Um passageiro virtual de grande ajuda!

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Nestes dias tive o prazer de buscar um barco novo, saindo da fábrica, em Porto Alegre.

Apesar das restrições Covid, os bons amigos gaúchos fizeram da minha curta estada, uma sucessão de eventos memoráveis, seguidos de uma velejada cheia de alternativas.

Quando a meta é entregar um barco novo aos seus felizes proprietários, a navegação é bem diferente de quando você navega com seu barco. Uma série de fatores devem ser levados em conta, como datas, integridade do barco, avaliação de eventuais pequenos problemas, que sempre existem em barcos novos (mesmo os fabricados na Europa!) e por aí vai.

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Seguindo os conselhos do meu amigo Gigante (Veleiro Entre Polos), programei a descida até Rio Grande, com a finalidade de chegar no Canal da Feitoria com a luz do dia. A forma carinhosa como fomos recebidos no Iate Clube de Rio Grande, bem demonstra o espírito de colaboração dos gaúchos.

O trecho mais problemático seria a subida até Florianópolis, pois estava previsto um vento nordeste e, como os experientes velejadores locais me disseram, seria extremamente dura essa subida.

Nesse momento, nosso passageiro virtual começou a demonstrar sua importância.

Trata-se do Prof. Dr. Giovanni Dolif. Ele foi matéria do episódio #SAL 120 – vale muito a pena assistir! -, além de possuir um canal no Instagram denominado #CÉU.

Ele acompanhou nossa viagem enviando-nos informações, como se fosse um Anjo da Guarda. É um verdadeiro luxo poder receber informações precisas sobre como o tempo estará, para poder decidir o que fazer.

Após avaliar bem estas informações, vimos que se saíssemos pela manhã, bem cedo, poderíamos subir rapidamente com o vento de porão, pois um vento nordeste estava se preparando para invadir a região, cerca de 30 horas mais tarde.

Outra informação importante compartilhada pelo tripulante virtual: a distribuição da intensidade do vento naquela região.

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Normalmente, gosto de navegar afastado da costa. Com isso evito barcos de pesca e me afasto da rota de navios. Além do mais, caso haja algum problema a bordo, tenho espaço para tentar resolver. Mas nesse caso, se não tivesse as informações do Dr. Giovanni, eu teria cometido um erro, pois o vento ao largo iria soprar acima dos 30 nós, enquanto rente à costa teríamos pouco mais de 20 nós.

Claro que rente à costa, devido à menor profundidade, as ondas ficam mais curtas, mas o Delta 41realmente se comportou muito bem e com foi possível chegar à Florianópolis, nossa meta inicial.

Como previsto, encontramos um mar que parecia um espelho. Belos encontros aconteceram, como algumas focas, um pinguim, uma baleia e um espetáculo de cores que nenhum Photoshop seria capaz de realizar.

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Nem tudo estava perfeito no barco, o marcador de combustível não estava funcionando e já estava prevista nossa chegada em Florianópolis para que o fabricante deste equipamento fizesse os ajustes necessários.

Este trecho todo deveria essencialmente ser feito no motor e, apenas quando as condições permitissem, abrir as velas. Portanto, deveríamos calcular bem o consumo de combustível.

Meu companheiro de viagem, bom pescador, tinha um verdadeiro medo de ficarmos sem combustível, então fizemos uma parada extra, para um pequeno abastecimento. Afinal de contas, não custava nada, levando em conta que não sabíamos exatamente quanto combustível havia a bordo, seguro morreu de velho, e ele ficaria mais tranquilo, tornando o ambiente a bordo super tranquilo.

Com isso chegamos em Florianópolis, onde o problema da medição de combustível foi resolvido.

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

O importante era continuar recebendo as valiosas informações do Dr. Giovanni. Em matéria recentemente publicada no Giornale della Vela, dedicado à meteorologia, o meteorologista Riccardo Ravagnan escreve: “Quando você quer reestruturar uma casa, você chama um arquiteto. Se você necessita ser curado, chama um médico. Se você está buscando previsões meteorológica precisas sobre as quais basear uma navegação, a única solução é confiar num meteorologista”.

Continua ele, com sensatez, dizendo: “A meteorologia, se bem que ao longo dos anos tenha se tornado uma conversa de bar, onde cada um emite sua opinião, é uma ciência, um ramo da física, e como tal deve ser considerada”.

Pude verificar na prática como isto é realmente importante e faz uma grande diferença.

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Sou físico, mas não sou meteorologista. Graças às informações incrivelmente precisas recebidas do Dr. Giovanni, pude traçar a estratégia de como sair de Rio Grande e chegar em Florianópolis com segurança.

Na web nós encontramos muitos apps, gratuitos ou não, que oferecem as previsões baseadas em modelos matemáticos. Estes dados provêm de computadores e carecem de revisão e análise humana, portanto estão mais sujeitos a erros.

Quando você recebe as informações de um meteorologista de verdade, você não recebe elaborações feitas por computador, mas sim previsões realizadas por quem conhece do assunto e, possivelmente, muito bem a região.

Por exemplo, antes de sairmos de Antonina, recebendo as informações sobre como seria o tempo para o resto da viagem, o Dr. Giovanni disse que “às 5:30 da manhã você vai receber um vento forte com rajadas de 33 nós vindo de alheta, este vento durará duas horas, caindo depois para 10 nós, seguido de chuva intensa, que o acompanhará pela próxima meia hora”. É muito bom receber estas informações, mas melhor ainda, é isso acontecer com margem de erro menor que cinco minutos! Impressionante!!

Antes do vento entrar, o barco já estava com mestra no segundo rizo e genoa enrolada, esperando o vento que, quando entrou, permitiu brincar de surf a 11nós e todos a bordo tranquilos, se divertindo e com segurança!

Sim, a experiência dos velejadores locais é importante e deve ser ouvida com respeito, pois ela é fruto de anos de observação e sabedoria, mas a ciência ajuda muito e permite descobrir opções que, em outras condições, não seria possível.

O resto da viagem, a partir de Florianópolis foi tranquila.

A esposa do meu companheiro pescador se uniu a nós pelo resto da viagem e isto foi ótimo. A partir daí teríamos comida bem feita!

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Sempre usando as previsões recebidas, definimos a saída para Porto Belo e em seguida, outra parada, em São Francisco do Sul, onde amigos vieram a bordo para um jantar com comida alemã e momentos deliciosos, de conversas e alegria. Afinal, o nome do barco é Alegria e ela esteve presente em todos os momentos.

De comum acordo decidimos efetuar mais uma parada em Antonina, lugar que eu nunca havia visitado com veleiro.

Estive lá uma única vez, no início dos anos 80, quando venci o Campeonato Sul Brasileiro de Windsurf, portanto, nada similar a ir de veleiro.

Navegar naquelas águas onde o imortal Joshua Slocum perdeu seu barco e construiu o Liberdade foi emocionante!

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

No Clube Náutico local fomos recebidos de forma incrivelmente agradável.

Hora de partir, tanques cheios para alegria do nosso tripulante. As informações do nosso meteórologo indicavam uma subida tranquila até o Guarujá, salvo que, na última noite dessa viagem, deveríamos esperar o vento descrito acima.

Depois entregamos o Alegria ao seu feliz proprietário, que estava aguardando o seu recém-nascido, com ansiedade.

A grande e maravilhosa experiência foi a de fazer uma viagem com um meteorologista profissional, acompanhando-a em tempo real. Impressionante como isso ajuda a fazer a escolhas corretas e navegar com segurança.

A experiência de velejar tendo um meteorologista que tem acesso a outras fontes de informação, que não apenas os habituais apps gratuitos, foi incrível!

O Dr. Giovanni dá cursos de meteorologia, mas nunca pensei que eles pudessem acertar com precisão de poucos minutos as condições meteorológicas. Impressionante!

Aqueles grandes velejadores que fazem as competições como Vendée Globe têm esse acompanhamento em real time. Cabe a eles fazer suas escolhas, mas sabem de antemão o que encontrarão pela frente. Creio que seria impossível para eles fazerem aquelas grandes performances, sem receber informações precisas. Claro que a escolha do que fazer, sempre é do Capitão, mas ter informações de boa qualidade reduz drasticamente a chance de acidentes.

Fazer Rio Grande – Florianópolis sabendo que vem nordeste é temerário, mas sabendo com perfeição como serão as condições meteorológicas hora-a-hora, permite fazer as escolhas corretas, inclusive a decisão de não iniciar a viagem.

Aprendi muito com a experiência dos gaúchos e a ajuda incrível de um super Anjo da Guarda cientista.

Foto: Elio Ssomaschini Crapun

Obrigado ao Alegria e aos seus proprietários, Rose e Paulo, por ter me dado a honra de levar o bebé para a sua nova casa e ter completado mais uma entrega de veleiro.

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Obrigado a todos pela ajuda e Bons Ventos!

Clique aqui para o post original.

Élio Somaschini

Blog do Élio Crapum

Veiculado pela SailBrasil News com autorização do autor. Copyright © Élio Somaschini . Todos os direitos reservados. All rights reserved.

About Max Gorissen
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