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O milagre é cada novo dia

Receoso por ter um pouco mais do que cinquenta anos, ele chegou um tanto hesitante.

Expliquei que isso era normal, que muitos de nossos alunos eram dessa faixa etária, que o campeão tinha oitenta e dois anos e que a vela permite uma longevidade rara em outras atividades ao ar livre.

Imaginava que era mais uma história “padrão”, quando então veio a surpresa.

– Há trinta e poucos anos” – começou ele – “eu fui passar minha lua de mel em Paraty. Um dia nós estávamos em uma praia e eu vi um veleiro amarelo ancorado. Lá estavam o pai, a mãe e dois filhos, que logo pularam na água e começaram a nadar. Eu imediatamente apontei para aquele barquinho e disse para minha mulher: ‘É aquilo o que eu quero para a gente!’ Ela, porém, retrucou sem pestanejar: ‘Pois não conte comigo! Naquilo eu não entro!’ Então, durante mais de trinta anos eu alimentei em mim o sonho de velejar, de estar um dia naquele veleiro amarelo… e hoje estou aqui para fazer a minha primeira aula“.

O que dizer diante de um relato tão pessoal?

Eu o parabenizei, tocado pela sinceridade com que ele se abriu e imaginando como deve ser alimentar na alma um sonho por mais do que trinta anos… Nosso aluno, então, embarcou pela primeira vez em um veleiro para sua primeira aula, em Guarujá.

Após a primeira hora, contudo, ele estava verde. Logo ficou azul, até evoluir para um raro tom de roxo e já tinha vomitado as refeições dos últimos sete dias, no mínimo. Não teve jeito. Tivemos que desembarcá-lo antes do previsto.

Telefonei mais tarde para ele, mas não obtive resposta. No dia seguinte estava programada nossa segunda aula.

Os outros três alunos chegaram na hora, como previsto, mas ele não estava lá no píer. O tempo foi passando e a cada minuto eu perdia a esperança de vê-lo novamente.

Mas eis que no último instante ele surgiu. Camiseta branca, bermuda azul, mochila pendurada no ombro, um boné Cusco Baldoso e um baita sorriso no rosto. “Eu ia voltar para casa – disse – Mas não ia conseguir desistir depois de ter chegado tão perto. Liguei ontem para minha mulher e ela me disse que sabia que eu não ia aguentar, que aquilo não era para mim. Ao ouvir isso eu tirei forças sei lá de onde, achei uma pensão lá no Gonzaga para passar a noite e me recuperei. Hoje estou aqui!

Caramba! Qual o tamanho da força de um sonho?

Nosso aluno fez sua segunda aula e a terceira também.

Depois disso fez uma travessia em situações complicadas entre Ubatuba e Ilhabela, retornando para Ubatuba.

Hoje ele é um velejador. Nunca mais enjoou. Mais importante do que isso: ele realizou seu sonho e fez seu pequeno milagre.

Normalmente escolhemos o final do ano para fazer promessas de renovação, no ano que virá.

Nessa época somos tomados pela impressão de que tudo se renova, de que no dia primeiro de janeiro tudo será diferente.

Isso vale até para este 2020, o “ano que não aconteceu”.

Mas a verdade é que cada amanhecer é um pequeno milagre, todo santo dia.

Cada novo segundo é uma nova chance de virar a mesa e mudar tudo.

Não espere pelo Natal ou pelo fim da pandemia para mudar sua vida, para tirar planos da gaveta ou sonhos da alma.

Não aguarde o ano novo para se livrar do que lhe drena a vida.

Não se adapte ao que lhe consome e mata aos poucos, dia após dia.

Faça de cada novo dia seu novo e pequeno milagre.

E vamos no pano mesmo!!!

ET.: Não, ele não se separou. Continua casado e velejando. Mas a esposa não vai… ainda.

Foto em destaque: Cusco Baldoso/ Juca Andrade

Maiores informações:

Juca Andrade

Instagram: https://www.instagram.com/cuscobaldoso/

Facebook: https://www.facebook.com/cuscobaldosovela/

E-Mail contato: cuscobaldoso@gmail.com

Site: www.cuscobaldoso.com

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About Max Gorissen
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