Diário 32 – 17/07/22 – Expedição Rota Polar

Será que vamos partir?

O domingo aqui em Tuktoyaktuk surpreendeu, o Sol veio nos visitar, trouxe uma linda brisa, e misteriosamente os mosquitos diminuíram. Sei que vão voltar.

Vamos sair na terça-feira à tarde para termos condições de vento favoráveis, mas em relação ao gelo já sabemos que não teremos moleza à caminho de Paulatuk. Prevemos chegar entre e 4 a 5 dias, e neste período todos vão nos acompanhar normalmente.

Agora véspera de partirmos, lembrei-me de um texto que fala da nossa chegada na Austrália depois de 17 mil quilômetros.

Na sua opinião o que é mais importante em nossa dupla?

Quando faltavam apenas 100 milhas para chegarmos à costa australiana, avistamos um espetáculo de luzes no horizonte. Já havíamos navegado 9.000 mil milhas (17.000 mil kms), e somando a última noite, iríamos completar 71 dias e noites (dias velejados) em mar aberto em um pequeno barco sem cabine, a nossa jangada hi-tec, como apelidamos carinhosamente.

Nunca havia visto uma linha tão grande de relâmpagos, parecia que algo estava acontecendo na costa da Austrália. Não eram fogos para nos saldar, mas um espetáculo da natureza. Falamos pelo telefone via satélite com a Maristela que nos esperava em Bundaberg, e ela nos disse que a maior tempestade dos últimos 30 anos estava acontecendo naquela noite.

Os últimos dias da viagem o vento sempre nos surpreendia e ia embora por algumas horas. Estes pequenos atrasos nos levaram a não chegar junto com a tempestade. A vontade de chegar era enorme, mas como sempre coloco, velejar é jogar xadrez com o vento, temos que dosar a ânsia de partir com a sabedoria de esperar.

Na manhã seguinte fixamos os olhos na proa à procura de um sinal de terra, mas aquelas terras são baixas, deixando nosso presente para as últimas milhas. A Austrália apareceu por volta das 10h30min da manhã, e em pouco tempo o nosso sonho de cruzar o Pacífico chegaria ao fim. Conseguimos! Estava sentindo muitas coisas no meu coração, e tinha medo de chegar sem realizar verdadeiramente o que conquistamos. Quando vi os relâmpagos com o Igor, meu grande companheiro de viagem, eu fiquei me perguntando; Qual o sentido de tudo isso? Porque dois amigos se juntam em uma empreitada tão difícil, e passam tanto tempo confinados em um pedaço de fibra de vidro flutuando pelo imenso Oceano Pacífico?

O óbvio eu sabia, o desafio náutico sempre me atraiu. Desde cedo quis ser um velejador, sonhava em velejar pelo mundo, só não imaginava que seria em um barco sem cabine, mas estava faltando algo para fazer sentido.

Durante esta última noite decidimos não dormir, ficamos assistindo o espetáculo de luzes no horizonte, e para ajudar tínhamos um bom vento por trás, que empurrava o Bye Bye Brasil cada vez mais perto do nosso sonho. Nossa jangada surfava feliz, acelerando a cada onda.

Conversávamos sobre o que faríamos diferente caso a viagem recomeçasse novamente. Imaginamos o barco perfeito. Lembramos-nos dos personagens e amigos que conhecemos ao longo da viagem, das pessoas que estavam de certa forma a bordo, pois elas também estavam cruzando o Pacífico junto.

Sem o apoio delas nada existiria. Foi um momento de agradecimento interno.

Certo momento realizei que estava diante de uma pessoa muito especial, pois depois de tudo que passamos, com todas as quebras e incertezas, estávamos chegando na Austrália mais amigos do que quando saímos do Chile alguns meses antes.

Amizade. Esta palavra merece um pouco mais de atenção. Olhando para trás, vejo como ela vem me acompanhando minha vida neste planeta. Não sou ainda capaz de entender completamente, mas a vida me deu a oportunidade de fazer muitas coisas diferentes. Trabalhei como barman, DJ, fui sócio de vários lugares na noite, velejei, escrevi, falei, filmei, fotografei, publiquei alguns livros, fiz coisas que não deram certo, e vi que não importa muito o que eu faça na vida se não tiver acompanhada de amor e dedicação.

Neste tempo que vivemos existe uma fixação pela palavra sucesso, fama, celebridade, e por ai vai. Estou sempre atento a este movimento, e nunca me sinto confortável com a maneira que estamos construindo estes valores. Sucesso para mim é eu ser meu amigo, e por sua vez capaz de construir amizades por onde quer que eu vá. Ser meu amigo significa ter o poder de ser honesto comigo, me perdoar, me aceitar e ter vontade de começar de novo, para aprender a me relacionar melhor. Isso não depende do outro. Aprendi que a qualidade do meu relacionamento com o outro, depende da qualidade do meu relacionamento comigo. Como posso eu querer que alguém seja meu amigo e me compreenda, se eu mesmo não consigo fazer isso comigo.

Chega uma hora que cansa apontar o dedo para os outros, acusando-os pela minha infelicidade, ou pelo meu insucesso.

Naquela última noite iluminada, tive dimensão da nossa conquista. Não era somente a conquista náutica, era uma vitória que foi construída ao longo de muito tempo. Nossas vidas caminharam separadamente, mas naquele dia, elas se juntaram para nos dar uma única e verdadeira oportunidade. Chegarmos abraçados, como grandes amigos. Desde então me pergunto. Não seria possível isso acontecer com todas as pessoas que estão aqui juntas na mesma viagem, por que não celebramos a vida todos os dias ao lado dos amigos?

Onde mora a desconfiança de que isto não é possível? A palavra chave é confiança, e digo com muita segurança. Se não confiamos no outro, isto quer dizer que não confiamos na vida e em nós.

Não separo família e relações afetivas de amigos. Todos são meus amigos. Para mim qualquer coisa que se distancie da possibilidade de ser amigo está ligado ao fracasso.

Escrevo para vocês meus amigos. A vida para mim é isso, uma oportunidade de aprender a amar, e isso só pode acontecer se eu tiver com quem me relacionar. Porque foram os amigos que me ajudaram a entender sobre o perdão quando errei, pois, muitas vezes fui o algoz.

Foram os amigos que me ajudaram a amar quando eu não fui capaz de me entregar, foram os meus amigos que me ensinaram sobre a generosidade quando não fui capaz de doar, e foram os amigos que me ensinaram sobre a saudade quando fui viajar.

Sinto-me muito querido por vocês, e tenho algo a dizer a todos. Sem vocês não poderia ser testado pela vida, nunca saberia onde estou se não fossem meus relacionamentos. Foram eles que me trouxeram até aqui. Como reagi a tudo e todos é a síntese do que sou. Por isso agradeço profundamente, do fundo do meu coração, pois são vocês que dão sentido a este profundo mistério que é viver.

Um grande abraço a todos.

Happy Together

Beto Pandiani

Autor da foto em destaque: Expedição Rota Polar – Beto Pandiani e Igor Bely


Beto Pandiani e Igor Bely embarcam em uma jornada de 100 dias velejando por uma rota marítima lendária: a Passagem do Noroeste.

Localizada no extremo norte das Américas, acima do Círculo Polar, a Passagem é uma área de estreitos que esteve, por séculos, congelada.

Esse cenário, porém, tem mudado nos últimos 25 anos, com o degelo da região e a abertura de caminhos antes intransponíveis.

Partindo do Alasca rumo ao mar da Groenlândia, Beto e Igor querem entender em que medida essa transformação tem sido causada pelo homem e em que medida é ação da natureza.

Filmada pela Tocha Filmes e acompanhada por um time de especialistas da USP, a viagem dará origem a um documentário sobre as mudanças climáticas no Ártico e seu eventual efeito no resto do planeta.

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