Entrevista com Manoel Messias, responsável pela reforma dos Classe Brasil Turuna e Malagô, rebatizados Pepa XVIII e Pepa XIX.

Entrevistei o Sr. Manoel Messias Barbosa, ou Messias, como o pessoal da náutica o conhece, um velejador e restaurador de embarcações sediado no Guarujá.

Ele acabou de restaurar dois veleiros de madeira Classe Brasil, o Turuna, agora chamado Pepa XVIII, e o Magalô, agora chamado Pepa XIX, sendo Pepa, o nome usado pelo proprietário atual de ambas para chamar todas as suas embarcações.

Em uma conversa agradável e descontraída, sentados confortavelmente dentro do veleiro Pepa XVIII (Turuna) ele contou um pouco da sua história na vela, sobre a reforma de barcos e um pouquinho sobre esses dois clássicos que ele restaurou.

Messias – É um prazer dar esta entrevista para você, Max. Bem, meu nome é Manoel Messias Barbosa, mas o pessoal da náutica me conhece como Messias. Comecei a trabalhar com barcos aos 14 anos de idade no estaleiro do Sr. Luiz Domingues Oliveira, infelizmente falecido, localizado na represa Guarapiranga em São Paulo. Ele foi meu tutor no ramo náutico pelos 5 anos em que trabalhei no seu estaleiro (que ficava no início da rua do YCSA – Yacht Club Santo Amaro). Então, no ano 1980, fui trabalhar na FAST YACHTS como Encarregado de Desenvolvimento de Produtos sendo responsável pela modelação e construção dos primeiros barcos. Posso afirmar que veleiros como o Fast 395, o 310, o 230 e o 500, desde o recebimento do projeto do designer até ficar pronto e navegando, tem a minha mão.

SB – Falando de Fast 500, não tem como deixar de falar sobre o primeiro Fast 500, o Força Maior, que foi totalmente reformado faz pouco tempo e agora está em Ubatuba. Qual foi sua participação nesse projeto?

Messias – Considero o Força Maior como o meu “primeiro filho” pois trabalhei nele desde o momento em que o projeto do Sr. German Frers foi adquirido, participando do traçado das linhas (lofting) em um compensado na parede para conferir o design em escala real, a construção do plugue, a laminação do casco e deck, instalação do interior e de todos os equipamentos e da mastreação, até colocar o veleiro na água.

SB – Vamos deixar a Fast Yachts para uma outra entrevista pois esta é sobre a reforma dos dois veleiros Classe Brasil, mas antes de falar sobre estes, como você veio parar no Guarujá e se tornar em um dos destacados restauradores de embarcações e dos poucos que restauram veleiros de madeira aqui na região?

Messias – Bem, é uma longa história, mas, resumindo, em 1986 eu saí da FAST YACHTS e fui chamado para fazer um serviço em um veleiro Fast 410 (o primeiro) em uma marina aqui no Guarujá e que tinha sofrido um acidente, caindo do pau-de-carga (naquela época ainda não existia no Brasil os Travel-lifts) e quebrado, além do mastro, parte do deck, do casco e da quilha, que havia arrebentado o fundo e parte do interior. Reformei o veleiro inteiro usando meus conhecimentos de fabricação de veleiros adquirido na FAST e o veleiro ficou como novo. De lá para cá acabei gostando e vim morar no Guarujá, passando a mexer com reforma de barcos na região.

SB – Além de reforma de barco aqui no Guarujá, você também trabalha em outras áreas do litoral?

Messias – Sim, há uns sete anos eu montei uma subsede da minha empresa na Marina Imperial, em Paraty, na qual realizamos pintura de fundo e polimento. Eu tenho uma pessoa que trabalha para mim lá e que coordena e executa todos os trabalhos.

SB – Vamos mudar um pouco de assunto e falar dos veleiros Classe Brasil de nome Turuna e Malagô, agora, renomeados, respectivamente, Pepa XVIII e Pepa XIX. Como é que foi pegar dois veleiros clássicos que estavam, sem bem me recordo, em bastante mau estado e restaurá-los para ficarem esta maravilha que vemos hoje?

Messias – Para mim foi um prazer recuperar estes dois veleiros. Estes barcos têm história. São dois veleiros do mesmo projeto Sparkman & Stephens, chamado por aqui de Classe Brasil e uma adaptação do projeto S&S Mackinac para o Brasil. O Turuna foi construído em 1962 para o Sr. Caio de Barros Penteado no Estaleiro Arataca, em Santa Catarina e, para você ter uma ideia da excelência do veleiro, recém varado, venceu a regata Santos–Rio de 1962. O Malagô foi construído em 1961 para o Sr. Antônio Adelson Coelho no estaleiro do Iate clube da Bahía, em Salvador, tendo participado de sete edições da Santos-Rio, sendo seu melhor resultado, uma 4ª posição na Geral e 2º na Classe B, também no ano de 1962. Depois de 60 anos de muita velejada, ficaram novos novamente!

SB – E vão durar por muito mais tempo depois que a gente se for, não é?

Messias – A ideia é essa, é que eles durem por muito tempo depois da reforma que fizemos neles. Na verdade, no Turuna, foi feita uma reforma mais abrangente, ou seja, precisou de muito mais trabalho para deixá-lo o mais original possível já que era isso que o cliente queria. No Malagô, o cliente queria que déssemos uma ajeitada para que ficasse operacional e pudesse participar de regatas. E assim foi feito.

SB – Basicamente, os dois barcos são do mesmo proprietário e ele trocou peças entre um e outro para fazer com que o Pepa XVIII (Turuna) ficasse um veleiro um pouco mais original. É isso?

Messias – Exatamente. Nós trocamos peças de um barco com o outro de acordo com a necessidade e as peças que não encontramos no Brasil, fomos buscar na Argentina, na loja que, inclusive, você me recomendou, comprando tudo que precisávamos para finalizar o serviço. Aproveitamos e fomos também visitar o WoodenBoat Show realizado no Mystic Seaport Museum em Connecticut nos USA, para ver como eram reformados os barcos de madeira por lá e como eram construídos mastros de madeira, entre outras coisas. Ficamos quatro dias na feira olhando tudo. Não que não soubéssemos o que estávamos fazendo, mas é sempre bom aprimorar o conhecimento. Evidentemente, o esforço ajudou bastante.

SB – O Mystic Seaport Museum é um grande centro da marcenaria naval já que lá eles têm e restauram muitas embarcações de madeira. São apaixonados, como também o Argentino, aqui na América Latina, país que também tem muito veleiro de madeira. Aqui no Brasil, ao contrário, temos poucos veleiros de madeira e, entre eles, você recuperou essas duas joias. Como foi o trabalho para restaurar esses barcos e quais foram as dificuldades que você teve durante a reforma?

Messias – Na verdade, a maior dificuldade que tivemos foi achar a mão de obra que gostasse de trabalhar com o barco de madeira. No Guarujá, são poucas as pessoas que sabem ou apreciam trabalhar a madeira. Mas eu tive a felicidade de achar essas pessoas e eles fizeram um excelente trabalho. Com uma mão de obra realmente boa, o que ajudou bastante, foi um prazer realizar essa reforma. Eu trabalho com barco desde os 14 anos de idade, hoje estou com 61 anos, então o barco para mim é minha vida, é meu prazer; eu mexo com barco porque eu gosto. Não é só o intuito de ganhar dinheiro. Se não ganhar dinheiro de um jeito, se ganha de outro. Então, para mim, o importante é o prazer, é restaurar barco. É ter o prazer de fazer perfeito.

SB – Quanto tempo durou a reforma e se você tivesse de fazer tudo de novo, daria para fazer mais rápido?

Messias – A reforma básica de um barco igual a esses, onde fizemos tudo como, madeiramento, interior, hidráulica, mecânica, elétrica, tapeçaria, mastreação, entre outros, dura em torno de um ano e meio. Só que meu cliente não tinha pressa. Ele queria um serviço perfeito. Então nos demos ao luxo de demorar um pouco mais, praticamente dois anos e meio, como disse, porque ele não tinha pressa. Mas um ano e meio até dois é o tempo que demora uma reforma completa como estas.

SB – Esses barcos, além de virarem praticamente esculturas de arte, vocês já comprovaram que velejam bem, tanto que vão participar da 49ª Semana Internacional de Vela de Ilhabela, na semana que vem. Com isso, você conseguiu novos serviços relacionados com madeira, ou seja, estes veleiros trouxeram novos clientes?

Messias – Sim, a reforma desses dois veleiros já me trouxe mais dois outros veleiros. O interessante é que os dois que entraram, são dois veleiros Finisterre de 43 pés.

SB – Ou seja, você está se especializando em veleiros com design da Sparkman & Stephens?

Messias – É, projetista bom tem nome, né? Então, eu fico feliz de colocar pelo menos meu carimbo neles. Um dos dois 43 chega daqui a um mês. O outro já está aqui há mais ou menos uns sete ou oito meses e, mês que vem, vamos dar o “start” na reforma. O outro chega no dia dez de Agosto e, inclusive, pertence ao mesmo proprietário do Pepa XVIII e Pepa XIX (Turuna e Malagô) que adora barcos de madeira.

SB – Além de veleiros de madeira, acredito que você também trabalhe com lanchas e veleiros fabricados com outro tipo de material, principalmente a fibra de vidro, não é?

Messias – Exatamente. Eu trabalho também com todo tipo de embarcação de fibra, inclusive com lanchas. Na verdade, eu sou especialista em sinistro (para seguro) de barco. O barco bate e eu sou consultado pelo seguro para reformar e deixar em ordem. Eu já trabalho nesse ramo há muito tempo e sou especialista em fibra de vidro. Com madeira, eu trabalhei muito no começo da minha carreira, mas estou voltando ao meu passado e isso é interessante. Mas a parte que a gente sente mais falta é, na verdade, de uma escola ou faculdade que ensine às pessoas mais jovens a se interessar pelo ramo náutico, mas, infelizmente, não temos visto nenhum incentivo nisso. Seria interessante se tivéssemos no Brasil, uma escola ou faculdade de marcenaria naval pois, elétrica e hidráulica até têm, mas de marcenaria naval, que é a alma do negócio, não é tão fácil de achar.

SB – Sem dúvida isso seria muito bom, mas pode ser assunto para outra conversa. Voltando para dois veleiros, eles estão indo para Semana de Vela. O que você espera desses veleiros nas regatas?

Messias – Na verdade, o Pepa XVIII (Turuna) não vai mais participar da Semana de Vela pois o proprietário decidiu de que ele precisa passar por outras reformas para melhorar seu rating. O veleiro está perfeito, mas existe uma série de melhorias que podem ser feitas para melhorar o rating dele nas regatas e ficou decidido de que ele só iria participar assim que tiver estas modificações implementadas. O Pepa XIX (Magalô) parte hoje a noite, 19/07/2022, com chegada prevista na Ilhabela amanhã. O veleiro está pronto e tudo que eu espero é que a tripulação que esteja a bordo navegue e faça jus à história e ao pedigree do barco, porque o barco navega muito.

SB – Muito obrigado pela entrevista, Messias. Para finalizar, gostaria que você deixasse seu contato para se alguém quiser conversar com você.

Messias – Meu contato por celular ou WhatsApp é o 13-98125-0404 e o meu e-mail é o masteriate@uol.com.br.

SB – Perfeito. Muito obrigado pela entrevista, bons ventos para você e sucesso na Semana de Vela com “seus” veleiros.

Messias – Agradeço e bons ventos para todos nós!

Galeria de Fotos fornecidas pelo Sr. Messias:

Fotos fornecidas por seu autor: Manoel Messias Barbosa

Reportagem pela SailBrasil (SB): Max Gorissen – Jornalista e Editor

A SailBrasil é sobre muito mais do que vela e veleiros; é sobre o estilo de vida da vela e a relação que existe entre os seres humanos e o mar, descrita através de histórias curtas, mas muito bem contadas, informações atualizadas, de um lindo design e de uma fotografia impressionante.

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