cabelos crespos na altura dos ombros, olhos grandes e uma camiseta cor de rosa provavelmente ganha no verão passado.

– Menina -perguntei eu – vocês vendem esse doce mesmo?

– Sim – respondeu ela – custa três reais.

Ainda inconformado, pedi mais informações sobre a “receita”, sendo surpreendido pela inocência da garota:

– É isso mesmo, moço! É meu pai mesmo quem faz!

– E ele faz sozinho? -perguntei, quando devia ter ficado calado.

– Sim, sozinho. Saiu agorinha mesmo, quentinho! Quer provar?

Claro que nessa hora eu imaginei um baita negão saindo de dentro do cômodo que dava para a parte de dentro da venda (imagino ser a sala da casa deles) e começando a “preparar o doce” para o turista incauto.

Antes que eu pudesse recusar ela me entregou um pedacinho do tal doce que estava dentro de uma caixa de vidro, embrulhado em um guardanapo.

Era amarelo, redondinho e tinha côco. Não tinha rabo, que “devia ter se perdido no processo de feitura” – pensei.

Eu não poderia ficar com nojinho diante de uma garotinha, ainda mais quando ela me assegurava que o doce era uma delícia e que comia sempre (“e até veio dele“, pensei eu).

Fui macho e provei! E não é que era bem gostosinho?!

– Esse doce tem esse nome, moço, porque as mulheres o usam para matar as saudades do marido, quando ele viaja, sabe?

Gelei. Mas não ia deixar minha masculinidade bandeirante ir ladeira a baixo, ainda mais diante de tão destemida garotinha!

Como é dura (sem trocadilhos) a vida nesse alto nordeste, não?

Fui mais macho ainda e comprei um pacotinho.

Devo confessar que apesar da estranheza inicial, o doce era sim bem gostoso.

Dei adeus com mais uma história para contar.

Já no catamarã, com destino à Ponta da Areia, abri o pacotinho e li, no rótulo improvisado, o nome do doce em letras de forma,e não “cursiva” como estava na tabuleta : DOCE DE ESPERA! E-S-P-E-R-A!

Ufa, mas que alívio!!!

Fui traído pela caligrafia (mal) manuscrita da plaqueta: o que parecia ser um “r” e um “m”, era na verdade apenas um “r”. Imediatamente me veio à mente a história de outro doce, o “espera marido”, que comi em Vitória (ES).

Mas essa fica para outro dia…

Foto em destaque: Cusco Baldoso/ Juca Andrade

Maiores informações:

Juca Andrade

Instagram: https://www.instagram.com/cuscobaldoso/

Facebook: https://www.facebook.com/cuscobaldosovela/

E-Mail contato: cuscobaldoso@gmail.com

Site: www.cuscobaldoso.com

Veiculado pela SailBrasil News com autorização do autor Juca Andrade da Cusco Baldoso. Copyright © Juca Andrade – Cusco Baldoso. Todos os direitos reservados. All rights reserved.

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About Max Gorissen
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