Três capitães e um pequeno sextante

Fotografia real da travessia. Cusco Baldoso/ Juca Andrade

25 de janeiro. Céu de brigadeiro, mar de almirante, vento de iatista olímpico. 34ºS, 19ºW. Faltavam mil novecentos e cinco milhas para Cape Town.

Logo cedo nos debruçamos sobre um problema. O sol estava nascendo cada vez mais cedo, quase às 03h. O anoitecer vinha antes da hora, também. Era verão e isso não fazia o menor sentido. Os dias deveriam ser mais longos.

Meu sono após às 23h estava incontrolável. Além disso, o Sol no momento da passagem meridiana, mesmo com o céu nublado, estava evidentemente fora de posição.

Aconteceu em um átimo. Cada um de nós se entreolhou e entendeu, de imediato, o que estava acontecendo. Era ao mesmo tempo óbvio e ridículo.

Na verdade, mais ridículo do que óbvio. Constrangedor e hilário. Levou mais de uma hora para conseguirmos falar novamente. Ríamos compulsivamente e sem parar.

Nosso erro começou no dia 15 de janeiro, dez dias antes, lá nos 37º30’W, quando mudamos o fuso pela primeira vez. Atrasamos o relógio em uma hora. Mas isto estava errado! Nós, em verdade, avançamos uma hora de fuso. Teríamos, assim, que adiantar o relógio uma hora.

No dia 24 de janeiro chegamos nos 22º30’W e, uma vez mais, atrasamos o relógio. O erro já estava em duas horas. Quando nosso relógio com horário local (na antepara a bombordo) marcava 12h, o horário correto era 14h. “Ufa!”, pensei, “o sol não nasce às 03h”. 

A bordo havia três capitães amadores. Em tese todos sabem usar um sextante, sendo que um de nós até dava e ainda dá cursos disso.

Cada um de nós sabia fazer coisas relativamente complexas.

O Spinelli sabe montar um montar inteiro do zero; eu sei fazer um recurso extraordinário que seja admitido (ou tenha chances de) e o Alan sabe colocar peitos novos em uma moça despeitada. Mas acertar um relógio, nenhum de nós soube…

Naquele dia, e ainda por outros depois disso, cada vez que um olhava para o outro essa história se reavivava e uma nova sessão de gargalhadas vinha à tona. Cheguei a ficar com o abdômen dolorido. Por sorte os dias estiveram nublados, pois desde que mudamos o fuso em 15 de janeiro, nenhuma leitura da passagem meridiana estaria correta, pois o primeiro item – e o mais importante – estava errado.

A hora local correta. 

Você não vai colocar isso no livro, não é? Eu dou cursos disso…”, era o que eu mais ouvia entre uma risada e outra. No final, antes do livro ficar pronto, veio a autorização. Rir de si mesmo é um privilégio, bem feitas as contas.

Ouvíamos, também, a hora certa via rádio SSB, em transmissão feita pelo Observatório Nacional. Devo aqui lembrar que aquela moça que faz a transmissão tem um emprego bastante tedioso, repetindo as horas, os minutos e os segundos o dia todo. A noite também. Sete dias por semana. Sem folga. Coitada! Mas aquele era o horário de Brasília, o que nos obrigava a converter os fusos da mesma forma e, nosso processo para isso, estava completamente errado.

Pecamos, os três, no ponto mais simples da equação. Tão simples que jamais sequer imaginamos que pudéssemos ter errado ali, em algo tão óbvio. Uma travessia oceânica é, em certa medida, um fractal da vida.

E vamos no pano mesmo!

ET: o uso do sextante foi um problema a bordo. Em 38 dias apenas uma leitura correta pôde ser feita. Usamos, no mais, um dos cinco GPS a bordo.

Foto em destaque: Fotografia real da travessia. Cusco Baldoso/ Juca Andrade

Maiores informações:

Juca Andrade

Instagram: https://www.instagram.com/cuscobaldoso/

Facebook: https://www.facebook.com/cuscobaldosovela/

E-Mail contato: cuscobaldoso@gmail.com

Site: www.cuscobaldoso.com

Veiculado pela SailBrasil News com autorização do autor Juca Andrade da Cusco Baldoso. Copyright © Juca Andrade – Cusco Baldoso. Todos os direitos reservados. All rights reserved.

About Max Gorissen
Sailor, writer and editor, in that order...

Deixe uma resposta

Aumentar fonte
Contraste
UA-141530851-1
%d blogueiros gostam disto: